Berlim e Paris – Similaridades, diferenças e impressões do ultimo dia do ano

Fátima Lacerda

31 de dezembro de 2014 | 17h23

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Entre todas as capitais européias, Paris é quer mais visitei. Entretanto, a minha última visita já tem mais de 15 anos. Uma grande coincidência me fez passar o fim de ano na cidade da luz. O efeito paralelo e não planejado, é que pude fugir da neve  e da neblina que desde a segunda-feira, acomete Berlim.

O efervescente e o despojado

Enquanto no início da tarde do dia 31 em Berlim, o comércio se despede do ano velho e os turistas começam a surgir nas ruas e a se dirigirem para a grande festa no Portal de Brandemburgo, festa produzida pela prefeitura e que conta com meio milhão de pessoas.

Paris e o destino número 1 quando se trata de turismo na Europa. Os RERs, trêns que vão por cima, estão cheios, abarrotados de parisienses e turistas que visitam, por exemplo,  o Museu Rodin. A maioria se interessa mesmo é pela escultura “O pensador”, exposta no jardim. Para quem é atento, além da lente da máquina ou do celular, vai descobrir a parte de cima da silueta da Torre Eiffel se insinuando num cenário deslumbrante.

Ao contrário de 15 anos atrás, o Museu Rodin se tornou um bazar turco. Um entra e sai, sinteco sujo, todos freneticamente tirando fotos. Da última vez que ali estive, os seguranças tinham ordens expressas para, de todo o jeito, impedir máquinas fotográficas e pelo tom agressivo usado com os visitantes, não deixavam nenhuma dúvida disso.

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Em Berlim eu não conheço um museu que tenha, nem de longe, esse aspecto de um bazar, de fim de feira, de hoje e só e amanhã e não tem mais. Uma visita que, em (pela primeira vez) 1989 me abriu um horizonte artístico e intelectual ímpar, ontem me fez sentir como num Mc Donald’s das artes. A obra de Rodin continua esplêndida, mas a administração do museu tem uma filosofia bem diferente do que é consumir arte.

Em Paris, a basílica de Sacre Cour parece um mercado. No lugar reservado para os fiéis, turistas sentam para tirar fotos. A mulher vestida com uma Burca, se deixava fotografar com filho pequeno os braços. Um grupo de jovens alemães rodeava um dos rapazes enquanto da Wikipédia, ele lia sobre a história daquele lugar. As jovens mulheres em volta tentavam disfarçar o tédio. Duas meninas asiáticas e muito sorridentes corriam entre o primeiro banco em frente ao altar, ate que uma senhora francesa olhou pra trás, de certo a procura dos responsáveis pelas meninas. Na porta da igreja, ciganas já em idade avançada, estendiam as mãos por uma esmola e eram quase pisoteadas pela multidão que se espremia na entrada.

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Do lado de fora, apoiado num pedestal, um talentosíssimo amante do futebol, mostrou que o futebol arte não e domínio somente dos brasileiros. Depois de uma performance brilhante, composta de talento, disciplina corporal , ele cumprimentou todos os que esticavam a mão. Independente se colocaram moedas no chapéu ou não.

https://www.youtube.com/watch?v=1uqTXLIzPTk

Em homenagem á minha avó Hercília, criada no colégio de freiras de irmãs francesas, eu entrei na igreja, o que foi bem vindo, depois das infinitas escadas até chegar lá em cima.

Ao redor, camelôs vendendo bolsas, trenzinhos de madeira, miniaturas da Torre Eifel. Um homem no centro da escada que oferece vista deslumbrante de Paris,  dedilhava na harpa. Jovens portugueses apareceram com o Tablet na mão como se fosse uma carteira. Uma guia turística alemã  andava com um boné amarelo no braço direito levantado para que não fosse perdida de vista. De repente chegam soldados do exército francês com um uniforme ridículo e uma boina vermelha arriada na cabeça. Coco Chanel deve estar dando cambalhotas no túmulo e Karl Lagerfeld teria um ataque de fúria ao vislumbrar tal sacrilégio. 

3 soldatos. De forma austera, descem as escadas com enormes metralhadores posicionadas de um jeito, que poderiam atirar imediatamente, caso se fizesse uma necessidade. Mostrando presença, ele param em frente aos camelôs, em sua maioria, africano, dão uma volta, mostram serviço. Na imprensa alemã  foi noticiado que o esquema de segurança na França seria reforçado “devido à ameaça de ataque terrorista”. 

Depois de rolé pequeno, ao mesmo tempo que cheio de simbologia, os soldados se foram. A propósito: Andando pelas estações de metrô e de RER em Paris com seus sub-sub-subsolo, nível menos 3 pela imensidão de estações do metro, não há como não pensar: Em caso de ataque terrorista, não sobre ninguém. Quem, com a autora desse artigo, achava que a estacao Cardeal Arcoverde era barra pesada, é só dar uma passadinha na estação Invalides.

Uma das diferenças mais literalmente mais gritantes entre as duas capitais é o barulho. No bairro número 18, Paris mostra a sua cara. Eu diria uma Alexanderplatz multiplicada por 100. Incontável o número de salões de beleza para africanos. Lojas em que você compra celular, conserta, devolve e compra créditos baratíssimos para ligações interurbanas. Inúmeras lojas de noiva. Na alameda em direçao a estacao Gare du Nord esse é o estabelecimento mais comum. Na Alemanha, você  não casa. Você junta os trapos e às vezes nem se fala muito nisso. É tudo muito pragmático e falar  não é a virtude número 1 dos alemães.

No mercado ao lado da estação de metro Chateau Rouge é uma feira. Tudo fresquinho. O dono da barraca de peixe fica coordenando os mínimos detalhes e no final, na hora da xepa, a gritaria pela atenção do cliente na hora do vale tudo, não difere em nada da feira da Rua Garibaldi na Tijuca carioca.

Bem ao contrário de Berlim, a cultura africana, a cultura negra não é um setor paralelo como os turcos e curdos na Alemanha. Por questão também de números, mas também por questoes culturais, a imigração em Paris me parece mais bem resolvida. Na esquina ou mesmo no meio da rua, grupos de africanos sorriem, falam alto, telefonam no celular.

Ainda no quesito FALAR

Entrando de gaiato no navio, logo depois de sair do trêm na estacao ferroviária Paris Est, entrei na fila dos taxis que sao de cor preta, suscitando elegância. Nada dos taxis mercedes benz na cor de bege com náuseas. Depois de posicionar as malas no carro e depois que eu com o meu francês razoável, mas no primeiro dia, um tanto enferrujado, expliquei o nosso endereco. O que eu nao sabia, era que os táxis dali só faziam transporte para o aeroporto, ou seja, grana preta. O apartamento para onde eu queria ir, era 6 minutos dali. O motorista quando soube que nao teria o robusto dinheiro por uma corrida até o aeroporto, começou a reclamar, choramingar (alternando um e outro enquanto paralelamente bufava. Eu, como todo berlinense, sempre explicando e tentando esclarecer que eu não  sabia ao mesmo tempo sem entender porque ele não desistiu, já que falei enquanto o carro estava parado, mas não  seguiu adiante. Bufava. Telefonava no celular. Quando eu perguntei se ele não  queria olhar no papel o endereço, ele disse: “Eu já entendi o que a Sra. falou, A ligação no celular continuava. Eu disse que sentia muito pelo ocorrido. Ele, entre um bufar e outro e disse: “O seu francês é muito bom, Madame.” Foi ai que a ficha caiu: Em Berlim, quando alguém reclama, você vai lá, esclarece e só sossega quando tudo fica zerado. O bufar dele foi, num primeiro momento, causado pelo “inusitado” trajeto, mas todo o resto, não tinha nada a ver comigo. Era toda uma ego trip dele.

Nos supermercados tem o gerente que fica entre os caixas como um Leão de Chácara . Em Berlim, isso seria uma agressão a emancipação  do consumidor. Haveriam muitas reclamações dos que se sentiriam remetidos aos tempos do Império e suas viscerais autarquias e hierarquias.

Lá pelas 15 horas, horário local, Paris não mostrava nenhum sinal de se recolher para se prepara para a virada.

Na tarde brindada pelo sol e muita luz, vi algumas garrafas de champagne nas varandas e nas janelas.

Num dos templos artísticos de diversidade cultural, o Cabaret Sauvage, havera uma festa brasileira em grande estilo. A cantora maranhense, Ana Torres, será a principal atração da noite. No cardápio não faltarão Xinxim de Galinha, salgadinhos e outras cositas mas.

Ano passado foi descalça na areia de Copa, com música  de Nando Reis e Lulu Santos. Hoje. A minha Copacabana e aqui. Com sol, musica numa cidade pulsante e o melhor de tudo. Sem neve.

 

 

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