Berlinenses se despedem de David Bowie: seu morador mais ilustre

Fátima Lacerda

12 Janeiro 2016 | 15h26

 schönebergthumb.jpg©Reuters

O céu cinzento da manhã de segunda-feira (11) ganhou uma outra conotação a de praxe no inverno berlinense. Era como se a cidade que Bowie tanto amou e na qual se sentia “em casa” e, segundo críticos, onde gravou os 3 principais discos de sua carreira, quisesse fazer uma despedia autêntica. Aquele(!) céu cinzento que tanto instigava o britânico.

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A entrada do prédio de cor amarela da Rua Hauptstrasse 155, no bairro de Schöneberg, se tornou lugar de peregrinação de fãs e admiradores do andrógeno mais querido da cidade, do artista mais famoso que já viveu em solos berlinenses. Um mar de velas, rosas, fotos e uma cópia que mostra o Design da exposição realizada em 2014 no Museu Martin-Gropius Bau com a escrita: “Thank you”.

https://www.youtube.com/watch?v=dxj26SXyCEE

Se sentindo em casa

Entre 1976 e 1978, quando a cidade era cercada pela cortina de ferro, o inglês, na época já famoso, morou na num apartamento de 7 quartos com aquecedor a carvão. Num dos quartos da casa, havia um colchão e um retrato na parede. Quem ali morava era seu amigo de carne e osso: Iggy Pop.

Curtindo a anonimidade e a Freiheit berlinense, fugindo do consumo da cocaína e retomando suas atividades como pintor expressionista, Bowie, em entrevista ao jornal berlinense Der Tagesspiegel, resumiu: “O tempo em Berlim foi decisivo para eu ter tempo para repensar a minha vida “.

Bowie era figura constante na boate Dschungel (Selva), gostava de comprar produtos alimentícios na mega loja de departamentos, KaDeWe e gostava de ir a Wannsee especialmente para comer fígado de frango (Gefluegelleber) “num restaurante que tinha ali“, além de ser presença constante no museu „Bruecke Museum“.

Sendo prata da casa de clubes noturnos como o Chez Rommy e o convulsante SO36, no bairro de Kreuzberg, sudeste da cidade, ele conhecia as intermináveis noites berlinenses. Também o Cafe “Anders Ufer” (Hoje “Neues Ufer”) o primeiro café oficialmente gerenciado por gays assumidos, era local muito frequentado pelo artista, especialmente depois do local ser vítima de um ataque homofóbico, Bowie fez questão de prestar solidariedade através de sua presença.

A coabitação pacífica com Iggy Pop não durou muito. “O Iggy comia tudo que tinha na geladeira e eu ficava muito p. da vida!“. O mesmo Iggy Pop foi que declarou, na segunda-feira (11): “A amizade com Bowie era a luz da minha vida”.

Em entrevista ao então chefe da Rolling Stone alemã, o jornalista Wolfgang Doeberling, no livro “Pleased to meet you“, Bowie declarou que em Berlim ele não viveu, mas existiu, no sentido mais filosófico da palara. Bowie se apaixonou pela pintura expressionista alemã de tal forma, que para a capa do seu disco “Heroes”, ele se inspirou no quadro “Roquairol” do pintor expressionista alemão Erich Heckel (1883-1970).

Brücke-21.jpgCortesia: The David Bowie Archive ©Victoria and Albert Museum & Cortesia: Brücke-Museum, Berlin© Erich Heckel

Berlin Trilogy

Low, Heroes & Lodger foram gravados em Berlim no memorável “Hansa Studios“, na Rua Köthener Strasse, pertinho do muro e com vista para o terreno baldio que hoje é o centro de turismo e comércio Potsdamer Platz.

David-Bowie-Tony-Visconti-Eduard-Meyer-im-Hansa-Tonstudio-2-1976_Courtesy-Privatarchiv-Eduard-Meyer_Foto-©-Coco-Schwab-1024x696.jpgCortesia-Arquivo pessoal-Eduard-Meyer/Foto-©-Coco-Schwab

A proximidade ao muro instigava Bowie que apelidou o estúdio de “The Hall by the Wall“, onde ele com Iggy Pop, Brian Eno e Tony Visconti, produzia seus discos. Eduard Meyer, então engenheiro de som e até foi convidado para ceia de Natal no apartamento de Bowie, de vez em quando, alegra os inúmeros fãs com visitas guiadas pelo estúdio que também foi usado pelos irlandeses do U2, pelo Deepeche Mode R.E.E e por Nick Cave. A máquina de fitas de 8 faixas, uma verdadeira relíquia daquela época é um dos objetos mais fotografados durante as visitas.

Curbisimage-445534-galleryV9-jihy-445534.jpg©Corbis

Foi também em Berlim que Bowie participou das filmagens de “Apenas um Gigolô” (1978) o último filme com a atriz e Diva da Chanson alemã, Marlene Dietrich. Ao contrário do Stone Mick Jagger, Bowie não só marcou uma presença extra na sétima arte, mas gostava de atuar e o fazia convincentemente.

https://www.youtube.com/watch?v=yyvECYtrhDM

Bowie também não escapou das lentes do fotógrafo holandês Anton Corbijn, como mostra uma atualmente uma retrospectiva da Fundação C/O Berlin, o endereço mais importante quando se trata de fotografia contemporânea. Em 1987 ele participou de um show em frente ao Reichstag, o que desagradou profundamente a polícia do lado oriental, que ficou frente a um desafio em manter do lado oriental a juventude ávida por novas aventuras musicais.

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Ùltimo show em Berlim

MaxSchmelling-Hallethumb.jpg©Reuters

Em 03 de novembro de.2003, com a turnê “Rebel Rebel” Bowie fez o seu último show na capital. Numa época que ainda não dominavam as estéreis arenas multifuncionais, ele lotou o, na época, galpão Max-Schmelling Halle, assim nomeado em homenagem a lenda do boxe.

Logo depois da queda do Muro de Berlim, no verão de 1990, vários artistas do olimpo do Pop vieram fazer shows em Berlim Oriental, entre eles: Rolling Stones, Tina Turner, David Bowie e isso num lugar longe de tudo numa parte escondida de Berlim ocidental.

Para chegar até lá, era preciso andar nos ônibus concebidos na Alemanha Oriental e passar pelas ruas esburacadas até chegar ao local do show. Me lembro que a Creuzette estava de visitas, mas topei o sentimento de culpa em deixar a mãezoca sozinha com Cordula, uma alemã azeda com a qual eu dividia o apartamento na época.

Eu não era fã de carteirinha de Bowie, mas sabia que aquela efervescência cultural era de valor histórico, além de sonhar em ver esses dinossauros do pop, ao vivo. Imaginava que quando voltasse pro Brasil, já velhinha na varanda de uma casa qualquer, poderia contar aos meus filhos netos as histórias dos meus tempos de além-mar.

Momento histórico

O clima do show lotado, em sua maioria por alemães orientais que só conheciam Bowie através de discos contrabandeados por amigos que os traziam do ocidente. Estávamos unidos pela fome. Eu de uma forma, os alemães orientais de outra e os alemães ocidentais pela excepcionabilidade do momento histórico e, como não poderia ser diferente, Bowie serviu um banquete musical sublinhado pelo Zeitgeist da época. Foi inesquecível. A partir dalí eu virei fã, nem tanto pela música, mas pela sua capacidade de se reinventar, de ousar e também de parar e ficar no ostracismo e depois voltar com tudo em cima e pela sua completicidade como artista. Bowie se tornou pra mim, uma fonte de inspiração. Até no final da vida, ele surpreendeu. Assim como Mozart, criou o seu próprio Requiem e até sexta-feira passada (08) quando completou 69 anos, ninguém havia sacado a sua mensagem de Adeus.

Que sorte ser berlinense e ter o privilégio de se despedir de Bowie num espaço físico. Saber que ele viveu ali, perambulou pela capital não diminui a tristeza pela sua morte, mas acaba se tornando um consolo. Além do mais, vários lugares em Berlim, lembram um dos artistas mais completos do contemporâneo. E se a petição iniciada hoje (12) na prefeitura do bairro de Schoeneberg obter o número de assinaturas suficientes, em muito breve poderá haver uma Rua ou Alameda David Bowie. Melhor homenagem a altura do berlinense mais ilustre e mais talentoso que já viveu nas terras daqui.

#RIP