“Bossa Negra” na capital: faltou pimenta no Vatapá

Fátima Lacerda

25 de julho de 2015 | 19h26

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Nos confins do bairro igualmente multiétnico e caótico de Kreuzberg fica o clube Lido, que apesar do nome, ao contrário do homônimo no Mar Adriático, fica bem escondido, mas é uma super pedida para quem quer conferir a eferverscência cultural alternativa de Berlim.

Os fãs de carteirinha do clube são kreuzberguianos e berlinenses doidos por festas temáticas e formações musicais dos quatro cantos do mundo. Nesse lugar, a cantora Céu já marcou presença várias vezes. Chico César, no início desse ano e na noite de sexta-feira (24) foi a vez do projeto conjunto entre “o Jimi Hendrix do Bandolim”, Hamilton de Holanda e o cantor Diogo Nogueira.

Tudo que promete uma negritude na selva berlinense é bem-vindo. No solo kreuzberguiano, tudo o que não é alemão, é bem-vindo e isso inclui aventuras e descobertas musicais com gostinho de além-mar. Faz transcender, viajar ou relembrar Brasil. Uma das poucas vezes que se vê os olhos de um alemão brilhar, é quando se trata de Brasil, contemporaneamente e por motivos de natureza trágica, exceto quando se trata de futebol.

O caráter ousado da produção do Lido foi agendar o show para às 20 horas. Por que ousado? Com o clima de verão para berlinenses nenhum botar defeito, é impossível conseguir que as pessoas saiam da rua, a autora desse texto incluída. Nesses dias que Bangu é aqui (!!), não há como não aproveitar o que brasucas recém-chegados não entendem: a necessidade de ficar do lado de fora e curtir o sol e o verão num país onde durante 8 meses do ano faz frio.

Chegando lá, 30 minutos depois da oito, a galera brasuca estava na calçada. Foi só prender a bicicleta, entrar, encontrar uma querida brasuca e o show iniciou. A turnê do quarteto composto de contrabaixo, batera, o mestre do bandolim e Diogo Nogueira vem fazendo uma turnê em lugares de prestígio. Iniciaram na Finlândia, estão nas cidades mais importantes da Alemanha (Berlim, Munique e Mainz (vizinha de Frankfurt),) como na Bélgica, Espanha, França e Suécia.

Hamilton já fez shows pontuais com outros artistas, como no Festival de Jazz em Melbourne na Austrália com o pianista de jazz, Stefano Bollani, um apaixonado pela música brasileira e conhecido do público brasuca desde sua apresentação no extinto Tim Festival.

16 músicas constavam na Setlist de um repertório cheio de defeitos e na sua ordem, mostrou isenção de uma dinâmica crescente e bem pensada. “Aquarela Brasileira” contraposta com músicas de demasiado caráter intimistas não fecharam a conta. A dinâmica no público oscilava entre o nostálgico com “Aquarela do Brasil” e a melancólica e totalmente desnecessária “Desde que o samba é samba“, a divertida “Vatapá“, “Salamandra”, a deliciosa “Batendo a porta” do formidável João Nogueira e o eterno “Madalena“, sendo que essa música é memória musical de uso capião da Pimentinha.

A “excursão cubana” do repertório teve “El cuarto de Tula”, eternizado no CD do “Buena Vista Social Clube”. A interpretação foi só para não dizer que não falou de Cuba.

Enquanto a banda de Hamilton esbanjava sintonia, Diogo Nogueira se apresentou de camisa azul de manga cumprida fechada até o último botão, mangas dobradas, com um microfone com um detalhe dourado e mal saiu da metade do palco. O que o público queria ver, ouvir e sentir não era uma Bossa nem um Samba nem nada estéril e bonitinho de cantar, mas o samba, sim, negro, pulsante e cheio de Pathos como canta o Péricles. Queríamos um som cheio recheado de ginga e malemolência carioca. Em muitas vezes, ao invés de reduzir a saudade a escolha da música, a  aumentava. Queríamos que ele cantasse “Pra que discutir com madame?”. Numa noite de sexta-feira de temperatura que lembrava Bangu, a gente não queria ouvir um samba esterilizado. Também não era hora da versão econômica de João Gilberto, nem mesmo da versão perfeita para gafieira da divina Elza Soares.

Não! Ansiávamos um Diogo Nogueira livre, leve, solto no palco e ele já provou que sabe fazer como nesse show em 2011 no Circo Voador, RJ.

Na hora de falar com os fãs, Diogo o fez no stande de vendas de Vinil e CD do novo trabalho em conjunto. Um empreendimento focado na forma resultante na venda de CD’s, mas não no autêntico. Nas conversas depois quando a equipe já havia saído para o hotel, muitos fãs reclamavam da “secura”, “da falta de empatia” de Nogueira.

Hamilton de Holanda, por sua vez, não pestanejou em fazer Selfies no camarim, sorria um sorriso cuidadoso, mas sincero e no palco, nos mostrou um artista capaz de se entrega, mas sem o parceiro para complementá-lo do jeito que ele merecia.

https://www.youtube.com/watch?v=aJPT9edbed8

Em um papo muitíssimo rápido, perguntei a Hamilton se ele teria observado diferentes reações no público europeu até agora:

Eu percebo quando o público gosta, o aplauso entre as canções é bem mais longo do que no Brasil“.

O portal do Lido avisava que “o melhor músico de bandolim do mundo” estaria na capital. Muitos músicos já radicados na capital foram para ver especialmente Hamilton. Fãs de lá do Brasil e admiradores de sua virtuosidade. Para mim foi a primeira vez vê-lo ao vivo. Contagiante! Já Diogo Nogueira, assisti pela primeira vez ao vivo na gravação do progama “Samba na Gamboa” com o tema “Choro é Samba“, no Trapiche na Gamboa numa segunda-feira de maio de 2011. Enquanto o ex-Beatle Paul McCartney cantava pela segunda noite seguida no Engenhão, eu conferia o talento do francês Nicolas Krassik, e de Amélia Rabello, convidados do programa que foi ao ar em 13 de Dezembro de 2011.

https://www.youtube.com/watch?v=zNXBI0abmoc

Ao contrário de outras bandas que passaram por aqui durante este ano, a dupla Hamilton & Diego não funcionou como goiabada com queijo. Não teve o casadinho musical. Foi legal? Foi. Deu pra cantar junto? Sim. Mas faltou unidade, faltou  Diogo chegar junto. Quando Hamilton embarcava no solo, era só ele no palco.

Quando o show vingou e como diz a Margarethe de Menezes, “a criança nasceu” é uma experiência gratificante, e no caso do show de Lenine exatamente a um ano atrás, uma experiência musical orgânica e ao mesmo tempo transcendente, dessas para lembrar uma vida inteira. Claro que não será sempre assim. Entretanto, no “Bossa Negra” em Berlim faltou pimenta no vatapá. A pimenta do tipo que Lenine colocou na gravação do SongBook do grande João Nogueira.

https://www.youtube.com/watch?v=7yE75PbOFkk

Depois do show, a vontade de ouvir “Pra que discutir com Madame?” ficou engasgada em muita gente. O grupo de brasucas que se reuniu no saguão do clube depois do show para fazer uma roda de samba, também não tocou. Minha memória carioca, cheia de saudades do Trapiche, na Gamboa, continua necessitando disso até agora.

Links relacionados:

 http://hamiltondeholanda.com/pt