Berlinenses prestam última homenagem a Bowie no estúdio onde ele gravou “Heroes”

Fátima Lacerda

16 Janeiro 2016 | 09h50

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Logo depois da notícia da morte de David Bowie, a Radio Eins iniciou no seu portal uma campanha para que seus admiradores/se enviassem fotos referentes a ele. Era também possível gravar em áudio sobre aquilo que o ex-morador mais ilustre de Berlim havia significado em nossas vidas. E como tudo isso não bastasse, na terça-feira (12), a rádio tocou música de Bowie até a 01 da madrugada de quarta-feira (13).

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Enquanto isso, o legendário “Hansa Studios”, no qual Bowie gravou seus 3 principais álbuns, em parceria com a Rádio Eins e o Berlin Music Tours, convidou nós, moradores de solos berlinenses, para nos despedirmos sem pressa. A partir do meio-dia de sexta-feira (15) era só chegar. E mesmo com uma tarde escura e gélida beirando os zero graus, os berlinenses estavam lá.

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No telão eram projetadas um arsenal de fotos, formado pelo envio dos fãs a Radio Eins assim como um contingente relíquia e sob direitos autorais do “Hansa Studios”. Tinham mulheres com bebê de colo, crianças já com uma máquina fotográfica de responsa na mão, os freaks também estavam lá. Um cara invocado com uma super câmera no ombro e cabelos brancos longos. Quando eu perguntei para quem ele estava cobrindo, ele foi curto e grosso: “Pra mim e para a Internet”. Aha.

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No canto do “Meistersaal” do “Hansa Studios“, do qual clima de austeriada encantou Bowie, haviam inúmeras cadeiras. Antes de sair procurando depoimentos, eu sentei ali para me despedir e o melhor de tudo: é poder fazê-lo em conjunto, com quem sente da mesma forma, estar em sintonia foi muito importante. Na caixa de som rolavam vários sucessos. Ouvir “Heroes” na sala em que a música foi gravada, me vi num privilégio: o que nós berlinenses temos que é o de viver história cada vez que toca “Heroes” naquela sala”. Tirando que a cidade oferece inúmeras localidades físicas para lembrar do nosso “vizinho” mais ilustre, estar ali, com todas as diferenças mas unidos pela mesma energia: a de se despedir de um artista brilhante com uma obra fenomenal como o cara com indumentária de escocês.

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 O cara com a cabeleira do Nick Cave. As mulheres com bebês de colo, a carioca berlinense que viu o muro cair e essa carioca sou eu. Também a Brendy, uma americana que entrevistei e me contou quase toda a a sua vida. Constatei semelhança com o fato de não termos caído de amores por Bowie à primeira vista. Quem foi que disse que não há amor à segunda vista? Brendy é do Alabama, atualmente mora em IOWA e encarou um voo internacional para estar presente ali “na sala histórica”. “A primeira vez que ouvi “Let’s Dance” eu disse pra minha amiga: Que cara feio”! Rindo de si mesma, ela declarou: “depois ele se tornou um companheiro em todas as fases da minha vida”. Perguntada se pudesse resumir a obra de Bowie em uma palavra, a americana tagarela e emocionada, não pestanejou: “Liberdade”.Tinha também a mulher com a bolsa com os dizeres “Bowie über Berlin” em aluzão ao filme “Asas da Liberdade”, dirigido por Wim Wenders e que em original se chama “Der Himmer über Berlin” (O céu sobre Berlim, na tradução literal).

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Thilo Schmied, que frequentemente conduz visitas guiadas ao estúdio (em breve um artigo só sobre isso) subia no palco, de vez em quando e dizia: “Se alguém falar alguma coisa, cantar ou tocar, o palco está aberto. Como os alemães não são de se “amostrar”, quase ninguém topou o desafio. No inicio da tarde, entre 13 e 15 horas (horário local), o clima era mais pesado, mais de luto mesmo. Conversando com Thilo expressei a minha vontade de ouvir “Let’s Dance” bem alto e que todo mundo dançasse ali, usando a dança como a melhor forma de simbolizar a vida, do e ainda ousei em afirmar que essa atitude seria muito bem-vista por Bowie. Ele não desgostou da ideia, mas ratificou o que eu já anteriormente sentira: os berlinenses queriam mesmo curtir a coisa no silêncio, na viagem interior. A fila para se eternizar no livro de condolências era grande. Quando retornei às 18 horas, já eram 3 bancadas para formar uma lista que provavelmente será publicada na internet: no site de David Bowie ou no site da Radio Eins.

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Como todas as camadas berlinenses marcaram presença, não poderiam faltar os admiradores de Bowie acompanhados dos seus bichos de estimação: os cachorros. Uma carta assinada por Birgit, agradecia ao britânico: “Você me acompanhou durante toda a minha juventude“.

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Uma jovem mulher alemã subiu ao palco e, no discurso humilde, do jeito que os alemães gostam, ela mandou: “A gente foi em casa e ensaiou durante 2 horas. Eu não sou cantora, por isso, preciso que você cantem juntos”. Cantou 3 músicas e o público gostou. A mulher do meu lado contava como tinha sido o choque ao ler a notícia sobre a morte de Bowie logo no início da matina daquela segunda-feira. Se tinha um denominador em todas as conversas que tive e que presenciei, era a surpresa somada a rasteira do destino. Como assim?

Na sexta-feira (08) enquanto o mundo musical inteiro festejava o lançamento do novo trabalho do camaleão do pop, no “Hansa Studios” rolava um festão. Faixas do novo disco foram promovidas. Teve festa até a madrugada. No domingo à noite (10), o noticiário “Abendschau” da TV local berlinense, fez uma matéria exatamente sobre as visitas guiadas no “Hansa Studios“.

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 O ex-engenheiro do som de Bowie, Eduard Meyer era o foco das atenções, contava história de insider. Na sequência, participantes da visita davam o testemunho de felicidade ao microfone do repórter. Esse mesmo Meyer, que em conversa informal com o Blog divulgou estar “há 7 anos aposentado”, teve que voltar ao “Meistersaal” para uma ocasião muito triste. Várias vezes meio-dia e 21 horas, ele pegou seu Cello e homenageou Bowie e sempre dizendo “Eu já me emocionei várias vezes hoje. Até mesmo agora quando estou falando com vocês. Quero dizer que eu acho incrível vocês terem aparecido em tanta quantidade aqui para nos despedirmos“.

Eu vou tocar uma música deBach, ao meu ver, muito coerente com esse momento.

https://www.youtube.com/watch?v=ET90JiYbfZA

Em conversa exclusiva com o Blog, Meyer contou que Bowie parou de contactá-lo, no momento em que descobrira do seu câncer, 18 meses atrás.

No preâmbulo da exposicao no Museu Martin-Gropius-Bau os promotores usavam de um instrumento marqueteiro com a “eventual possibilidade” de Bowie vir a Berlim para a vernissage. Meyer contou que “em nenhum momento” Bowie teria cogitado marcar presença na capital e ainda brincou: “Ele conhece o seu próprio arquivo”. A última vez que tiveram contato pessoal, foi no show em 2003 no hoje multifuncional Max-Schmelling-Halle. “O Sr. ficou surpreso com a notícia?”, perguntei: “Fiquei, muito. Eu não imaginava que o estado dele era tao grave”. Ao saber que o artigo seria publicado na imprensa brasileira, Meyer falou com todo o orgulho: “Eu tenho um sobrinho que mora no Brasil. Ele conheceu uma brasileira, se apaixonou por ela e foi morar lá”. Simples assim.

Em bem-humorada entrevista concedida ao tabloide Bild, Meyer afirmou: “Eu fu o engenheiro de som, o aconselhador e fazedor de café para Bowie”, o que me fez replicar: “Quem não quer ser o fazedor de café para David Bowie?!!!”

Na minha terceira ida ao “Hansa Studios” já pelas 20 horas, arrastei Christian que chegara do trabalho. Ele, a mais completa enciclopédia musical que eu conheço. Era imprescindível que ele estivesse ali também. Pessoas totalmente desconhecidas conversavam na porta de entrada sobre onde estavam quando receberam a notícia. Para muitos, a notícia ainda parece irreal. Mesmo com as velas e flores na porta de entrada do estúdio, do edifício onde Bowie morou e no palco do “Meistersaal” ratifiquem o contrário.

Um dos meus primeiros endereços em Berlim foi na Köthener Str. exatamente a rua do estúdio, à beira do muro e do lado de um mercado das pulgas (Flohmarkt) que a Creuzette adorava visitar. Já no início da minha paixão incondicional pela sétima arte, comprei uma câmera super 8 nesse mercado o que me preencheu de incontida felicidade. Porém, quando chegamos em casa, vi que a máquina não funcionava. O cara tinha me passado a perna. A Creuzette quase se rolou no chão de tanto rir. As leis daquele mercado de pulga não possibilitavam reclamação, já que não havia nota fiscal nem recibo. Também o projeto piloto do trem automático (sem condutor) que foi iniciado em 1984 e tinha as somente 3 estações GleisdreieckBernburger StrKemperplatz passava também ao longo da Köthener Str. seguindo até Potsdamer Platz, na época, terreno minado. Para quem fala alemão ou topa a tradução do Google, aqui o meu artigo publicado no Blog InBerlin: http://blog.inberlin.de/2013/09/die-magnetbahn-und-das-berlin-von-einst/

Nesse vídeo você pode ver a parada do mercado das pulgas:

http://blog.inberlin.de/2013/09/die-m-bahn-in-berlin/#more-13172

Por volta das 22 horas, os últimos “teimosos” ainda ocupavam o chão do “Meistersaal”. Os organizadores comunicam que ao longo do dia, 3000 pessoas foram dar Adeus ao mais ilustre ex-morador de Berlim.

Aproximadamente 3000 berlinenses estiveram ali: na última ocasião em que admiradores de Bowie podem se reunir numa cerimônia conjunta, para sofrer junto, cantar junto, celebrar a sua obra. Afinal, Bowie morre uma só vez. Estar naquele salão, era um Must em forma de peregrinação musical. A sua obra ai. Bowie morreu, mas está presente em Berlim. Aqui. Agora.