Berlinale: Walter Salles marca presença na plataforma de novos talentos

Fátima Lacerda

08 de fevereiro de 2015 | 22h59

Na tarde de sábado (7) foi aberta oficialmente o Berlinale Talents, plataforma para jovens cineastas.

Cineastas enviam um trabalho e a comissão do Berlinale Talent (ex-Berlinale Talent Campus) analisa os trabalhos. Os selecionnados são convidados para vir a Berlim. Durante 6 dias (7-12/02) eles tem a chance de participar de workshops e palestras com nomes consagrados da arte cinematográfica mundial.

A diretora peruana Claudia Llosa, vencedora do Urso de Ouro em 2009 com o filme “La teta asustada” e o diretor americano e presidente do júri internacional e figura-chave do cinema americano independente, Darren Aronofsky, palestraram na manhã de domingo.

Os cineastas brasileiros participando dessa edição:

Heitor Augusto

Zé Agripino

Marcelo Caetano

Andrea Capella

Guilherme Coelho

Marina Meliande

Giuliana Monteiro

David Pretto (que não é tão iniciante assim, já que teve “Castanha” exibido na mostra Fórum em 2014. Em outubro passado, o filme foi exibido no circuito alternativo de cinemas na Alemanha).

O cinema brasileiro está sempre bem representado na plataforma. Vários ex-participantes já estão se estabelecendo na área de cinema. Provavelmente o mais famoso deles é o paulista Mauricio Osaki (O caminhão do meu pai), que esteve na lista dos pré-selecionados para o Oscar na categoria de curta-metragem.

Falando sobre cinema

No palco, o brasileiro Walter Salles e o diretor alemão Sebastian Shepper, que concorre na mostra competitiva com o filme “Victoria”. Na realidade, o tema divulgado era pra ser “Road Movie”, mas acabou-se falando mesmo sobre tudo concernente à sétima arte. Trilha sonora, edição, direção, fotografia orgânica ou matematicamente ensaiada

Walter Salles com um inglês com sotaque francês, língua que ele fala como um nativo e Shipper discutiram com a plateia que lotava o teatro Hau 1, palco principal do Berlinale Talents.

Walter falou da pequena equipe de ao todo 8 pessoas durante a filmagem na China: “Quando você está com uma equipe pequena, quase uma família, é bem mais factível você obter apoio de passantes, pessoas da cidade. Num Road Movie você pode experimentar isso e no seu decorrer , as filmagens vão criando uma própria dinâmica, diretamente acoplada com a situação geográfica”.

“Para quem de vocês conhece, eu cito “Alice no país das maravilhas” de Wim Wenders. A personagem do fotógrafo, vivido pelo ator alemão Rüdiger Vogel, se encontra em total caos pessoal enquanto sai fazendo fotos pelos EUA, mas de fato, o que ele está fazendo é refletir a então Guerra Fria na Alemanha. Esse filme teve causou um grande impacto em mim. Os filmes do Dennis Hopper também são assim. Os protagonistas dos anos 70 estão completamente perdidos num país dividido.

Sebastian Schipper que está representado na mostra competitiva com o filme “Victoria” falou do perigo que ocorre na hora de escolher a trilha musical. Comentou também sobre a estratégia de direção usada em seu trabalho atual: “No primeiro plano, os atores fizeram tudo exatamente como estava escrito no roteiro. O resultado foi seco, sem vida. No segundo ensaio, eu falei: “Vocês precisam cometer erros. Cometam erros” e foi uma catástrofe, revelou, arrancando boas risadas do público. Na terceira tentativa eu decidi ficar sempre na cola dos atores. Quando por exemplo havia uma cena onde o protagonista estava ferido, a atriz tinha que reagir, mas ainda não tínhamos o sangue (risos). Eu ficava do lado da câmera dando as instruções, me fazia presente, atuante ali na cola e isso foi muito intenso”.

Walter Salles trouxe 3 pequenos trechos do filme (que já foi exibido na Mostra de São Paulo em 25 de outubro) sobre o cineasta chines Jia-Zhang-ke. A cena de maior poesia é quando o Jia toma o exemplo do filme “Prazeres desconhecidos” para constatar: “Se durante as filmagens tudo vai bem, sem empecilhos, eu me sinto mal. Isso significa que eu deixei de ousar e perdi a percepção para novos caminhos”.

Quando se refere a Berlim, Walter fala em “voltar pra casa” e “no fechar de um círculo”. Esse último concerne ao ano de 1998, quando Walter triunfou com “Central do Brasil”. Na mostra paralela “Fórum”, ele tomou o conhecimento do curta-metragem “Trombadinha” (Pickpocket). Depois, os diretores se encontraram em Cannes e agora, em Berlim, há um documentário que ratifica a admiração de Walter por Jia Zhang-ke. Perguntado pelo mediador da conversa sobre seu conhecimento da língua chinesa, Walter foi taxativo: “Zero!”

https://www.youtube.com/watch?v=k4kLUNJTfl8

Na Europa, Walter Salles não é primeiramente percebido como um cineasta brasileiro. Sua forte cooperação e financiamento dos seus filmes por órgãos e parceiros franceses, o dão uma aura de cineasta totalmente impossível de ser rotulado. Walter não se apresenta em palcos internacionais como se fosse um peixe fora d’água e estivesse curtindo o deslumbre. Ele faz parte do time de diretores internacionais e sua simplicidade e simpatia, cativam qualquer público e logo em Berlim, não seria diferente.

A conversa, conduzida em inglês, você vê aqui:

A temporária saída de Shipper se deve, como ele mesmo declarou, “ao excessivo consumo de água”.

https://www.youtube.com/watch?v=EAH6sELAdPY

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