Borussia fulminante. O Deus do futebol agora veste amarelo e preto

Fátima Lacerda

28 de abril de 2015 | 19h53

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A noite de 28 de abril de 2015 vai entrar para a história do futebol alemão em uma partida que não fica devendo nada para um filme de Hitchcock.

O que se viu em milhões de aparelhos e TV e eletrônicos foi tipo uma final de Copa do Mundo em âmbito nacional. Quem é ciente da rivalidade entre as equipes do Borussia Dortmund e do Bayern, sabe como a picuinha funciona. É algo filosófico, entre ser e estar.  Tudo o que fica ao norte de Frankfurt, é contra, digo, detesta o Bayern de Munique e tudo aquilo que o clube representa.

O ex-goleiro da seleção alemã, Oliver Kahn (aquele que Ronaldo-Fenômeno colocou em seu devido lugar na Copa do Mundo de 2002) expressou muito bem a rivalidade de quase todo um país pelo Bayern, em solo rico, católico e conservadora Munique. Antes de um dos jogos decisivos, ele disse: “A maioria do país estará frente à TV contra o Bayern. Ai, nós ganhamos. Gosto como esse, não tem igual”.

Hoje, o Deus do futebol decidiu mudar o rumo no resultado entre as duas equipes über rivais, num parâmetro semelhante ao instransponível abismo entre vascaínos e flamenguistas.É um ódio de sempre, e mortal.

Lei da natureza, verdade absoluta

Quando um jogador sai do Borussia para ganhar mais dinheiro no Bayern, a torcida do Borussia não perdoa nunca. Pelo menos o título de “mercenário” lhe é garantido, isso para dizer ao mínimo.

Um exemplo: Robert Lewandowski era o atacante-chave, artileiro na fase em que o time de Dortmund começou a varrer tudo o que passava pela frente no campeonato do futebol alemão. Como o Bayern não espera muito quando vê que o jogador está fazendo o outro time ganhar demais e se mostrando perigoso, ele vai lá e compra. É simples assim. Um resultado natural das circunstâncias.

Antes do que os torcedores percebem como um “ato de sacrilégio” Lewandowski teve festa de casamento. Nenhum dos seus colegas do Borussia foi convidado. Isso é ofensa imperdoável e o #shitstorm nas redes sociais não demorou. Depois de um erro de iniciante de seu agente, que acabou resultando no Lewandowski com uma perna no Borussia e outra no Bayern, ele finalmente “atravessou a fronteira”.

Antes dele e de forma nem tão dramática, foi a vez de Mario Götze, aquele responsável pelo gol contra a Argentina na final da Copa do Brasil, de vestir a camisa do Bayern.

A vitória do Borussia na noite de hoje (28) oferece um verdadeiro mil-folhas em simbologia e é mais uma prova de que a resposta para essa ou aquela picuinha, vaidade masculina mal resolvida é dada no campo.

Simbologias:

Essa é a última temporada de Klopp no Borussia. O novo técnico, Thomas Tuchel (ex-Mainz05) já está de contrato assinado e os jogadores querem que ele Klopp saia vitorioso não somente do clube, mas do campo na final.

Berlim, Berlim, nós queremos ir pra Berlim!” é o grito de guerra sempre que a Taça da Federação Alemã de Futebol está sendo disputada. Vir disputar a final no Estádio Olímpico da capital é fator de prestigio, é a mensagem para todos os outros clubes: “A nossa equipe é top!”, porque só quem vai disputar a final em Berlim é top.

Vencer, vencer, vencer!

Vencer contra o Bayern é uma questão de honra, uma missão de vida para todos que são das regiões “mais norte” do país. Mas se nessa partida, o atual melhor goleiro do mundo, Manuel Neuer, ainda jogar pra fora o pênalti, para os borussianos como a autora desse texto, não tem sensação igual! É como ganhar sozinha a bolada da mega sena. Como o 7×1 contra a Alemanha jamais poderá ser esquecido e, ao contrário do que o craque Neymar afirmou, jamais apagado. Uma partida como a de hoje (27) também não .

Durante a prorrogação, o goleiro do Borussia literalmente neutralizou o Lewandowski, que, de acordo com o comentarista da TV alemã, ficou tão zureta, que não seria capaz de dizer que dia é hoje. Com a falta de Lewandowski, o Bayern (mesmo sendo durante a prorrogação) também ficaria desfalcado. O jogo atingia mais um nível de dramaticidade. Tudo era possível. As cartas seriam mexidas de novo!

Ironia futebolística

Arena Allianz, estádio do Bayern, é um dos mais caros dos times da Bundesliga. E é nesse estádio que o Philipp Lahm escorrega na grama e perde o primeiro pênalti? Uma conta falsa com o nome do diretor esportivo do Bayern, Matthias Sammer, zoou: “Temos o melhor estádio e uma grama ultra porcaria. Amanhã teremos sérias conversas sobre isso!”.

Arnje Robben: O mesmo que tirou do Borussia o título da Pokal na temporada passada, entrou e jogou 15 minutos, ainda saiu do estádio de muletas, não vai jogar no jogo de ida contra o Barcelona valendo uma vaga na final da Liga dos Campeões e com certeza, vai dar uma passadinha no consultório de Müller-Wohlfahrt, no bairro nobre de Munique.

O Bayern acaba de se tornar campeão da Bundesliga e ninguém mais fala sobre isso…Como diz um ditado popular das terras daqui: “É neve de ontem!” (Coisas do passado). A dinâmica do futebol é incessante

Vingança é um prato que se come frio

Depois da partida em que o Bayern perdeu para o FC Porto no âmbito da Liga dos Campeões, o abismo entre Pep Guardiola e o médico Müller-Wohlfahrt, vulgo “Mull” ficou insuportável. Pep (em dobradinha com o presidente Karl-Heinz Rummenigge, esse useira e vezeira em dar tiros no pé) ainda no vestiário, culparam o médico pela derrota, acusando-o de não curar os jogadores em tempo hábil para que pudessem disputar as partidas.

A entrevista do treinador do Bayern no final do jogo dever ter sido (como diz um ditado popular) música nos ouvidos do médico que depois de mais de 30 anos atuando no clube, mas não segurando a pressão, se demitiu. Ao invés do Pep arrogante, viu-se um Pep arrogante derrotado e que acabara de fracassar no seu próprio objetivo: “Só vale o Triplo“, declarou ele em coletiva de imprensa na semana passada. Com esse tiro no pé fomentando polêmica, ele mesmo se encarregou de minimizar o sucesso da temporada sob sua gestão que já exibe sinais de desgaste.

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O ápice

O ponto mais esperado e do qual os torcedores mais sentiam saudades, era da “volta animal” de Jürgen Klopp. Sempre depois de uma vitória, ele corre como um louco para a curva onde fica a torcida, dá uns 3 socos no ar, sorri e tira o boné em gesto de reverência aos fãs.. Essa noite, Klopp foi t intenso que ao chegar no estúdio de TV para ser entrevistado, não tinha mais fôlego enquanto se mostrava eletrizado. Seguindo seu comedimento habitual, mencionou sim que o Borussia teve sorte como também criticou a atuação de sua equipe no primeiro tempo: “Deviamos ter tido mais coragem”, acrescentou.

Se o Wolfsburg não se mostrar uma zebra, é o Borussia, essa equipe contagiante pela forma de jogar e pela filosofia do clube que vai sair de Berlim vitoriosa e dar ao Kloppo a despedida que ele merece.

Na final da Pokal no ano passado, depois da derrota para o Bayern, um jogador do Borussia, Kevin Großkreutz urinou no saguão do Hotel Berlim, tamana a sua frustração com a derrota. Esse ano não há esse perigo, mesmo porque o Bayern já não faz parte dos finalistas da Taça da DFB (Federação Alemã de Futebol) e não vem pra Berlim… Entre os memes nas redes sociais, aparece uma foto de meias para usar em casa com as cores do Bayern e os dizeres: A partir de hoje, baratinho na Amazon, alfinentando que a equipe de Munique vai ficar em casa já que é uma outra que vai disputar a final em Berlim. Da partida entre Arminia Bielefeld e Wolfsburg (29), sai o adversário do Borussia na final.

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