Brasileiros fazem a diferença: Marcos Romão deixa um legado dos dois lados do Atlântico

Brasileiros fazem a diferença: Marcos Romão deixa um legado dos dois lados do Atlântico

Fátima Lacerda

04 Setembro 2018 | 19h59

FB

Dias conturbados, acontecimentos trágicos que fazem difícil cair no sono. E quando você finalmente consegue cair na cama para aquele dia finalmente acabar, durante a madrugada no horário berlinense, chega a notícia do fim da trajetória que exige respeito e admiração, para dizer ao mínimo.

O Blog tem um tópico sobre „Brasileiros que fazem a diferença“, neste caso, o diferencial vem de Hamburgo. De um brasileiro que viveu mais de 20 anos na Alemanha.

Marcos Romão, niteroiense de coração e cidadão da cidade hanseática de Hamburgo (norte da Alemanha), perdeu uma luta contra o câncer na dia 03/09. Uma das muitas lutas que travou durante a vida de afrodescendente e pobre no RJ e estrangeiro, afrodescendente e pobre em sua vida no Hemisfério Norte. Seu corpo descansou. Sua instigante (e por vezes irritante) teimosia, fará muita falta num mundo de valores tão equivocados, convicções tão pérfidas e avassaladores regressos políticos que farão necessários muitos anos para que se volte a ter um mínimo de normalidade.

Antes de conhecer pessoalmente Romão, já conhecia sua fama de militante da causa afrodescendente e atuante na cena brasileira de Hamburgo.

Formado Sociólogo, ele atuou no IPCN (Instituto de Pesquisa das Culturas Negras) durante a Ditadura Militar nos anos 70′. Foi um dos fundadores do SOS Racismo no Rio de Janeiro e sofreu muitas represálias por isso. Nos anos 80′ quando o cerco foi se fechando, ele imigrou para Hamburgo, onde realizou o projeto da Rádio Mamaterra e se tornou figura-chave e referência para imigrantes brasileiros. Com a rádio alternativa, ele atravessava fronteiras e pulava muros, tomava espaço físico, instigava, irritava. 

Durante muitos anos, foi figura-chave no “Conselho dos Cidadãos”, grupos de brasileiros, tão diversos em suas biografias e expectativas, mas juntos na Diáspora. Uma vez por mês, se encontravam para conversar sobre preâmbulos burocráticos, políticos ou simplesmente para falar a língua brasileira. Como a cidade hanseática de Hamburgo não tinha uma embaixada e durante muito tempo nem mesmo uma representação consultar, Romão se engajava no “escritório ambulante” nos dias de sábado.

Com suas vindas a Berlim, pude conhecê-lo, especialmente durante os grupos de trabalho de cidades europeias para o Congresso “Brasileiros no Mundo“, evento político incentivado pelo Ministério das Relações Exteriores da época, para melhorar as condições de brasileiros residentes no exterior, por exemplo, instigando acordos entre governos no âmbito de aposentadoria, do visto de permanência e com isso almejar a legalização e legitmação dessas pessoas e tantos outros itens indispensáveis para se formar uma vida digna em solos estrangeiros.

No grupo de “Brasileiros em Berlim” tinha além de muitas pessoas com diferentes interesses, perspectivas e expectativas, tinha também eu e Romão. As discussões eram muito acaloradas, vaidades afloravam de forma exacerbada. Foram semanas difíceis, que colocou a prova nossos limites, nossa paciência, nosso tempo e nossa ânsia em construir um terreno menos árido para a vida em Berlim.

Em dezembro de 2010, poucos dias antes da polícia invadir o Complexo do Alemão, numa operação que entraria para a história do Rio de Janeiro, houve o Congresso “Brasileiros no Mundo” no Museu Histórico Diplomático no prédio do Palácio do Itamaraty, na Avenida Marechal Floriano, no Rio de Janeiro, sede do Ministério das Relações Exteriores entre os anos 1899 a 1970.

Com seu macacão branco, sua cabeleira Black Power e seu sorriso às vezes suscitando ternura, por vezes teimosia e por outra uma capacidade estratégica de observar, eletrizado pelo sucesso do discurso do ex-presidente Lula, ele passou pelo jardim, rodeados de pessoas. Sentada num dos bancos por ter meus pés massacrados pela sandália mal escolhida e pelo calor, o vi passar, cheio de esperança, repleto de entusiasmo. Romão era um militante no melhor sentido da palavra quando esta tinha uma conotação positiva e também porque nunca desistia do diálogo. Tinha como alicerce para tudo, o seu humor carioca e uma malemolência sem a qual, não se vive na Alemanha, mesmo quando a vivência no dia-a-dia tenta te convencer, repetidamente e nas mais diferenes nuances, de que essa ferramenta não é legal…

“Dona Fátima é invocada” disse ele um dia na porta da embaixada quando conversávamos sobre o grupo “Brasileiros em Berlim” num dia de festejo pelo dia 07 de setembro. Depois desse dia,  eu só ouvia notícias dele por terceiros. Em 2013, soube que ele havia deixado a cidade de Hamburgo e retornado para viver onde cresceu: do outro lado da Baía de Guanabara. Em Niterói. O mesmo ano em que perdeu uma de suas filhas.

Segundo o fotógrafo Ras Adauto, um carioca radicado berlinense, amigo e companheiro de Marcos Romão de muitas décadas e lutas, me disse que ele voltou em 2013 e já foi tomado pela realidade brasileira na passeata contra a Copa do Mundo nas ruas da capital fluminense.

FB

A sua luta contra o câncer de fígado começara ainda durante sua estada de mais de 20 anos na Alemanha e iria persistir no Rio de Janeiro. Sem recursos, Romão foi condenado às incontáveis filas dos SUS: Fila de doação de órgãos, fila para ser atendido. Suas postagens no Facebook eram sempre otimistas e mostrava que ele, até mesmo da cama do hospital, estava ligado no que acontecia no mundo: Na passeata logo depois do assassinato de Marielle, na passeata no dia das Mulheres Negras e Caribenhas e também estava de olho no desenvolvimento político da Alemanha. No dia 27/08 ele postou uma foto que dizia: “Ninguém é ilegal” (Kein Mensch ist illegal), se referindo ao cenário de Guerra Civil que se deu na segunda-feira na cidade leste de Chemnitz, na qual auto-denominados-justiceiros, porém de fato neonazistas, literalmente, sairão à caça de imigrantes e pessoas de pele escura para “vingar” a morte de um alemão, na noite anterior.

A cronologia postada por ele próprio mostra um homem consumido pela doença. Do físico robusto e espadaúdo ele se tornou um homem de estatura física frágil, o cabelo Black Power sumiu e o sorriso se tornou um sorriso de criança, cheio de esperança. A visibilidade de sua luta e peregrinação, as fotos dos enfermeiros até mesmo quando estava sendo transportado na maca no corredor do hospital e sua chegada em casa e a primeira vez que voltara a cozinhar são fotos que deixam o bolo preso na garganta. Os pedidos de doações com a divulgação dos dados da conta para fins de depósito, também. Romão abdicou de usufruir de um sistema de saúde estável para mergulhar no incerto e o fez com dignidade, cercado por uma avalanche de problemas, atrasos, ma vontade, mas também compaixão.

©Ras Adauto

Ainda no dia 28/08 ele postou afirmando estar “confiante” de em breve “ir para casa” ou a postagem de 25/08 avisando: “Já estou recebendo visitas no Hospital Icaraí quatro 823”. Desse hospital ele não saiu vivo. Mesmo que eu não tenha sido sua companheira de luta na longa trajetória, o legado deixado por ele é inegável. Sua resistência também, mas acima de tudo, depois de mais de 20 anos vivendo num país como a Alemanha, não ter perdido a ternura em lutar por aquilo que ele achava certo. O sorriso dentuço não irá “somente” fazer falta para o número infinito de amigos que fez ao longo da vida, mas também aos criativos vendedores ambulantes das ruas de Niterói, sempre objeto da curiosidade de Romão.

Ha um ano atrás quando falamos via Whats App, ele falou da vontade de me ter como “correspondente” com notícias fresquinhas da Alemanha para a Radio Mamaterra. “Vamos fazer em português e alemão!“, disse ele empolgado. Todas as vezes que pensava em entrar em contato, via suas postagens no Facebook, lutando para vencer o câncer. O tempo foi passando, a loucura diária seguia e a distância esfriou os planos.

FB

Seu amigo, Bruno Rico sintetizou a passagem de Romão , como ativista, da melhor forma possível:

E eu não irei me referir a ele no passado em nenhum momento, pois pra mim esse mestre será sempre presente, seja nos ensinamentos, seja na energia que ele deixou, seja na inspiração de ser humano que sempre lutou por ajudar os outros. E é por isso que serei imensamente grato por ter tido a amizade, o respeito e a admiração dele. Tem militante que acha que está inventando a roda, quando na verdade só estamos dando continuidade a uma luta que começou lá atrás com os mais velhos construindo e sustentando uma resistência, e agora tem que ter gente pra segurar o bastão e depois passar, assim é a vida e assim é a nossa luta“.

A que ele alfinetava com humor chamando de “invocada” logo no dia em que já havia sido marcada limpeza de pele na esteticista para não deixar as rugas chegarem, lutou com as lágrimas teimosas o dia inteiro, pelo sintomático que é a morte de Romão exatamente nesse momento trágico de dias de fogo no Museu Histórico Nacional queimando 200 anos de história, com o fogaréu no Pelourinho, na cidade histórica em Salvador num período de insanidades e ódio e de insanos querendo acabar com o Ministério da Cultura. Ela, que é a ferramenta que define um país e sua identidade, mas também por não entender porque tantas pessoas boas estão indo embora deixando uma imensa lacuna na vida de tanta gente. Romão é, com certeza, uma delas.

Na madrugada de 04/09 seu corpo descansou de uma luta de oito anos que ele enfrentou com braveza de um filho de São Jorge. Que os Orixás, os Deuses, os Anjos sejam solícitos em sua chegada. A sua voz pela boa causa, sua teimosia, seu sorriso terno e seu humor farão falta a um número inconmensurável de amigos. RIP

Links relacionados:

http://institutodepesquisadasculturasnegras.blogspot.com/