Berlim: dinâmica política estonteante e a dança dos ovos dos socialdemocratas (SPD)

Fátima Lacerda

24 Novembro 2017 | 08h07

Foto: dpa, TOBIAS SCHWARZ / AFP

Um efeito dominó não é nada comparado à atual situação política  na Alemanha. Em 29 anos em terras berlinenses já presenciei vários momentos históricos, mas este angu, no âmbito político-partidário, nunca houve igual em 70 anos.

O colapso das sondagens com duração de 4 semanas para tentar esboçar uma check-list para negociar a formação de um novo governo na sequência, causou um efeito dominó na capital da república, sacode os partidos e suas personalidades nos quesitos da vaidade (especialmente a masculina), orgulho e/ou maturidade para entender a complexidade do momento e interpretar a vontade do eleitor/da eleitora. Mais do que isso: a responsabilidade que lhes foi dada através do voto.

Muito políticos priorizam e rezam todos os dias para que o Presidente da República convoquem novas eleições, passando a bola para o eleitor do tipo: “Vê se agora vota direito!”. A Alemanha tirou lição do tempo do nacional-socialismo e soube conceber a constituição com vários empecilhos para uma convocação fácil de novas eleições. Neste caso, ela seria por volta da Páscoa e custaria ao contribuinte 90 milhões de euros.

Dinâmica estonteante

Antes que a Ultima Ratio seja ativada pelo presidente, o social-democrata Frank-Walter Steinmer, muita água já está rolando por debaixo do Rio Spree, o rio que tem sua nascente na fronteira com a República Checa e passa pelo centro de Berlim.

Steinmeier sempre foi um democrata e um diplomata que atuava, preferivelmente, fora do holofote das câmeras. Que ele está no cargo de presidente é porque Merkel nao havia consequido ninguém disposto ou disposta a pegar a batata-quente. Na época, a chanceler esperava sugerir ao parlamento um candidado da sua área política. Como nao se achou ninguém, os social-democratas colocaram Steinmeier no ringue. Porém, no início deste ano, no contexto de sua posse, ninguém imaginaria a incumbência que o burocrata teria.

Depois do colapso das sondagens para a tentativa de formacao de um governo e sem previsao disso acontecer, Steinmeier chamou os participantes das sondagens para conversa no Palácio Presidencial, o Bellevue. Como um diretor de escola que chama criancas que fizeram bagunca na na sala, levando à professora à beira de um colapso nervoso. Decerto que Merkel está longe de perder a cabeça, de se escabelar, porém em toda a sua carreira política, ela nunca teve seu poder em tal sofrência de erosao e se vendo de uma forma como ela nunca quis, dependendo de terceiros. E logo de Steinemeier, da qual foi chefe durante anos quando o socialdemocrata, na “Grande Coalizão” do CDU com o SPD, era seu subordinado ao ocupar a pasta do Ministério das Relacoes Exteriores.

Jesco Denzel/dpa

Socialdemocratas na dança dos ovos e correndo atrás do prejuízo

Existem vários aspectos que fazem desse momento histórico. Um deles é a virada de 360 graus que os social-democratas deram na madrugada de quinta para sexta-feira (24).

Martin Schulz, o chefe dos social-democratas, em desgraça constante desde as eleições, foi chamado para conversa por Steinmeier, atual presidente no Palácio Bellevue. Steinmeier é companheiro de longas datas de partido, mas enquanto ocupa a presidente, ele não atual como tal, diz o protocolo oficial.

Depois do encontro com o presidente e seu ex-companheiro de partidos de tantas lutas anteriores, parece que Steinmeier conseguiu quebrar o muro de lamentos e mimimi do ex-vendedor de livros

O chefe do partido entrou em reunião na sede e sem hora para acabar. Foram mais oito horas de maratona de conversas e sondagens com os membros da diretoria do partido se Schulz deve ceder ou não. Nesta semana ele entendeu que, na politica, o absolutismo e a opção pelo o que eu chamaria  Modus Marrento,  pode custar a sua cabeça. 

O memorável Herbert Wehner chefe de bancada na época em que a capital era sediada em Bonn, se fez eterno com a frase: “Primeiro vem o país. Depois o partido”. Talvez Schulz só tenha a chance de permanecer chefe do SPD, se seguir a premissa de Wehner e ceder a pressão da diretoria do partido, dos adversários políticos e da imprensa alemã.

A sede do SPD, é a dois quarteirões de minha casa e, na noite de quinta-feira (23) parecia um forte midiatico, tal era o o número de carros de emissoras estacionados na frente da “Casa Willy Brandt” para divulgar notícias em cima da hora. No intermezzo, lá pelo final da noite, vazou a informação de que um veículo teria entregue muitas pizzas no prédio: “Parece que a noite vai ser longa” informata o repórter Thomas Walde, do conglomerado de emissoras abertas ARD, postado em frente à sede do partido.

O dia seguinte

Na manha de sexta-feira (24) a imprensa alemã divulga que o SPD está “disposto a negociar”, a sondar com Merkel sobre modalidades de uma forma de governo. Depois do terremoto político na madrugada de domingo, o tabloide Bild assim como alguns membros do chamado “corredor da esquerda” do partido, começaram a pressionar Schulz para “sair da sua emburração”. Na noite de quinta-feira, corria nos círculos de integrantes do partido o boato de que Schulz estaria prestes a renunciar, algo que foi desmentido, de imediato, pelo Secretário-Geral do partido, Hubertus Heil.

Vale lembrar os social-democratas, na noite das eleições, 24.09., nem mesmo depois de 3 horas do fechamento das zonas eleitorais e frente a um resultado de perda vertiginosa, o chefe do SPD já declarou querer fazer “uma forte oposição”. Nem mesmo interesse em participar das conversas de sondagens ele considerou e foi categórico. Uma das inúmeras ironias da atual situação é que os social-democratas ainda fazem no âmbito de comissariado, parte do antigo governo. No parlamento atual, que já tomou posse, eles ocupam o banco da oposição e não deixam nenhuma dúvida nisso nos poucos debates que até agora. O SPD ficou amuado, saiu muito p. da relação venho as medidas por ele encaminhadas, como a fixação do salário mínimo de 8 euros não teve a receptividade do eleitor. Um casamento por conveniência, no qual o fim foi marcado por muitas mágoas, poderá ter que encarar um Vale a Pena Ver de Novo. E uma escolha entre peste e cólera, mas entre todas as opções essa, ainda é a melhor possível frente a possibilidade de uma incerteza que pode durar meses.

Futuro incerto

Durante muitas décadas, a UE temia a dominância alemã. Nesses dias, a UE não sabe o que será dela sem o tecedor mór e a economia mais robusta do continente.

Na manhã de sexta-feira, não se sabe em qual constelação o novo governo alemão será formado. Se em forma de Grande Coalizão com o CDU de Merkel e os social-democratas, algo que os eleitores, visivelmente, rejeitaram e, segundo pesquisas atuais, continuam rejeitando. A outra opção é um governo de minoria entre o CDU de Merkel e os Verdes. Porém, para cada lei aprovada, a chanceler teria que sair de porta em porta procurando maiorias. Em outros tempos, poder-se-ia afirmar com certeza que Merkel jamais cogitaria tal possibilidade, mas depois do colapso perfeitamente encenado pelos Liberais Democratas (FDP, na sigla) e o resultante tsunami político-partidário, não se pode afirmar nada mais com certeza. E isso, num país que constava como o alicerce de estabilidade política no centro da UE.