Brasileiras que fazem a diferença em Berlim : Luzia Simons

Fátima Lacerda

24 Janeiro 2017 | 05h35

Em seus tempos de exílio nos EUA, o dramaturgo Bertold Brecht dizia: “Mesmo sob o forte sol da Califórnia, dentro de mim continuo sentido o friozinho que conheci no ventre da minha mãe na Floresta Negra“. Essa frase sintetiza a ambiguidade existente em todo o processo de imigração.

A artista Luzia Simons viveu esse processo imigratório num roteiro, deveras, inusitado: Ceará-Paris-Stuttgart-Berlim. Na capital alemã, ela vive há 10 anos, mas tem uma carreira estabelecida de forma sólida e muito além das fronteiras europeias e brasileiras. 

Atualmente, isso se faz mais visível em quadro adquirido para enriquecer a prestigiosa coleção do hotel mais simbólico de Berlim: o Hotel Adlon, inaugurado em 1907 e que nos Anos Dourados da Berlim Metrópole era o endereço certeiro de expoentes da política, ciência, arquitetura, das Artes Cênicas e Artes Plásticas. Em 1997 o Adlon foi restaurado, reaberto e continua a sua fama e prestigio de ser o hotel preferido de personalidades do mundo. A cena de Michael Jackson sacudindo seu filho da janela é total exceção na riquíssima história desse Hotel, construido pelo ambicioso Lorenz Adlon com o aval o imperador Guilherme II.

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Vindo do saguão e se dirigir para o salão de café da manhã, ao subir as escadas o visitante irá deparar com um quadro deslumbrante e que ali colocado, no preâmbulo da visita do ex-presidente dos EUA, Barack Obama, em novembro de 2016. O requinte na dobradinha obra e lugar onde se encontra, foi captado pelo fotógrafo, Christian Könneke.

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O sorriso da artista Luzia Simos vem com um melange de simpatia e curiosidade pelo outro. Luzia gosta de gente. Gosta de se comunicar, de interagir numa simpatia que, num primeiro momento, causa irritação em solo marrento que é Berlim.

Apesar do talento inquestionável e da fama internacional, sua atividade artística tem como o denominador comum a meticulosidade, o amor aos detalhes e a teimosia de fazer, do visivelmente efêmero, eterno aos nossos olhos. Os “Stockage” é um exemplo disso.

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Tereza de Arruda, historiadora de arte e curadora independente com a qual inauguramos o tópico “Brasileiros que fazem a diferença” é autora do prefácio de vários catálogos de exposição de Luzia Simons, entre eles, o publicado em maio de 2016 sobre as instalações “Stockage”, nos jardins do Arquivo Nacional de Paris e no Octógono da Pinacoteca em São Paulo. Sobre o trabalho da artista, Tereza descreve:

“Sua obra é o resultado de uma incansável procura de te?cnicas e caminhos inusitados experimentais a fim de criar imagens fiéis ao seu imaginário, suas vivências e expectativas. Sem fazer o uso de ca?mera fotográfica convencional, Luzia Simons explorou diversos me?todos de captação de imagens com o uso da ca?mera obscura gerando a série homônima a criar imagens de natureza morta ou nus em preto e branco. Ela revela e resguarda temas da atualidade, como transição, migração e efemeridade”.

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Já Ivo Mesquita, Curador da Pinacoteca de São Paulo, no prefácio mesmo catálogo, declara:” Ela (Luzia) articula vivências pessoais, como emigrante e estrangeira, com um imenso repertório de signos de identidade, que circulam na contemporaneidade com migrantes e expatriados nos centros urbanos. Ela recupera memórias, atualiza e ratifica narrativas”.

A cronologia

Nascida em Quixadá, no Ceará, com 15 anos Luzia já fazia exposições “com tudo o de regional que o Ceará podia oferecer e afirma: “Antes de sair de Fortaleza eu focava em tudo regional ligado ao artesanato. Em tudo que se passava na praia. Eu adorava praia. Aliás, adoro até hoje“.

Luzia saiu do Brasil para ir para Paris, onde viveu 10 anos e entre 1977-1981 cursou a cadeira de história na Universidade de Paris VIII, Vincennes. Depois cursou (1984-1986) faculdade de Artes Plásticas. Na sequência, se mudou para Stuttgart, Alemanha, onde lecionou na Escola Superior de Musica e Arte Dramática. Depois, seu caminho se enveredou para Berlim, a cidade que, como ela declara, “sempre exige respostas urgentes”.

“Excursão” a Prenzlauer Berg

O bairro localizado na ex-parte leste de Berlim e que nos anos ’70 foi verdadeira célula do movimento oposicionista de inconformados com o regime autoritário e repressivo da Alemanha Oriental, se chama Prenzlauer Berg e vive, no momento uma repaginada de infraestrutura e que faz os aluguéis se tornarem de valores astronômicos, gerando um processo, atualmente, muito En Vogue na capital: a gentrificação.

Mesmo depois de mais de duas décadas após a queda do Muro de Berlim e mesmo com as consequências de uma cidade crescente, o bairro de Prenzlauer Berg continua sendo favorizado por artistas de todos os segmentos como fonte de inspiração e isso também vale para a artista brasileira.

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O início

Era um dia de calor inusitado para a capital alemã. Eu, confessa kreuzberguiana bairrista, tive que pesquisar bem para saber como chegar lá de bicicleta. E como é de praxe quando você sai das “fronteiras” kreuzberguianas para “a outra parte da cidade”, os equívocos e os enveredar por ruas erradas, não poderia faltar. Quando toquei a campainha do Atelier e ninguém atendia, veio a paúra de ter chegado tarde demais e ela ter, como geralmente fazem os alemães, ido embora.

Sentei num banco de madeira em frente do prédio junto a uma dessas lojinhas de bairro, pelas quais já vale uma ida a Prenzlauer Berg. Liguei pro celular dela. Não atendia. Depois de alguns minutos, tendo exercitado a minha perseverança jornalística, ouço alguém chamar meu nome, com o sotaque que só nativos de língua brasileira tem. Olho pro lado esquerdo, vejo Luzia, como de praxe, com um largo sorriso no rosto. Nas mãos, frutas dentro de uma sacola. A vontade de adentrar o Atelier que há meses eu prometera visitar, era maior do que tudo ao redor.

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Depois que eu pudesse fazer uma longa inspeção em seu Atelier como espaço físico, sentamos na mesa da cozinha aberta e degustando suco de maçã, Luzia conversou exclusivo com o Blog:

FL: Quando você descobriu que queria ser artista?

LS: Durante muitos anos eu queria, mas não sabia como realizar isso. Eu tinha um tio que foi um importante pintor no Ceará e que na época pintava paisagens do Ceará em formato de natureza morta. Tinham, na minha família tinham pessoas que desenhavam muito bem. Não meus pais, mas meus primos. Eu aprendi um pouco a fazer com eles. Na verdade, eu deveria ter sido psiquiatra, se não tivesse sido a revolução de 1968 e tudo o que veio depois (risos). Faz parte do meu desenvolvimento, os acasos da vida….

Como vive uma cearense na Europa?

Eu vou trabalhando onde eu estou vivendo. Todas as raízes eu guardo, mas a questão é: como guardar as raízes guardando a integridade me adaptando cada vez a uma cultura diferente. Eu tive que me adaptar na França, que é diferente da Alemanha e guardar a identidade brasileira. Eu queira ou não queira, essas são minhas raízes e eu não direi nunca que sou alemã. Eu tenho o passaporte francês, mas eu sou sempre brasileira. Essa questão das raízes, das culturas é sempre um tema no meu trabalho.

Como é ser cidadão do mundo?

Eu sai do Brasil numa época de uma ditadura militar. Nós não tínhamos direito de falar, de nos encontrar na universidade. Bastava terem 3 estudantes juntos já era um ato subversivo. Em cada uma das nossas turmas, tinha um cara da Política Federal. Isso me marcou muito. Era uma época em que o mundo inteiro estava mexido e aquela caquética ordem mundial que tinham levado às guerras, estava mudando. Quando eu cheguei na França, foi um choque de beleza pra mim. Aliás um choque em todos os sentidos. Um choque de beleza estética também. Paris, que era bem mais antiga do que hoje, tinha um charme que nunca esqueci!

Eu adoro viver com fronteiras abertas. Adoro poder passar de uma cultura para outra e por isso eu é que eu adoro a Europa. A cada duas horas, eu mudo completamente de paisagem, eu mudo de forma de pensar, algo que dá um direito como também um peso muito grande e constatar que isso é muito bom. É bom ver que sentimos num bar e estamos rodeados por todas as classes possíveis: por pessoas que estão desempregadas, pelas que trabalham no teatro, outras que estão trabalhando no banco. Esses encontros e reencontros mostram que você não está socialmente estigmatizado como é no Brasil.

O local de maior prestígio e simbologia em que, atualmente, o trabalho de Luzia “Vanitas Rerum” está exposto de forma abrangente, é no jardim do Arquivo Nacional, no bairro Le Marais em Paris, nesse lugar especial na capital francesa: um verdadeiro deslumbre em arquitetura, requinte e história. Nas noites do verão parisiense, são oferecidos, com direito à vista para os tetos de Paris, shows de música gratuito no jardim que foi aberto ao público em 2011 depois de meticulosa restauração. Esse arquivo também armazena documentos que espelham a história francesa e europeia, como o testamento de Napoleão, o diário de Luís XVI, a condenação de morte de Maria Antonieta.

Oito obras monumentais da série “Stockage” são “acolhidas” pela arquitetura do século XVII.

FL: O que significou pra você voltar a Paris, lugar onde você viveu tantos anos e expor num lugar tão simbólico e prestigioso como o pátio do Archives Nationales?

(Risos, risos, risos) Grande, grande prazer! Pra mim foi o máximo! Foi a coisa mais maravilhosa poder trabalhar as coisas do jardim, do clássico, de Paris como eu gosto onde estão arquivados documentos meus. Todo o processo de naturalização francesa vai, no final das contas, ser arquivado lá. Nesse jardim, a arquitetura foi um marco na história da França. Depois disso, vários arquitetos foram influenciados por ela. Os diálogos no trabalho ligado com o vegetal, com a terra, com círculos. Contraponto ao jardim francês, eu fiz um caos de mosaico de flores. É uma coisa efêmera.

Confirmando a análise de Luzia sobre seu próprio trabalho, a curadora Tereza de Arruda, declara: “A transitoriedade de uma flor que acabará por definhar e morrer torna-se visível. Esse desfecho é complementado por imagens de tulipas opulentas na sua suposta condição eterna”: sedutoras e tentadoras”.

ART – Destaque em edição especial 

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Na edição especial “Isso é Berlim” publicada de setembro (2016) da revista ART, onde foram apresentados 8 artistas que escolheram Berlim para exercitar sua produção artística, foi Luzia Simons a escolhida para protagonizar, na contracapa, a divulgação da edição especialíssima. Wolfgang Stahr, fotógrafo da ART foi ao atelier de Luzia e, segundo ele mesmo, cortou um dobrado para fazer fotos com um mínimo de luz que os scanners usados pela artista, permitem.

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Suas primeiras fotografias, em 1995, Luzia fez com um Scanner da AGFA. A escolha do Scanner justifica Luzia no artigo da seguinte forma: “A câmera corresponde ainda ao olho do ser humano, com profunda nitidez. O scanner vai tateando a imagem. “Os Scannogramms, técnica daqual é pioneira, serão posteriormente impressos em Light Jet, em formato pequeno e monumental”*. No longo texto da entrevista veiculada na “Art”, Luzia declara: “A mim interessam valores culturais que associamos com objetos e como essas combinações se diferem de acordo com a cultura. A tulipa, por exemplo, foi plantada no Cazaquistão e na Pérsia. La se escreviam poemas sobre tulipas como símbolo pelo sangue de entes queridos que morreram. Também durante a Guerra do Iraque, a tulipa servia de símbolo para os mortos”

O mais recente trabalho de Luzia é composto de fotos feitas no Amazonas e terá foco temático em Alexander von Humboldt, o “Pai da Geografia Moderna” e que nunca esteve no Brasil. “O intercâmbio de culturas está sempre presente no meu trabalho”,  finaliza.

Luzia Simons teve até o dia 08/01 seu trabalho “Schnittmenge” em exposição no Museu de Arte Asiática em Berlim.

Links relacionados:

http://luziasimons.de/

http://www.smb.museum/museen-und-einrichtungen/museum-fuer-asiatische-kunst/ausstellungen/detail/schnittmengen-zeitgenoessische-kunst-und-die-ueberlieferung-1.html

*Catálogo Luzia Simons, Installations in situ. Prefácio de Tereza de Arruda

Archives nationales, Paris/Pinacoteca do Estado de São Paulo