Berlinale: júri internacional esbanja bom humor na coletiva de imprensa

Fátima Lacerda

05 de fevereiro de 2015 | 12h57

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A coletiva de imprensa para apresentação do júri internacional realizada nessa manhã de sol na capital, foi uma das mais descontraídas dos últimos anos.

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Mesmo sendo uma figura de grande importância do cinema independente americano, também o diretor que tirou Mickey Rourke das cinzas, levou Natlie Portman à performance da sua vida, Darren Aranofsky se mostrou muitíssimo bem humorado e super à vontade frente aos jornalistas que lotavam a sala do centro de imprensa no Hotel Hyatt.

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De óculos de formato pré-histórico, boné do estilo francês que foi ali comprar uma baguete na padaria da esquina, ele respondeu solícito na forma e consistente no que disse.

“Qual é o filme pelo qual o Senhor nutre a maior expectativa?” indagou um jornalista. “Eu não sei o que está rolando na competição”, mas me alegro sobre cada filme que estaremos assistindo nos próximos 10 dias”.

Um jornalista chinesa indagou se ele conseguiria imaginar que um filme chinês poderia ganhar o Urso de Ouro: “Eu nem sei te dizer se há um filme chinês na competição”. O que eu sei é que tem um filme chileno e um filme da Guatemala, que concorre pela primeira vez em toda a história do festival”, declarou.

Quando chamado de “Chefe” pelo jornalista que indagou se no final das contasm seria a sua opinião que daria o veredito sobre os filmes a serem premiados, Darren, com um sorriso para quebrar o gelo da expectativa de todos os presentes, virou a cabeça para o lado direito da msa e disse: “Aqui nós somos uma democracia”.

O bom humor era quase uníssono nos outros membros do júri, exceto o ator alemão, Daniel Brühl, que teve sua carreira iniciada e deslanchada aqui no festival, há 11 anos atrás com a exibição de “Adeus Lenin”. “Na época saímos do festival sem ganhar nada (nenhum prêmio), mas depois da exibição do filme aqui na Berlinale, tudo mudou”.

Uma jornalista alemã, ainda não satisfeita com o fato de 5 diretores alemães estarem presentes na competição (mesmo que nem todos os filmes sejam produzidos pela Alemanha) ela indagou a Daniel: “Entre os filmes alemães você já favoriza algum?”. Revirando os olhos e na sequência, com o olhar periférico mirando os colegas de mesa, ele retrucou: “Não, de forma alguma. Não há favoritos e nem mesmo pode haver. Decerto que já trabalhei com diretores que estão na competição, mas o meu olhar será neutro”, disse visivelmente irritado com o ufanismo pueril da moça. 

A diretora peruana Cláudia Llosa era só sorrisos. Um jornalista queria saber de todos os membros do júri, sobre seus  filmes preferidos do festival. A melhor tirada de todas foi do próprio presidente, que gritou: “Dieter, me da ai a lista dos filmes ganhadores do Urso de Ouro!”, recorrendo ao diretor da Berlinale. “Dieter!!!”, repetiu. E não é que para a surpresa de todos e a alegria dos fotógrafos, o “Dieter” apareceu e gritou “Cinderela!” (1951). Não se fazendo de rogado, o diretor nascido no Brooklin, mandou: “Deixe-me lhes contar a minha história com a Cinderela…”. “Eu gosto dos filmes do Wim Wenders, mas não sei se ele já ganhou algum Urso. “Dieter”, chamou de novo. O ainda mais bem humorado diretor do festival aparece de novo e grita: “Terence Mallick. Só sei esses dois!!” e saiu batido. Os outros membros do júri simplesmente ignoraram a pergunta.

Cláudia Llosa falou com visível orgulho sobre seu triunfo em 2009, com o filme “La Teta assustada”. “Eu sei como é estar do outro lado”, declarou e se disse muito contente com o grande número de filmes da América do Sul a seram exibidos na Berlinale: “Vou ver todos”, garantiu a um jornalista que queria saber de seus futuros projetos: “Estou escrevendo. Em espanhol, claro. Espero que não demore muito para terminar até poder mostrar algo novo pra vocês”.

A francesa Audrey Tautou ratificou o clichê de que franceses não falam uma outra idioma. A única a precisar de um fone de ouvido para a tradução, depois de um longo tempo se se pronunciar, arranhou num inglês de cais do porto e ainda de ver em quando, ao lhe faltarem as palavras perguntava a si própria “como se diz isso em inglês?”.

Elogiado por um jornalista como sendo um “maluco sensacional”, Darren Aronofsky, muito competente e autêntico em todo o tempo da coletiva, passou a bola para o diretor coreano

Bong Joon-ho, que apesar de falar inglês melhor do que “Amelie”, tinha ao seu lado direito, uma tradutora para coreano-inglês. “O Bon Joon é bem mais maluco do que eu!”, arrancando sorrisos de deleite do sul-coreano. “Na realidade a mais maluca desse júri sou eu, retrucou Audrey”, não deixando qualquer dúvida sobre isso.

Perguntado por um jornalista se o processo de escolha dos filmes seria acompanhado de muita bebida, muita briga e gritos, Darren deu mais um show e novamente desestruturou a percepção de que um presidente de júri tem que ser austero. “Eu quero ficar numa sala com tudo o mais escuro possível”, disse ele provocando e acrescentou: “É um privilégio incrível e muito inspirador para todos nós ainda mais quando você sabe que são filmes de qualidade já que chegaram até a competição da Berlinale.

Perguntado pela jornalista japonesa sentada ao meu lado esquerdo, se o júri daria preferência a filmes de cunho político em comparação com filmes de comédia. “O gênero não importa. O fator principal é se o filme nos toca. Como eu não sei sobre a maioria dos filmes da competição, todo dia e  Bon Joon, que teve um filme controverso na mostra “Forum” em 2014,  ratificou várias vezes que no trabalho do júri “não se trata em julgar o filme de ninguém, mas de uma expressão de respeito aos colegas e uma celebração da sétima arte”.