Berlinense que comemorou a morte de Aylan Kurdi nas redes sociais perde o emprego

Fátima Lacerda

09 Setembro 2015 | 11h25

Sascha Lobo, cyber-crítico e colunista do portal Spiegel Online vem alertando a importância de controle dos chamados *haters nas redes sociais. Segundo o crítico, eles percebem os fóruns das redes sociais como  um “vazio jurídico”, onde as leis não podem ser aplicadas e todo o veneno xenofóbico pode ser destilado com a garantia de impunidade. Até mesmo apresentadores de TV, como nomes soando “pouco alemães”, como a jornalista Dunia Hayali, vem sendo vítima de ataques xenofóbicos, xingamentos e ameaças nas redes sociais.

Heiko Maas, Ministro da Justiça no gabinete Merkel está preparando uma emenda para frear essa tendência de haters nas redes sociais. No caso pontual, divulgado hoje (08) na mídia alemã, foi o tabloide Bild que revelou a identidade que um hater fez um post no Facebook, comemorando a morte de Aylan Kurdi, o menino sírio de 3 anos, achado morto na Turquia e que se tornou símbolo do fracaso da política de imigração da UE. Em seu perfil aberto no Facebook, o autor do post usou a foto que varou o mundo e gerou choque e repúdio, foi comentada da seguinte forma pelo berlinense Benjamin S. (26): “Nós não estamos de luto. Pelo contrário, estamos festejando! Só um refugiado. Um refugiado é muito pouco. O mar já engoliu muitos!“.

hermes204_v-contentgross.jpg©Hermes

De acordo com fontes da TV NDR, Benjamin era terceirizado de uma firma de empregos que coopera com a empresa de transportes HERMES. Nela, Benjamin fazia entregas de geladeiras e máquinas-de-lavar em residências. Ao tomar conhecimento do ocorrido, através da imprensa, os responsáveis pelo RH o suspenderam de imediato e, na sequência, informaram à firma que o tinha sobre contrato, que também o despediu. É fatal ter a imagem vinculada a xenofóbicos nesses dias comprometendo o nome e a filosofia corporativa.

Por ironia, a foto de Benjamin foi divulgada, em primeira mão, pelo tabloide sensacionalista Bild, que não quer ficar de fora da onda de solidariedade midiática na Alemanha, desde o discurso de Angela Merkel em 31 de agosto, quando a chanceler deu uma injeção de otimismo no país: “A gente consegue vencer esse desafio.“.Desde esta data, deu-se uma total mudança de paradigma. A Alemanha embarcou na tão ansiada e exigida “Cultura de dar Boas-Vindas”, desestruturando a expressão “Hostilidade ao que é desconhecido” (Fremdenfeindlichkeit).

O outro lado da moeda é exibido do partido neonazista, NPD, em fazer, na tarde desta quarta-feira (09),  uma passeata com 50 membros do partido em frente ao prédio da Secretaria Regional para assuntos de saúde e sociais“, orgão responsável por toda a burocracia envolvendo o trâmite de chegada, catalogação e transferência dos recém-chegados, para abrigos temporários ou até mesmo para outras cidades. “O barco está cheio. Pela deportação dos refugiados fraudulentos“, esbravejavam.

Foto do funcionário no Bild

Depois de ter o desprazer de vislumbrar a foto de seu funcionário no jornal mais lido do país e ainda usando a camisa da empresa , o porta-voz da HERMES divulgou nota de repúdio: “Existe um código de ética interno que vale para todos os funcionários, inclusive para os funcionários de firmas com as quais cooperamos“, como era o caso de Benjamin. Quem não seguir esse código, terá que contar com punições de acordo com as leis trabalhistas“, assegurou.

No contexto da crise envolvendo o êxodo em massa na Europa e especialmente para cidades alemães de Munique, Frankfurt e Berlim, várias empresas já despediram seus funcionários por motivos de posts racistas em redes sociais. Advogados e analistas jurídicos não cansam de repetir em entrevistas na TV, que os tribunais tem, sim, legitimado e ratificado juridicamente despedidas por esses delitos.

A médio prazo, provavelmente com uma lei aprovada pelo parlamento, deverá haver transparência e, segundo o Ministro Maas, tolerância zero para esses delitos no âmbito cibernético. Se não, para uma revisão de uma ideologia marrom e sórdida, que o “destino” de Benjamim S, o olho da rua e o constrangimento que sofrerá  na sequência, seja um exemplo para que outros haters pensem bem antes de destilar seus venenos nas redes sociais ou em qualquer outro lugar. Por “bem menos” referente à abrangência geográfica do escândalo, a torcedora do Grêmio, que xingou o goleiro Aranha de “Macaco”, teve que esperar um ano para reconstruir a sua vida. Esse, é o outro lado das redes sociais que ratifica a tese do “Usuário transparente”. De um jeito ou de outro, a internet não esquece.

Para Benjamin S. a farra xenofóbica vai sair caro. O Ministério Público abriu inquérito e já está investigando o caso.

*Hater é um termo usado na internet para definir pessoas que postam comentários de ódio ou crítica sem muito critério.(Fonte: Wikiepedia)


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