Brasileiros que fazem a diferença em Berlim estarão em foco no Blog

Fátima Lacerda

18 Maio 2016 | 20h45

Ser brasileiro em solos estrangeiros não é tarefa nada fácil. Se apresentando como tal, ou perguntado numa roda cheia de gente “De onde você vem?” ou como os franceses gostam de colocar:” Qual e o teu pais de origem?” pode ser muito constrangedor, dependendo de quanto tempo você já vive no país e em que situação você se encontra.

Na época que eu fazia faculdade, era frequente a pergunta de colegas de turma:” Você permanecerá na Alemanha depois da faculdade? Essa pergunta era certeira e, sempre, cheia de segundas intenções. Na realidade o alemão queria saber se você poderia vir a pegar o lugar dele no mercado de trabalho. Essa e a pergunta :”Por que você veio exatamente para a Alemanha” e a claro, da proveniência do meu nome “suspeito” foram as mais frequentes que ouvi.

Hermeticidade

A sociedade alemã é extremamente hermética. Brasucas que vem pra Berlim atrás de baladas regadas à musica eletrônica, não conhecem a cidade. Quem vai a Dortmund para visitar a sala de troféus do time do Borussia, também não conhece a Alemanha no sentido sociocultural. Para fazê-lo é imprescindível viver o dia a dia da sociedade e das cidades com suas características diversas e, por vezes muito antagônicas.

No caso de Berlim é ter que aguentar o mal humor crônico do taxista berlinense e saber que ele nunca vai, pelo menos, ajudar a tirar a sua mala do compartimento traseiro do carro no fim do itinerário. Saber lidar com a vendedora atrás do balcão da padaria que vai te odiar  você caso você cometa o disparate de ter pedido extra ou um “desejo especial”, o que no dicionário alemão significa “extraordinário”, “fora do roteiro” e por isso, algo que possa fazê-la surtar e odiar você para todo o sempre. Um outro exemplo é o vizinho que, vivendo o ócio de uma conforável aposentadoria, sempre fecha a porta que da saída para o jardim, simplesmente porque para ele, a separação entre os dois prédios que ocupam o terreno é uma questão elitista e de princípio e ele preenche a sua vida com isso.

O “focinho de Berlim”

Assim é chamada a forma enfezada a dialética berlinense: um povo sem papas na língua, sem rodeios ao mesmo tempo que raramente doce e gentil. Berlim tem inúmeras qualidades, a gentileza, não é uma delas.

A dialética berlinense precisa ser conhecida, aprendida de cór, mais do que isso, precisa ser compreendida!. Somente quando isso acontece é que há uma interação, uma fusão com Berlim e para isso, na esmagadora maioria das vezes é preciso dominar a língua de Schiller e Goethe, não necessariamente para filosofar quer, segundo o baiano Caetano, só seria possível filosofar em alemão, mas para adentrar a cultura desse país por demais hermético. A língua é a ponte de encontro, com ditados populares, expressões linguísticas e nos códigos que você não irá encontrar escrito lugar algum, mas ai de você se não respeitá-lo. A punição vem a cavalo e sem aviso-prévio.

Fazer a diferença

A população brasileira em Berlim é, de acordo com fontes oficiais, aproximadamente de 3.500. A versão não oficial promete ser 3 vezes maior. Existem brasileiras e brasileiros de todos os pontos do país continental, de todas as classes sociais e níveis de escolaridade.

Vir para Berlim sem um plano bem concreto do que se quer realizar pode ser muito perigoso. Claro que não é preciso vir com uma planilha pronta que vai delinear o seu caminhos para os 5 anos seguintes, mas é preciso ter uma  frame e um Plano B além de ter que estar sempre focado, sempre de alerta e sempre pensando no próximo passo. Pra descansar, no pós-globalizado, Berlim é o lugar errado para fazê-lo. David Bowie e Iggy Pop conseguiram, mas os tempos Agora são bem outros. O Muro foi abaixo, Berlim se tornou uma metrópole com todas característica de tal, além de, depois de Paris e Londres, ter se firmado como o terceiro mais procurado destino turístico da Europa, ou seja, Berlim está sempre em mutação.

Os motivos de brasucas de estarem radicados em Berlim são os mais diversos possíveis: para juntar dinheiro e comprar uma casa pra família no Brasil ou para fazer seu pé de meia para viver uma aposentadoria tranquila Outras e outros por impossibilidade de um discurso rejeitado no Brasil ou por concepçao de vida, irrealizável no Brasil, tentam a sorte no exterior.

Berlim pode ser uma benção como pode ser uma praga também, depende do foco e da personalidade e claro, de uma boa pitada de sorte. Tem aqueles e aquelas que vem com uma super ideia e devido à distrações, essa vai se perdendo do pelo caminho e a pessoa acaba se atolando por aqui. Outras procuram sua legitimidade e a virtude de pertencer e experimentar a sensação de inclusão social, através de engajamento politico em causas que lhes são essenciais desde o tempo no Brasil. Outras despencaram no ostracismo total por terem vergonha de não ter conseguido “chegar lá” e perderam a chance de voltar “a tempo” pro Brasil com medo do rótulo de “fracassado” dos familiares.

Viver na Alemanha exige, acima de todos os critérios, disciplina, talvez até mais especialmente em Berlim. Brasileiras e brasileiros que chegam aqui tem que encarar um curso intensivo. O inicio, nunca é fácil. 

Nas próximas semanas, o Blog apresentará brasileiras e brasileiros que fazem a diferença em Berlim, que entenderam o andar da carruagem nas terras alemães e cada um e cada uma de sua forma, encontraram seus caminhos numa cidade ao mesmo tempo marrenta e tão cheia de facetas e de possibilidades e que está sempre se reinventando.

A jornada temporária do Blog inicia, em breve, apresentando Tereza de Arruda, nascida em São Paulo, radicada em Berlim, formada em História da Arte e atuante como Curadora independente no setor das Artes Plásticas pelo mundo afora.