Berlim: o dia seguinte

Fátima Lacerda

20 Dezembro 2016 | 11h11

 MerkelReutersCopyright: Reuters 

A capital alemã acordou ainda mais silenciosa sob o céu cinza e a neblina que pairam pela cidade nos meses de inverno.

Berlinenses estão acostumados com motins, revoluções, revolucionários em varanda de palácio proclamando a república, foram solo da revolução pacífica, que levou à queda do Muro de Berlim em 1989.

Foram as “Mulheres dos Escombros”, que tendo perdido seus maridos e filhos na guerra, que reconstruiram essa cidade depois da capitulação do regime nacional-socialista de Hitler.

Berlineses são duros na queda. Sabem lidar com o medo, empurrá-los para debaixo do tapete, usar e abusar da teimosia prussiana numa cidade que nasceu das cinzas. Cair muitas vezes. Estar todo quebrado e levantar porque “lamentar é para os fracos” e “nada vem do nada” fazem parte intrínseca da dialética, sim, da alma berlinense.

Nada será como antes

O pós-globalizado não trouxe somente maravilhas tecnológicas, não somente fez o mundo ficar mais perto e relativizou distâncias geográficas, o pós-globalizado nos coloca frente a desafios, desafios esses que foram ignorados por tempo demais, inclusive pela chanceler alemã, que com sua mão de ferro e teimosia forneceu instrumentos para que o aparato burocrático de Bruxelas ficasse mais poderoso ao mesmo tempo que promoveu a chamada Politikverdrosenheit, a característica de se afastar da política pela sua falta de credibilidade de melhorar a vida das pessoas. Merkel governou como se não houvesse alternativa, nem para a UE e muito menos para a moeda euro. Quem não lembra de seu mantra? “Se o euro fracassa, fracassa também a a Europa”.

Contra tudo e contra a base de grande parte da sociedade civil e ainda mais contra sua tradicional clientela, adepta do centro-direita, Merkel seguiu em frente.

Em seu pronunciamento de 4:38 minutos na manhã de terça-feira (20), a chanceler se mostrou fiel à sua retórica seca e mandou discurso que, salve pouquíssimas diferenças, poderia ter sido adaptado para os atentados em Paris, Bruxelas, Turquia, Munique e Ansbach. 

O discurso de Merkel foi, em parte burocrático, em parte, para valer o protocolo. Nada mais.

Nesse Day After em que constatamos que agora o terror chegou a Berlim (e não é nem mesmo necessário aguardar o final das investigações de vários órgãos de segurança), os alemães, muito mais do que eles os berlinenses esperavam um pronunciamento de cunho, ao mesmo tempo humanista e ao mesmo tempo recheado de rigidez e da postura que se espera de uma Chefe de Governo. Merkel não foi capaz de consolar e instigar coragem dos alemães em seu pronunciamento. Ficou devendo.

Hoje é um dia muito difícil. Como milhões de pessoas na Alemanha, eu estou estarrecida, abalada e profundamente triste com o que aconteceu ontem na Breitscheidplatz, em Berlim. 12 pessoas, que ontem ainda estavam entre nós, estavam na expectativa das festas natalinas, fizeram planos para elas e agora não estão mais entre nós. Um ato brutal lhes roubou a vida. Outros tantos 40 pessoas, feridas e lutam pelas suas vidas ou pela sua saúde. Nesse momento é nessas pessoas que eu penso: nos mortos, nas vítimas, em suas famílias em seus parentes e amigos. Eu quero que vocês saibam, que um país inteiro está unido com vocês, unido na profunda tristeza. Nós todos esperamos, e alguns rezam pra que vocês para que vocês encontrem conforto depois desse atentado terrível. Para que vocês se recuperem e continuem vivendo depois desse atentado. Eu penso também nos bombeiros, nos médicos e paramédicos e nos membros da polícia que, ao redor da Igreja da Memória, tiveram o plantão muito difícil. Eu tenho grande confiança nas mulheres e homens imbuídos em esclarecer esse crime que será esclarecido em detalhes e será punido com a rigidez das nossas leis. Ainda não sabemos muitos detalhes sobre o ocorrido, mas temos que partir da premissa de que foi um atentado terrorista. Eu sei que pra nós é especialmente difícil de entender que a pessoa que cometeu esse atentado entrou na Alemanha como refugiado. Isso seria especialmente pérfido frente a muitos alemães que, diariamente, mostram engajamento no trabalho com refugiados e com os refugiados que se empenham em se integrar no país. Eu estou em contato permanente com o Presidente da República, com o Ministro do Interior e com Michael Müller, prefeito de Berlim”

Logo depois da declaração frente à imprensa as 11 horas (horário local), Merkel anunciou um encontro do Gabinete de Segurança (que inclui os monstros do interior e da justiça), junto com os chefes de polícia e do serviço secreto para avaliar o andamento das investigações“.

Dados concretos

O que a imprensa alemã já sabe é que o suspeito seria conhecido pela polícia por apresentar diversas identidades e dois nomes diferentes. Ainda na noite de segunda-feira (19) ele foi levado da delegacia direto para o Heliporto do Aeroporto de Tegel, de onde foi transportado para a cidade de Karslruhe, sul do país, sede da Promotoria Federal, incumbida na investigação de casos de terrorismo.

O que se sabe até agora

Segundo infos divulgadas pela TV berlinense baseadas em fontes do Departamento Federal de Investigações Criminais (BKA, na sigla em alemão), o suspeito é proveniente do Paquistão, tem 23 anos e, vindo pela Rota dos Bálcãs adentrou a Alemanha no dia 31 de Dezembro de 2015 e já era conhecido da polícia por “pequenos delitos”, “mas nada concernente a atividades terroristas”, afirma o jornal “Die Welt”.

Desde junho deste ano ela gozava do status de um visto de “autorização de residência” e teria vivido nos últimos meses no ex-aeroporto militar das formas americanas na época do muro, o aeroporto de Tempelhof.

Efeito dominó

As 3 horas da manhã de terça-feira, a polícia e um promotor público deram uma incerta no Hangar do Tempelhof, o maior abrigo de refugiados da cidade de Berlim.

Segundo a emissora de TV, RBB, a GS9, uma tropa de elite especialmente treinada, teria invadido o Hangar onde foram interrogados 4 refugiados, mas “sem terem obtido voz de prisão” declarou Sascha Langenbart, responsável do Senado de Berlim para assuntos de imigração.

Reações nas redes sociais

O ódio por Angela Merkel destilado nas redes ganha uma outra qualidade a do habitual discurso de insatisfação, para dizer ao mínimo, com a gestão da chanceler e a sua “escorregada” para a esquerda da chanceler desde aquela coletiva em 31 de agosto de 2015, onde Merkel abriu as portas, digo, as fronteiras, para os refugiados.

Usando a #Hashtag Merkel ou #Breitscheidplatz #Merkel, os usuários tomam se posicionam:

Essa mulher é fria quanto peixe“, alfineta a usuária Anabel

Merkel, arrasada, faz seu discurso de leitura como em todas as outras ocasiões. Imóvel, sem emoção. O que está acontecendo nesse país?”, indaga a usuária WhatSheSaid

Um simpatizante do partido populista “Alternativa para a Alemanha” (AfD) e com o #Hashttag Deutschland (Alemanha), alfinetou: “Merkel falou bla bla bla. Outra vez! Um certificado de pobreza e um tapa na cara de todas as vítimas. Vote na AfD. Agora!”

O DermitdemBart expressou seu desagrado: “Muitas palavras. Poucos atos. Ou seja. Como sempre“.

O usuário Toni Eisenblätter se mostrou nostálgico: “É nessas horas que você deseja Helmut Schmidt de volta. Aquele que fala texto claro“. Helmut Schmidt, foi o “maestro das catástrofes” de eficiência mór quando exercia o cargo de Senador na época da enchente em 1962 do Mar do Norte e que como a “Enchente do Século” atingira a cidade de Hamburgo.

O terror virou rotineiro

Agora não é a vez das luzes do Portão de Brandemburgo brilharem com as cores da bandeira da Franca, da Bélgica ou da Turquia. Agora que o terror chegou, de fato, em Berlim e nem mesmo as vítimas tendo sido identificadas, os perversos da direita populista já tentam angariar capital político de um sangue que ainda nem secou aos redores da Igreja Memorial do Imperador Guilherme, e que depois da II Guerra carrega também a denominação de “Igreja da Memória”.

Muito mais do que essas coisas mundanas e pérfidas que tem em todo o lugar, o atentado em Berlim resulta numa mudança de paradigma.

Quando há semanas eu conversava com a minha colega, correspondente para a imprensa britânica sobre o momento convulsivo em que o mundo vive, daquele jeito muito solícito e com o humor tipicamente britânico, ela declarou: “No pós-globalizado e em tempos de terrorismo a Alemanha ainda é uma oásis. Só os alemães não entenderam isso“.

Mesmo que as investigações ainda estejam em andamento, nem o Ministro do Interior, Thomas de Maizière, nem mesmo a chanceler Merkel tem dúvidas de que se trata de um atentado terrorista, o que aconteceu em Berlim. E agora? Como viver num país brutalmente desafiado pelas questões impostas pelo pós-globalizado? “É preciso estar atento e forte”, nos ensina Elis. “Ninguém faz ideia de quem vem lá”, nos avisa o Leão do Norte.

Quando no dia 02 de janeiro eu caminhava pela Champs Elysées em Paris, ao longo do imenso mercado de natal ali naquela alameda: “Se houver um atentado aqui, não sobre ninguém”. Por isso, andava sempre na tangente entre a rua e a calcada e decidi não passar a virada do ano aos pés da Torre Eiffel.

No dia 04 eu voltei pra Berlim, no dia 07 haveria o massacre na redação da revista “Charlie Hebdo”. Ainda depois disso eu voltei à capital francesa em maio. Depois de novembro de 2015 estou impedida de ir a Paris. Pelo medo. Mesmo que a mídia alemã e até mesmo a chanceler afirma que “não podemos abdicar de nossas vidas por causa do medo” isso é uma retórica que já não funciona mais. Não há como peitar o terrorismo. Não há como peitar se mostrando sem medo de ser feliz. A fonte de reserva, mais do que isso, a de paciência para manter esse discurso, secou.

Incontáveis foram as vezes em que eu passei, de bicicleta, pela porta principal do Mercado de Natal. Logo pertinho dali está o consultório da minha nova dentista. Em frente à porta principal tem um sinal para continuar, pela ciclovia, o caminho que vai além da entrada principal do Jardim Zoológico. Mesmo o Mercado de Natal no centro ocidental de Berlim não seja o meu preferido, já vários anos passei por ali. Para me deixar inspirar para presentes de Natal e para comer um pão rústico recheado de queijo derretido, na segunda barraca à direita depois da porta de entrada principal.

Valores

Esse ataque, como tantos outros anteriores a ele, foi contra os valores do mundo ocidental, contra valores cristãos e contra a liberdade de ir e vir. Essa liberdade, por mais que os berlinenses possam, a partir de hoje teimar em fazer vista grossa, será cerceada. Nada será como antes.

Para a tarde, Merkel anunciou visitar o local do atentado. Para as 18 horas, a imprensa anuncia que haverá um momento de luto junto com a presença do prefeito Michael Müller, que, na sequência, irá para o Portão de Brandemburgo, que, nesta noite, estará sendo iluminado nas cores da bandeira alemã.

Minutos antes da publicação desse texto, a polícia berlinense divulgou, via Twitter, que o suspeito preso nega ser o protagonista do atentado e avisa a população para tomar cuidado. O autor ainda não foi preso a cidade já organiza a cerimônia de luto e os rituais decorrentes dela. Isso, também é Berlim.

Atualizacao: O Promotor Federal anunciou, oficialmente, que o autor do atentado ainda está solto pelas ruas da cidade ou do país e apelou aos berlinenses para que fiquem longe do lugar do atentado além de ter pedido dias e infos da população.