Berlinale: “Transit”: os fantasmas de Christian Petzold nunca estiveram tão próximos

Fátima Lacerda

19 Fevereiro 2018 | 14h30

 ©Berlinale

Adaptação bem livre da obra da escritora alemã Anna Sehgers (1900 – 1983), uma das mais expoentes do período da República de Weimar. Seu livro contra sobre sua fuga dos nazistas em 1941. No crédito antes do filme, aparece a dedicatória ao cineasta e diretor Harun Farocki (1944-2014). “Transit”. Christian Petzold vê seu atual projeto como um efeito da trajetória artística que, no passado, dividiu com Farocki.

© Viennale 2009

Como declarou na coletiva de imprensa, depois da cabine para a imprensa, a adaptação do romance de Sehgers é livre. Um dos maiores exemplos disso no filme é o contar de uma história de mão dupla. De um lado, as imagens na tela, do outro, a voz OFF de um dos melhores atores do cinema alemão contemporâneo, Matthias Brandt, filho mais jovem do ex-chanceler e ex-prefeito de Berlim, Willy Brandt.

©ZDF

Matthias também está na tela como o dono do Bistrô onde os protagonistas se encontram, comemoram, esperam, anseiam. Enquanto a voz em OFF vai causando estranhamento pelo caráter duplo de imagens e do contar do que se vê, Christian Petzold desestrutura o conforto da retina do espectador e mostra algo contrário ao que se diz em off. Olha aí os fantasmas. De novo.

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No presente preso no passado

A livre adaptação da escritora Seghers tem mais aspectos. Mesmo situando o Plot no período da Segunda Guerra Mundial e dos nazistas já tendo conquistado Paris e estarem a caminho da cidade portuária de Marselha, Petzold se mantém na cidade portuária do contemporâneo, a mesma que é ponto de chegada de refugiados. Nesse quesito (e não só nele) o diretor se livra das correntes do livro e insere a nota política, bem-vinda e necessária na Berlinale como também navegando no Zeitgeist. A questão da política migratória na zona da UE é o maior abacaxi político do momento. Faz rolar cabeças de políticos de alto escalão, decide a vitória ou derrota em eleições, sejam elas em âmbito municipal, regional, federal.

Em entrevista à rádio Deutschlandfunk Kultur, indagado porque desta vez a sua protagonista na o foi a atriz Nina Hoss como em “Yella” e em “Barbara”, Petzold argumentou querer contar uma história através de atores jovens e desconhecidos, como a protagonista “Maria”, Paula Beer e a nova estrela do cinema alemão, Franz Rogowski, feio de doer, mas rústico e autêntico e mais do que convincente a partir do momento em que é visto pela lente da câmera. Por um acaso do destino, “Georg”, na penúra para sair de solos franceses em direacao ao México antes dos naocuparem Marselha, adota a identidade de um escritor, Weidel, marido de Marie. Ela, enquanto não encontra o marido, morto por suicídio solitário em um quarto de hotel, ela está certa de que ele estará a sua espera no porto e irá perdoá-la por erros anteriores. Enquanto ele não chegga, ela vai preenchedo tempo ao lado de Richard, um médico da cidade alemã de Kassel e que oferece assistência médica gratuitamente aos refugiados ilegais da periferia da cidade e com direito à visita para checar a melhora do paciente, como a do garoto “Driss” que sofre de asma.

Antes de esbarrar com “Marie” pelas ruas de Marselha, “Georg” precisa dar a notícia para uma refugiada, ilegal no país (Maryam Zaree) sobre a morte de seu marido durante a viagem de volta para a casa. Surda muda tem um filho que acaba sendo a ligação entre “Georg” e a cidade portuária, um pouco de clima caseiro. O garoto aparece falando francês, mas da a entender que compreende o alemão, pelo menos palavras: “Merda, Dupla passagem e Borussia Dortmund. Perguntado por mim se a menção do time teria algo biográfico, ele esbanjou leveza e disse: “Eu torço pelo Borussia Möchengladbach”, mas esse nome teria sido muito complicado para ele, apontando para o encantador e sensacional ator mirim que faz o papel de “Driss”. Sem muita explicação, na sequência, “Driss” esbanja na língua de Schiller e Goehte e acaba muito frustrado quando descobre dos planos de “Georg” de imigrar para o México ao vê-lo entrar no Consulado dos EUA. Com os documentos falsos do escritor Weidel, “Georg” pode até levar a sua esposa.

© CHRISTIAN SCHULZ / Schrammfilm / ZDF

Viajar, embarcar, voltar ou desistir da viagem…

Estar em trânsito tomou uma nova dimensão político-cultural. Hoje, refugiados que são desovados na costa aberta da UE são presos em zonas de trânsito até que sua situação seja definida. As zonas de trânsito, para evitar a entrada de refugiados nos países se tornou o ghetto do passado.

Apesar de não ser nem um pouco adepta dos filmes de Petzold, em “Transit” ele brilha por um roteiro que, apesar de 3 Plots (Georg-Driss/O trio amoroso Marie, Georg e Richard/Uma mulher misteriosa, dona de cachorros e que não tem nem dinheiro para almoçar)o argumento é super bem alinhavado que o filme suporta esses pulos.

Decerto que a figura da atriz Barbara Auer causa irritação, desconforto, como a mulher dos cachorros que depois aparece rica e convida Georg para tomar uma Champagne com ele e depois disso surpreende na toma do próprio destino e isso, também é Petzold.

A imprensa recebeu o filme de forma bem diversa. Uns já publicaram que o filme “é o primeiro sério candidato na corrida pelos Ursos”, outros jornalistas detestaram o filme, pela linha mulher de salto alto incorporada pela atriz Paula Beer.

No final, surpreendente, do filme que mais uma vez ratificar que uma viagem por ser tudo menos um ir e vir clássico, entoa a música “Road to Nowhere”, do Talking Heads e dá aos créditos uma dinâmica que tem tudo a ver com a essência do filme: Estar no mundo: chegando, fugindo, saindo, voltando e se arrependendo disso.

Na coletiva de imprensa eu perguntei se a escolha da música seria a nota concernente ao Zeitgeist já que palavras como “Pátria”, “Estrangeiro”, “Trânsito” sofrem constantes deslocamentos e redefinições no estágio avançado de Globalização em que nos vemos. Com os olhos brilhando ele respondeu: “Ja!” (Sim) e contou a história da música que entoou no anoitecer de um dia de filmagem. “A gente no porto de Marselha e toca essa música… Foi perfeito!”, diz ele com olhos brilhando. 

Petzold, que tem o privilégio de residir em Berlim e depois das noites de cinema poder dormir em sua própria casa, já é um Routinier da Berlinale. Essa é a sua quarta vez na competição. Em 2012, ele foi premiado com o Urso de Prata como melhor diretor pelo filme “Barbara”, com sua mussa, Nina Hoss, no papel principal.