Berlinenses vão às ruas em protesto contra Trump: “Não vamos aceitar o ódio!”

Fátima Lacerda

13 de novembro de 2016 | 12h47

Num sábado condescendente do outono berlinense em que, dois grupos diferentes, convocaram uma passeata contra o presidente eleito. A passeata agendada para às 13 horas (horário local) no bairro de Neukölln, escolheu o lema “Pussy grabs back” se referindo ao video vazado e veiculado pelo jornal Washington Post em conversa de Trump com o moderador Billy Bush. Nela, o agora Trump fala de forma über vulgar sobre mulheres e sobre seu “bônus” de “famoso”, que segundo ele, tudo pode.

Portão de Brandemburgo

Uma outra passeata aconteceu às 16 horas (horário local) frente ao cartão-postal da cidade. No preâmbulo os organizadores, muitos deles americanos residentes na capital, explicaram, em página do Facebook: “Agora nós temos que nos levantar contra o racismo, a misofobia, machismo e sexismo“. O clima era de consternação, de impotência, medo e sim, raiva, porém na certeza de que é preciso lutar contra o ódio proclamado por Trump. Uma placa avisava “Para com o ódio“. Uma outra garantia: “Não vamos nos silenciar”.

Também mexicanos foram expressar seus anseios frente á ameaça de um muro na fronteira com os EUA. Fernando, o primeiro da esquerda, falando se referindo a Trump como “figura circense” fez depoimento caracterizado por análise fundida, autenticidade e lucidez num momento de tanta complexidade e incerteza.

Daqui pra frente…

A capa do semanário “Der Spiegel” publicada hoje (13) mostra o toupè de Trump como um abismo e expressa aquilo que pessoas com um mínimo de bom senso e discernimento, dolorosamente pensam: “O Fim do mundo (como a gente conhecia”.). Em suma: o que há de ser, será, mas nada será como antes.

Já o clima na manifestação no início da tarde, tinha na maioria esmagadora, mulheres de todas as proveniências, iradas por, desde o veicular do vídeo, saber, em detalhes, o que ele que pensa das mulheres.

Vendo a total submissão de sua “Primeira-Dama”, ela que faz parte de mais uma da fração “Bela, recatada e do lar“, sua aceitação com o papel decorativo, já podia-se imaginar o que Trump realmente pensa das mulheres e sobre onde fica o seu lugar, mas o áudio comprovou e eternizou sórdida postura, via internet.

A propósito submissão, a foto do casal no momento da votação e que viralizou nas redes sociais, na qual Trump controla onde sua esposa fará o x enquanto ela olha para a folha de votação como se fosse uma prova de matemática. Quando uma foto fala mais do que mil palavras…

Mulheres acorrentadas como nunca

No engodo no renascer do status de “Primeira-Dama” que goza de visibilidade especialmente onde o poder ser mostra sexy somado ao engano de achar que o status de Primeira-Dama é algo a ser seguido, almejado, me ocorreu uma entrevista concedida pela atriz Drica  Moraes à jornalista Marília Gabriela no GNT em janeiro deste ano. A conversa foi gravada logo depois do final da novela das “Verdades Secretas”, onde Drica interpretava “Carolina”, a esposa traída dentro da própria casa. Na conversa, Drica fez ousado e autêntico discurso, recheado de comedimento, serenidade e com olhar no todo. Como diz um ditado popular daqui: “Olhou para além da beirada do prato”.

A gente vive num país extremamente machista, onde as filhas, mulheres, são preparadas pra cuidar do pai de depois cuidarem de outros homens, com que elas devem se casar. Tradicionalmente. E suportá-los! Do jeito que eles são. E suportar os filhos, do jeito que eles são“.

http://gnt.globo.com/programas/marilia-gabriela-entrevista/materias/drica-moraes-diz-que-torcia-por-cora-sairia-atirando-em-todo-mundo-e-dava-um-mergulho-na-praia.htm

Que bom que a síndrome da “Bela, recatada e do lar” não passou e não tem nenhuma chance de ficar En Vogue na Alemanha e ainda muito menos em Berlim, cidade solo de revoluções teima em ser solo emancipatório. Para não gostar e se constranger com o discurso do “Desastre Nacional”, como o denominou Colin Powell não é preciso um grau muito alto de emanciopação e nem mesmo levantar uma bandeira para a causa da mulher: contra o machismo, contra o culto da sexualidade como instrumento de bagatelização. Nada disso. Até mesmo a moderada chanceler alemã, que durante toda a sua carreira sempre se negou entrar no ringe para “lutar contra os homens”, mandou um recado bem claro para Trump. E olha que clareza em seus discursos nunca foi uma constante vertente da chanceler.

Visivelmente contrariada, mas como quem tem como über-premissa a disciplina de fazer o que tem que ser feito, Merkel marcou pontos com a opinao pública e com a imprensa da forma como se pronunciou: impondo condições para um “trabalho conjunto”.

Mesmo para quem não domina a língua de Schiller e Goethe, não terá dificuldade em perceber, na linguagem corporal da chanceler, o seu imenso desagrado.

Pronunciamento=Recado

“Sras. e Srs. eu parabenizo o vencedor das eleições presidenciais nos EUA, Donald Trump. Os EUA são uma velha e venerável democracia. Essa campanha foi muito inusitada, por vezes, com confrontações insuportáveis”. Já na primeira fase, Merkel faz críticas à forma de discurso de Tramp, que, por exemplo, ameaçou Clinton que, em caso de vitória, iria colocá-la na cadeia.

Assim como a maioria dos Srs. eu também fiquei ansiosa e ligada no andamento das apuracões”, acrescentou a chanceler. “Quem o povo americano votou para presidente, em eleições livres e democráticas causa desdobramento muito mais além do que nos EUA“.

Nos 0:45 min do pronunciamento, a chanceler ressalta a espinha dorsal de sua percepção política: “Para nós, alemães, continua valendo: com nenhum outro país, fora da zona da UE, nós temos um laço tão profundo como com os EUA”.

Quem avisa…

“Quem governa um país tao grande, com forca econômica violenta, seu potencial militar, sua abrangência cultural, carrega uma responsabilidade que é visível e sentida no mundo todo”.

Aula de democracia para Trump

“As americanas e os americanos decidiram que essa responsabilidade está nas mãos de Donald Trump nos próximos 4 anos”. Vale lembrar que Trump se referiu à chanceler como quem “está arruinando a Alemanha”.

Quando Merkel foi coroada, mais uma vez, pela “Time -Magazin” como a personalidade do ano, Trump em post de 09 de janeiro de 2016 em sua conta do Twitter: “A “Time” nunca iria escolher como a personalidade do ano, apesar de ser um dos principais favoritos. Ele preferiram a pessoa que está arruinando a Alemanha”, esbravejou Trump concernente à política de refugiados adotada pela chanceler.

Tudo no ventilador

Na ocasião do atentado em Paris, novembro de 2015, em entrevista ao semanário “Valeurs Actuelles“, Trump declarou: “Eu acho que Angela Merkel cometeu um erro trágico” e ainda ousou um prognóstico típico de quem só tem a polêmica em foco: “Se a crise dos refugiados não for resolvida com pulso, isso será o fim da Europa“.

Em suas acusações à adversária Hillary Clinton durante a campanha, ele, mais uma vez, atacou Merkel: “Hillary quer se tornar a Angela Merkel dos EUA“.O ódio de Trump pela mulheres, ainda mais se ocupam cargos políticos de alto escalão, é incontestável.

Foram muitos os insultos do “Rei de Las Vegas” e muita munição pesada em direção a chanceler. Entretanto. Merkel não seria uma brilhante representante dos adeptos das ciências naturais e de sangue frio se não fizesse vista grossa.

O recadinho mandado por Trump não foi “somente” bem alinhavado num pronunciamento de cunho protocolar, o recadinho foi uma clara postura e impor condições: “A Alemanha e os EUA estão ligados por valores comuns: Democracia, Liberdade, pelo Respeito pelo Direito e pela integridade do ser humano independente da origem, cor da pele, religião, sexo, orientação sexual ou convicção política. Com base nesses valores, eu ofereço o presidente eleito uma cooperação estreita“. No final do pronunciamento, Merkel ratificou, mais uma vez, sua  maior crença: “A parceria com os EUA é e continuará sendo o alicerce da política externa alemã”.

Merkel ensina…

Arrematando o pronunciamento, Merkel faz o discurso de “empresária de crises” que lhe é rotineiro quando está dando as coordenadas no âmbito europeu, ao mesmo tempo que apelou para uma inexistente coerência: “Para resolvermos os grandes desafios do nosso tempo, a conquista estabilidade financeira e social, a tentativa de uma política climática progressista, a luta contra o terrismo, a pobreza, fome e doenças. A engagemento por paz e liberdade. Na Alemanha, na europa, no mundo”.

 

 

 

 

 

 

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