Berlim-Varsóvia: parte I: solo político de retórica depressiva e o mito Dr. Sócrates

Fátima Lacerda

25 de junho de 2017 | 13h50

Esse é o primeiro artigo sobre a minha recente estada com duração de uma seman, e pela segunda vez, na capital polonesa. A viagem foi de trem. Levou 5 horascom o “Expresso” Berlim-Varsóvia. Incluindo um caos referente aos assentos reservados duplamente e tagarelas e polonesas hiperativas e com neurose em alto nível, tive a oportunidade de fotografar a fronteira dos dois países e, “por acaso” sentar exatamente na cabine onde tinha uma etiqueta lembrando aquele que, por natureza, já é e sem

Com Regina, também carioca e a irmã (budista) que a vida me deu, tenho uma amizade de uma vida. Durante 7 anos, fomos “vizinhas”. Depois de passagem pelos EUA e pela Bélgica, ela estava morando com a família em Varsóvia desde 2007 e se diz “orgulhosa” por estar em posse do passaporte polonês, orgulho esse que aflora especialmente quando ela passa pelo Estádio Nacional de Varsóvia (Narodowy), brilhando com as cores vermelho e branca, aquele que já foi foco do mundo durante a Euro Copa 2012. Independente da cor do passaporte: quem ama futebol, sentirá o coração bater mais forte ao passar por ali.

Smolensk

Em 2010, o acaso quis que eu chegasse, então pela primeira vez na capital, num dia de luto de uma nação inteira. O avião, com grande número de políticos poloneses de alto escalão, havia caído dia 10 de abril ao aterrissar na cidade de Smolensk, na Rússia, para onde estávam a caminho para para Katyn (22 km de Smolensk), em homenagem aos poloneses que foram mortos pelos russos em 1949.

A tragédia do voo TU 154 seria mais uma para a entrar na história envolvendo os dois países, historicamente trançados de forma tão conturbada. Ao aterrissar, a aeronave partiu ao meio e 95 passageiros, incluindo membros do alto escalão do governo, do setor militar, da área da economia, dizimou grande parte da então elite polonesa, incluindo Lech Kaczynski e sua esposa.

Quando cheguei em Varsóvia em 2010, era extamente o fim de semana de lutos, cerimonias e do enterro sublinhado de uma retórica especialmente pesada e macabra.

Da varanda do quarto andar do “Polônia Palace Hotel”, a poucos passos da Estação Ferroviária (Warszawa Centralna), eu tive vista privilegiada para o Palácio da Cultura e da Ciência (monumento que Stalin presenteou Varsóvia), um país inteiro exercitando o luto: o luto sincero pelo choque e o luto que foi, especialmente instigado pela mídia durante 3 dias. Âncoras com voz embargada, roupa preta, cara de choro. Tudo isso.

A Polônia hoje

Mais uma vez o acaso quis que eu estivesse na Polônia exatamente 7 anos depois, em 2017, no dia da cerimonia de luto para vivenciar, mais uma vez e, de perto o luto, sete anos depois e quando especulações sobre um atentado haviam se transformado em filme “Smolensk” (2016), com direção do conhecidíssimo Antoni Krauze e já havia sido exibido no teatro Teatr Wielki em Varsóvia, em cerimônia marcada pela presença de membros do governo atual e seus lacaios e discípulos.

O filme (sem versão em português) ficou anos na gaveta, já que ninguém, nem do estado nem do setor privado, queria patrociná-lo, ratificando assim a “teoria de conspiração”, ou seja, de atentado de autoria da Rússia. Quando o governo nacionalista populista venceu as eleições em 2015, tudo mudou de figura. O lançamento do filme, que ratificava a teoria lançada pelo próprio Jaroslaw Kaczynski, viraria uma questão de honra do governo, realizá-lo.

Varsóvia-Dubai

O motivo da minha ida, no mês de abril foi agenda. Regina deixa a Polônia e muda, no dia primeiro de julho para Dubai. A data da viagem foi, uma mistura de acaso, mas também de muita sorte. Esses dias de luto e de toda a mídia “preenchendo” seus horários mais e menos nobres com o Vale a Pena Ver de Novo do luto nacional, foi o melhor espelho para captar a atual situação política e climática da Polônia.

Um passeio a pé pelo centro, perto da Filarmônica e passando pela sucursal do sindicato Solidarsnosc me faz sentir um Flaschback em câmera lenta. O movimento sindicalista que foi decisivo para a dinâmica de abertura política dos países do leste europeu nos anos ’80 exerceu o papel “dinâmica dominó” e resultou na preparação do solo para a “Revolução Pacífica” no leste da Alemanha, me pareceu obsoleto, de um passado mais que distante como aquele que você olha pra trás e não vê mais significado algum.

Em tempos convulsivos, turbulentos de Trump, Erdogan, Órban e Kaczynski, o escritório remete a um passado remoto, frente a insanidade do Zeitgeist político em que vivemos.

Na Polônia da contemporaneidade, o clima de depressão não fica “somente” no âmbito das cerimonias, dos inflacionários #Hashtags no Twitter do dia 10/04 com fotos dos Lech Kaczynski tocando piando, andando de mãos dadas com sua esposa, enquanto um clima de letargia depressão (mesmo 7 anos depois!), vai chegando ao ápice do insuportável. Páginas inteiras de jornais exibiam os nomes dos mortos no acidente, em culto mórbido com o claro objetivo de tirar capital político de uma doutrina pérfida, manipuladora e de “transformar as vítimas em mártires, especialmente (Lech) Kaczy?ski, afirma o publicista Jerzy Baczynski, em entrevista ao conglomerado de emissoras abertas (ARD) da Alemanha.O interesse dele (Kaczy?ski) é desbancar Lech Walesa como mito da sociedade, declarou Baczynski.

Jaros?aw Kaczy?ski, irmão-gêmeo de Lech Kaczy?ski é, hoje mais do que manda-chuva na Polônia. Ele está se tornando uma figura-chave na recente história polonesa. Chefe do partido PiS, partido nacionalista de direita e que tem Beata Maria Szyd?o, no cargo de Ministra Presidente, o seu “laranja”, ele jura “finalizar” o ideal do seu irmão, morto no acidente aéreo e justifica todas as medidas com esse argumento.

Depressão e repressão

Em minha recente estada, conversei com alunas e alunos da Universidade de Varsóvia, com aposentados e com gestores de pequenas empresas, como Danuta Marciniak Wydawca, que gere a pequena empresa de edição e venda de Comics, feitos pela sua talentosíssima filha, falecida em 2016. Danuta não gostava de entrar em detalhes, mas seu discurso era sublinhado por uma retórica de quem continua a manter a firma pela memória da filha e do seu talentosíssimo trabalho, mas não por incentivo do governo ou mesmo por uma política atrativa e favorável a pequenos empresários.

Mais uma vez o acaso tomou conta da agenda e me fez encontrar Danuta no Z?bkowski s.c. Bar ocal memorável da história de Varsóvia e ainda com memória da “ditatura do proletariado”. Uma mistura de cantina com a aura dos tempos de comunismo é ponto de encontro de finlandeses dando um rolé pela Polônia, aposentados que ainda tiram proveito dos valores irrisórios como daqueles tempos e uma brasileira que pegou o bonde 3 vezes errado num dia de chuva fina e hora do Rush, mas não desistiu de chegar até ali. O gostinho de chegar e ter supresas preparadas pelo “acaso”, delícia, melhor não há. Além do Pierogi (especialidade polonesa), um primo do nosso pastel, interpretada pelos russos e degustado pelos poloneses, com recheio de queijo prato, que ali é servido.

Pode parecer inusitado comer uma especialidade polonesa (na Polônia), mas feita à moda dos russos. Não há porque choramingar. Eu já comi pierogi de todas as formas e com todos os recheios e pagando os mais diferentes preços. O para “turistas” é com salmão e creme de leite num restaurante na cidade velha, outro, que nada me apetece, tem até mesmo recheio de geleia de frutas vermelhas. Não há limites culturais nem políticos na culinária polonesa e mesmo porque, ao contrário dos germânicos, os poloneses são espontâneos e não se fazem de rogados em aventuras culinárias. Os dois países são trincados um no outro não somente por desgraças e batalhas históricas: a sopa de beterraba, obrigatória ao acompanhar o prato cheio de pierogis e servida em uma chícara, é também uma influência russa, entre outras tantas.

Cultura em tempos de depressão

Em companhia de Danuta, fui a uma reunião de protagonistas e gestores da cena cultural de Varsóvia. Como possibilitar cultura em tempos de repressão, corta de custos para cultura ao mesmo tempo que o governo disponibiliza verbas “incentivadoras” à maternidade, levando as mulheres de volta para a cozinha, para o recato e para os afazeres do lar? Conversas acaloradas se desdobraram por mais de 3 horas na noite chuvosa de início de primavera. A única voz coerente e bem humorada entre os empresários e gestores presentes era a de Danuta. Uma polonesa que fala inglês fluente (sua filha mora nos EUA) “detalhe” que ela mencionou “En passant“, durante o almoço o qual ela me ajudou a pedir no balcão, onde se movimentavam freneticamente cozinheiras polaca. O meu conhecimento do polonês é bem rudimentar para maiores detalhes como necessários ao se fazer um pedido de refeição. Depois que foi aleatória- e devidamente “anunciado” por Danuta que eu sou brasileira, aí se tornara questão de honra pra todas, me ajudar e ser solícita com a convidada de país tão longíquo.

Desde Abril de 2016, com o programa “Família 500 plus” o governo nacionalista de direita, paga, a partir do segundo filho 500 Zlotys (aprox.428 reais) Para cada filho “adicional”, também. Famílias de renda alta (igualmente como o modelo alemão), também recebem o benefício. Porém, mães solteiras com orçamento mensal acima de 1600 Zlotys (1.360 reais) não tiram proveito da “lista de incentivos”, também esse aspecto é coerente com a política do atual governo.

Mais uma vez o acaso tomou conta da agenda e me fez encontrar Danuta no Z?bkowski s.c. Bar local memorável da história de Varsóvia e ainda com memória da “ditatura do proletariado”. Uma mistura de cantina com a aura dos tempos de comunismo é ponto de encontro de finlandeses dando um rolé pela Polônia, aposentados que ainda tiram proveito dos valores irrisórios como daqueles tempos e uma brasileira que pegou o bonde 3 vezes errado num dia de chuva fina e caos no trânsito, mas não desistiu de chegar até ali. O gostinho de chegar e ter supresas preparadas pelo “acaso”, delícia, melhor não há. Além do Pierogi (especialidade polonesa) adaptada pelos russos, com recheio de queijo prato, que ali é servido. Pode parecer inusitado comer uma especialidade polonesa (na Polônia), mas feita à moda dos russos. Não há o que reclamar. Eu já comi pierogi de todas as formas e com todos os recheios. O para “turistas” é com salmão e creme de leite ou até mesmo geleia de frutas vermelhas. Não há limites culturais nem políticos, nem mesmo ideológicos na culinária polonesa.

Cerco midiático

O governo Kaczy?ski não cansa de tentar diminuir a influência do parlamento e neutralizar a mídia.  Meu colega Marcin Antosiewicz, além de uma simpatia e apaixonado pelo Brasil, é talentosíssimo jornalista e ex-correspondente situado em Berlim (além de famosíssimo em toda a Polônia) foi funcionário da emissora TVP Info e que faz parte do mesmo conglomerado ao qual pertencem a TVP 1, 2 e 3. Todas estatais.

A convite de Marcin, durante a Euro Copa 2016 participei de duas chamadas ao vivo para o estúdio em Varsóvia analisando o jogo entre a Alemanha e a Polônia na UEFA-Fan-Fest em frente ao Portão de Brandemburgo (foto), jogo que fez os polacos sentierem como uma vitória empatando de 0 x 0 com os atuais campeões da Copa do Brasil. Como sucessor de Marcin, a TVP Info enviou para Berlim um jornalista totalmente fiel ao regime opressor que atualmente acomete a Polônia e se mostra um desafio para jornalistas, muitos deles, depois de década na ativa, mudam de ramo e se tornam editores ou donos de cafés no centro da capital.

Esperando Tusk

Que festa foi o dia em que, naquele maio de 2004, a Polônia se tornaria membro da UE. “Nós estávamos tão bem!”, diz uma jovem mulher formada em jornalismo na minha cabine do vagão no trem com destino a Berlim, mas passando pela Posnânia (Pozna?), onde ela saltaria. Como voz embargada, ela e a prima, americana atualmente estudando na Hungria, delineava de forma representativa para a juventude polonesa, a sensação de marcha-ré da história e da pior mazela que pode acometer um país em crise: quando a juventude vê seu futuro, seus sonhos, “roubados”.

A esperança de muitos poloneses é a volta de Donald Tusk, atualmente, ocupando o cargo de Presidente do Conselho da UE para tirar a Polônia da isolação e do ostracismo. Além de Tusk, que tem o forte argumento “Europa” não existe, atualmente outra opção. De fato, parece Tusk o único referencial e, atualmente, a única restante voz polonesa na Europa. A esperança de muitos, assim como das jovens viajando na mesma cabine do trem, é que Tusk deixe os palcos europeus e retorne a Varsóvia para disputar as eleições gerais no outono de 2019. Entretanto, terá que angariar terreno perdido em seu partido, de esquerda conservadora liberal, a Plataforma Obywatelska, PO, “Plataforma civil”.

O ex-ministro polonês das Relações Exteriores, Grzegorz Schetyna, assumiu o cargo em janeiro de 2016 e não irá disponibilizá-lo tão facilmente. Em seu discurso de posse, o novo chefe do partido alfinetou o atual governo. (Na foto, vê-se a plataforma ocupando o parlamento).

Nós queremos vencer aqueles que destroem a confiança dos poloneses num futuro melhor e que tentam nos isolar da Europa e assim nos privar do crescimento econômico além de galgar o fim da sociedade civil. Essas pessoas, de fato, existem e elas estão no poder”.

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