Berlinale 2018: tudo novo de novo e relevante presença do cinema Latino Americano

Fátima Lacerda

15 Dezembro 2017 | 20h47

(c)Berlinale

A próxima edição da Berlinale será bem mais tarde do que de praxe. Da metade para o fim de fevereiro (15- 25.02.2018), o mundo cinematográfico se encontra na capital para o maior evento cultura da Alemanha. E vale lembrar: O título de maior Festival de Público, com direito até a um “Dia de cinema da Berlinale” no domingo depois da premiação não é de Cannes nem de Veneza, é detido por Berlim.

(c)dpa Picture-Alliance / Michael Kappeler

Especialidades

Dieter Kosslick, uma mistura de diretor, garoto-propaganda e marketing personificado do festival ainda tem duas edições para ficar no comando. Entretanto, a paúra do período pós-Kosslick já iniciou por parte da Ministra da pasta de Cultura e Mídia, Monika Grütters, que precisa encontrar um sucessor à sua altura, especialmente, no quesito popularidade.

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Um fator agravante é a ausência de um governo na Alemanha, que atualmente governa em ritmo de comissariado. Conta-se com um novo governo somente em maio de 2018. Só os deuses sabem, se Grütters continuará ocupando a pasta, naquilo que parece ser a “Grande Coalizão” entre o CDU de Merkel e os socialdemocratas (SPD) com previsão de posse do governo em maio de 2018.

O término da “Era-Kosslick” oferece a possibilidade de algo que se mostra necessário há muitos anos: uma reformulação do festival com maior transparência dos organizadores e das comissões que selecionam os filmes.

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Algumas modificações já entram em vigor na próxima edição: Wieland Speck, mais de duas décadas o diretor da mostra paralela “Panorama” e que lá nos anos 70 com Manfred von Salzgeber construiu uma plataforma jamais ousadas na Alemanha reacionária da época. Usufruindo do solo convulsivo cultural berlinense, na época ainda com status de Ilha, o cinema gay ganhava uma plataforma constante no festival. Speck, agora faz parte da comissão de seleção dos filmes da Mostra competitiva. O comando da mostra que é casa do cinema autoral, Art-Cinema, e a espanhola Lázaro Paz.

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Mais transparência

O objetivo tem que ser, encontrar um curador/uma curadora com excepcionais qualidades, que se sinta arrebatada pelo cinema e que seja bem conectada e que seja capaz de posicionar a Berlinale no mesmo patamar de Cannes e Veneza”, exibe o texto da petição. Dieter Kosslick. Ironizou: “Eu me vi cumprindo esses três critérios”, ironizou Kosslick.

Entre os diretores e protagonistas da cena político-cultural que assinaram, estão os diretores Maren Ade (Toni Erdmann), Fatih Akin (Contra a parede) e a diretora da Academia das Artes.

Tom Tykwer (Lola corre Lola) não fez parte da lista dos assinantes e se disse “irritado” com o tom da carta, a qual achou de cunho de ataque pessoal a Kosslick. O próprio diretor da Berlinale, em entrevista de 01 de dezembro ao jornal local Berliner Morgepost, se disse “p. da vida”. A peticao que foi entregue à Ministra das pastas Cultura e Mídia, teve sua divulgacao no meio de um artigo divulgado online da Associação de Críticos de Filme” (Filmkritikerverband, em alemão), a mesma associação que, não é de hoje, vem criticando a “falta de perfil” da Berlinale com um número cada vez maior de mostras, insinuando que o festival cresce em quantidade, em detrimento da qualidade.

De fato os dezessete anos de gestão de Kosslick,assim como grande parte da equipe da comissão que elege os filmes das várias mostras, assim como todo o trâmite do setor de imprensa resultaram num automatismo, que na maioria das vezes da certo em termos de marketing e de visibilidade midiática, mas que pecam pela falta de transparência em teimoso automatismo.

O outro lado da moeda é se um festival que detém, exclusivamente, o título do “Festival de Público” (Edição 2017: 334.000 visitantes pagantes e 500.000 pessoas que passaram pelos cinemas durante os dez dias do festival).

A reação de Dieter Kosslick, de ter se sentido atacado de forma pessoal é previsível devido à forma infeliz do momento e lugar da publicação do artigo. O outro lado da moeda é a forma previsível de reagir de quem detém o poder durante muito tempo e se torna a cada ano mais poderoso. Em sua volta, não há lugar para críticas.

O impacto que a petição obteve na imprensa chegou a ofuscar e colocar para escanteio as reportagens sobre o fracasso das chamadas “Conversas de sondagens” entre partidos para a formação de um novo governo na Alemanha.

Reação positiva

O resultado da pressão dos cineastas, protagonistas da petição resultou em reação positiva da Ministra Grütters, que garantiu convocar um grêmio internacional para procurar o sucessor de Kosslick, também fora das fronteiras alemães, o que significa que a Berlinale pode ousar o caminho de contratar um curador/curadora estrangeiro/estrangeira.

© Nubia Abe

Panorama

Nesta quinta-feira foram divulgados os primeiros 11 filmes da mostra paralela mais instigante do festival. Nela os cinéfilos de plantão, os obcecados e secos por aventuras estilísticas e roteiros instigantes encontram sua felicidade durante dez intensos dias em que necessidades mundanas como se alimentar, dormir, lavar o cabelo e fazer compras no supermercado se tornam coisas pueris e supérfluas.

Na mostra do cinema autoral de qualidade e que desde sempre vem abrigando o melhor do filme brasileiro, velhos amigos da casa estão de volta, já na primeira divulgação é possível ver o destaque do filme da América Latina.

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Um dos destaques desde já é o super bem-vindo retorno do casal Claudia Priscilla e Kiko Goifman, veteranos do festival, onde estiveram pela última vez em 2012. Em 2018 a dupla conta a história de Linn da Quebrada no filme “Bixa Travesty“desconstruindo a crença e percepção do macho alfa”.

Karim Ainouz, diretor cearense e radicado em Berlim e rotineiro do festival, apresenta a produção Brasil-Alemanha-França: “Zentralflughafen” (Aeroporto Central, THF), é o nome do aeroporto aberto em 1923, depois dominado pelas forças militares americanas durante a Guerra Fria e enquanto Berlim era cercada por um Muro. Depois de desativado em 2008, foi palco de feiras de música e de moda como também palco do “Berlin Festival” que acontecia no mês de setembro. Desde 2015, com o ápice da crise migratória na zona da UE, o ex-aeroporto foi usado para abrigar aproximadamente 1.500 refugiados, que ali estão até hoje.

Luiz Bolognesi também é um rotineiro na Berlinale. Ano passado ele esteve também na mostra “Panorama” como roteirista da obra-prima da diretora (e ex-esposa de Bolognesi), Laiz Bodansky. O filme com a emblemática e polêmica Maria Ribeiro foi recebido de forma triunfal na Berlinale 2016.

Desta vez, Bolognesi vai a Berlim como diretor do filme documentário “Ex-Pajé” sobre o povoado indígena Surui que vive em terra indígena no estado de Rondônia no Brasil. Desde 2016 suas terras vem sendo ameaçadas por madeireiros, garimpeiros de diamante e ouro vendo-se frente à luta para manter sua identidade.

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Dobradinha Grécia-Brasil 

A diretora grega Evangelia Kranioti, apresenta a transgênera Luana Muniz (1961-2017), ícone da subcultura pela cidade do Rio de Janeiro e uma das fundadores do projeto Damas da Prefeitura, que tem o objetivo de capacitar travestis e transexuais para o mercado de trabalho. Luana ficou famosa pela sua aparição no programa “Profissão Repórter”. Um outro filme, também lançado este ano, “Filha da Lua” dirigido por Juan Cordova e Leonardo Menezes também conta a trajetória da ativista do movimento LGBT.

Argentina:

La omisión (The Omission) do diretor Sebastián Schjaer e

Malambo, El hombre bueno, do diretor Santiago Loza

Links relacionados:

berlinale.de

https://www.linndaquebrada.com/