Berlinenses descobrem a atratividade do Delivery

Fátima Lacerda

29 Abril 2018 | 11h09

Enquanto nas ruas de Copacabana, do Leme e demais áreas turísticas do Rio de Janeiro a palavra Delivery (entrega), há décadas, faz parte do vocabulário do dia a dia de quem domina a língua brasileira e de quem não, somente agora, Berlim descobriu a vantagem desse quesito no setor de prestação de servições.

Farmácias, açougues, restaurantes e lanchonetes em terras cariocas entenderam bem cedo, que o fator comodidade angariaria mais clientes locais, os tornarias fiéis. Dos de passagem na cidade, dólares e outras moedas fortes.

Na Alemanha, a ficha caiu bem tarde. No país da Europa Central se aprende, desde muito cedo, a premissa do “Do it yourself“, não “somente” por motivos econômicos para que não haja custos adicionais, mas também por questões emancipatórias. Durante décadas foi injetado culturalmente no povo alemão que fazer tudo você mesmo é a melhor opção, te da independência. Isso vale para quando se faz reforma na casa. Nunca uma pessoa irá chamar um pedreiro para reformar o quintal ou mesmo um jardineiro para manter bonito o jardim da casa. O tempo passou, os parâmetros das leis trabalhistas foram, mesmo depois de muito perrengue jurídico, ajustadas no quesito de horas de jornada de trabalho, algo indispensável para possibilitar o serviço de Delivery.

Vale mencionar que durante décadas o setor sindical podou, por vezes estrangulou o setor de comércio em sua vontade de ampliar o horário de funcionamento das lojas e de ousar com diferentes formas para fisgar o cliente. Regras rígidas e burocráticas regularam o mercado durante tempo demais. Quando eu cheguei em Berlim em 1988, as lojas, todas elas, fechavam às 18 horas. Somente nas quintas-feiras havia uma exceção. As lojas ficavam abertas até as 20 horas na chamada “Quinta-feira longa”. Eu nunca entendi como pessoas que trabalhavam entre 9 e 17 horas, conseguiam fazer as compras da semana ou mesmo ir ao Shopping comprar roupas ou livros.

Em comparação com o Brasil, as leis sindicais na Alemanha, mesmos ajustados, hoje ainda conseguem manter forte assinatura social. Aqui, você não irá ver uma mulher em avançado estado de gravidez, trabalhando no caixa de um supermercado e só verá supermercados abertos em dias de feriado, em bairros de forte cunho turístico. Lojas que conseguem provar ter artigos que oferecem “comodidade a turistas” precisam de uma autorização especial para abrir aos domingos.

“Bebidas até a porta da sua casa”.

O novo mundo do Delivery

A mentalidade de não ter que fazer tudo você mesmo, somada a valores outrora astronômicos, mas que hoje podem ser pagos pela maioria da população, a Alemanha implementou o delivery, especialmente para grande volume de água mineral e de outras bebidas para grandes e pequenas empresas, assim como volume para festas ou churrascos e a novidade não fica por ai. No âmbito compras de supermercados, muitas redes já oferecem entregas para compras feitas e pagas pela internet. No quarteirão da minha casa, não é raro ver carros de firmas terceirizadas entregando mercadoria até as 22 horas. Até mesmo em dias de sábado. No setor de gastronomia Berlim já está bem desenvolvida. Vários Start-Ups já se firmaram no mercado de entrega. Portais como o Deliveroo Seu restaurante favorito entrega rápido e até a sua porta ou FoodoraPeça a comida que você ama“, oferecem.

Você entra no site escolhe o prato, coloca o código postal e aparece uma lista de restaurantes-parceiros e perto do seu endereço Os entregadores, sempre de bicicleta voando pela cidade vão até ao restaurante, pegam a encomenda e levam até à sua casa. O pagamento é feito diretamente na hora do pedido pelo site ou na hora da entrega.

Ao contrário do Rio de Janeiro, onde remédios de farmácias, pedidos ao telefone podem ser entregues em casa, em Berlim, se tratando de remédio, ou você compra na internet e o correio entrega ou você usa do modo antigo de ir à farmácia, esse, bem sofrível. Até mesmos remédios corriqueiros, farmácias de bairros no centro de Berlim não tem no estoque. O meu colírio receitado pela oftalmologista, por exemplo, é sempre um perrengue conseguir. Por vezes as farmácias estão localizadas em imenso galpões que você não consegue imaginar que o remédio que de exótico e incomum, não se encontra no estoque. A opção dada com a maior cara de pau é: “Eu posso pedir e a Sra. vem no final do dia buscar”. Ainda tem muito o que melhorar na mentalidade bairrista e sem visão das farmácias e de outros setores também. Se em Berlim o quadro já exibe essa penúria, nem pensar em cidades do interior.

Enquanto no RJ você pode pedir quase tudo pelo telefone e terá um delivery, em Berlim, o setor ainda está, como prescreve um ditado popular “ainda nas fraldas”. Mas talvez a mentalidade alemã não terá uma mudança radical em sua arraigada premissa de que fazer uso de prestação de serviços sempre gera custos desnecessários e dispensáveis e por isso, considerado por muitos, um luxo.

https://deliveroo.de/en/

https://www.foodora.de/