Brasileiros que fazem a diferença: Tereza de Arruda – Curadora de Artes Plásticas

Fátima Lacerda

17 Julho 2016 | 11h22

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A primeira vez que vi Tereza foi no início dos anos ’90 no lado leste de Berlim, onde era localizado o Consulado Geral do Brasil, no bairro de Pankow o de também estavam localizadas muitas outras embaixadas estrangeiras.

Depois de muito anos a presenciei, então pela primeira vez, in action numa palestra sobre Artes Plásticas na Casa das Culturas do Mundo, isso numa época em que o Brasil era culturalmente, infinitamente mais longe do que no período pós-globalizado em que vivemos. Na sequência, vieram outros instrumentos que fizeram o Brasil ficar mais perto da Europa e como diz um ditado popular alemão: “Entrar no sinteco politico”. Esses fatores se deram devido à descoberta do Pré-Sal em 2007, transformando o país numa potência econômica, juntamente com a política externa agressiva exercida durante o governo do ex-presidente Lula, a escolha do Brasil para sediar a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos no RJ, que estão prestes a iniciar.

Os outros encontros se sucederam em eventos culturais e relacionados à arte ou ao cinema ou simplesmente ligado à cena cultural de Berlim. Também em 2012, no Ano da Alemanha no Brasil, ela esteve atuante como a ponte de referência e de cultura. Quando curadores querem expor no Brasil não há como não recorrer ao Know-How de Tereza. Assim fez Arianne Goehler, curadora de influência mór nos anos 90 na Alemanha, ex-Senadora de Cultura e Ciência entre 2002 e 2006 e que atuou como curadora do Fundo de Fomento de Cultura da Capital, o Hauptstadtkulturfonds, a mais poderosa e finaceiramente robusta instituição quando se trata de fomento para grandes projetos realizados em Berlim, mas de relevância internacional .

No contexto da exposição “Exemplos para copiar – Exposições em estética e sustentabilidade” realizado do Memorial da América Latina na capital paulista, Tereza atuou como cocuradora, sendo responsável, entre outros, pela inclusão de 5 artistas brasileiros à edição exibida em SP.

Quando se fala em Artes Plásticas na Alemanha, o nome Tereza de Arruda é um dos primeiros a serem mencionados. E quem pensa que a paulista se concentrou “somente” nas Artes Plásticas de artistas brasileiros, se engana. Arte chinesa, Arte indiana, Arte dinamarquesa, cubana, you name it!

Além de ser curadora independente, não vinculada a nenhum órgão institucional, Tereza conquistou credibilidade nos 4 cantos do mundo. Em Berlim, ela  chegou em 1987, primeiramente por dois meses para fazer curso de alemão. Depois retornou em 1989 para viver na cidade e cursar faculdade de História da Arte.

Quando tive a ideia de prestigiar e apresentar brasileiras e brasileiros que vivem em Berlim, que aqui construíram uma vida e o fizeram de uma forma instigante, criativa sempre foi meu intuito iniciar o novo tópico com a paulista que entendeu o que é viver no “estrangeiro”, ao mesmo tempo em que manteve características brasileiras como empatia, flexibilidade e jogo de cintura além de uma elegância comedida, bem longe de ser pedante ou elitista. Isso tudo somado a teimosia prussiana em querer realizar e, claro, o amor pelo que faz, arremata o Portfólio de Tereza de Arruda.

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Numa quinta-feira do mês de maio, Tereza me convidou para ir a cidade hanseática de Rostock, nordeste da Alemanha para ver a recém-inaugurada exposição “Kuba Libre”, de artistas contemporâneos em Cuba. Eu aceitei o convite. Durante a viagem de carro que durou 3 horas de Berlim para Rostock, realizamos a entrevista, On the Road. Em alta velocidade na rodovia, mas também na forma e no conteúdo dado por Tereza. Uff! Enquanto outros entrevistados se mostram amuados, econômicos em suas declarações, Tereza é experiente na hora de conceder entrevista, na hora de vender o peixe e na hora de fazer o ouvinte se encantar pelo seu Portfólio. Frases de velocidade estonteante que renderam muitas horas de gravação e mais ainda para filtrar e redigir o mais relevante do conteúdo. E isso demora tempo.

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Depois das 3 horas de viagem e um enjoo que fez meu estômago dar cambalhotas, finalmente chegamos ao Kunsthalle na cidade portuária de Rostock, nordeste da Alemanha. Ao ver o número de visitantes esfomeados pela arte cubana e que aguardavam o início da visita guiada, a ser feito por Tereza, o diretor do local chegou até nós no café frente para o jardim e, com um sorriso de fora a fora, disse: “Tá cheio, né?!”

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Decerto que a maioria dos visitantes era da geração mais antiga, daquela que viveu a Guerra Fria e a parceria da Alemanha Oriental em vários âmbitos com Cuba. Pairava uma nostalgia no ar, mas também o interesse numa cultura que ainda teima em se manter genuina, ao mesmo tempo de olho no contemporâneo. As peças da exposição, inclusive um bordado feito por mulheres à beira da praia em horas de infinito trabalho como também uma pia de banheiro avangardista.

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Seja em entrevista enquanto está ao volante, ou à emissora alemã de TV, Tereza esbanja descolada capacidade de comunicação, fornecendo dados em quantidade de XXL o que ratifica seu imenso conhecimento e experiência como Curadora Internacional de Artes Plásticas.

FL: Quando você inciou o trabalho de curadoria de artes plásticas, o Brasil era, de perspectiva europeia, culturalmente mais longe do que hoje. Quando foi que os alemães começaram a ver o Brasil de uma forma menos estereotipada. Quando houve a mudança de paradigma?

TA: No caráter das artes plásticas, nunca houve um abismo tão grande, pois a Bienal de São Paulo fundada em 1951 já havia criado um elo entre a cultura brasileira e a internacional, principalmente com a cultura alemã. A Alemanha participou da Bienal de São Paulo desde a primeira edição. Sempre houve um certo intercâmbio. Com o fatos de curadores alemães e artistas alemães iam para o Brasil a partir da década de ’50 já iniciou um diálogo ali no contexto brasileiro. Isso fez com que tivessem vários movimentos contínuos de repercussão da arte brasileira aqui. Eu me recordo que 1988 houve um série de exposições de 7 galerias em Berlim do lado ocidental, organizadas pelo Kunsthalle (Galpão de Arte) de Berlim em parceria com o Instituto Cultural Brasil-Alemanha da época, expondo arte contemporânea brasileira O ex-diretor da Kunsthalle na época, era um cara de muita visão. Ele iniciou, na sequência, com alguns parceiros, um programa de Workshop em João Pessoa. Artistas alemães do leste e do oeste seguiram para o Brasil e ficaram trabalhando com artistas brasileiros de vários estados durante o período de um mês em 1992. Eu voltei ao Brasil, pela primeira vez, neste contexto, já acompanhando o grupo de artistas alemães. Neste momento houve uma interlocução forte e isso aconteceu várias vezes depois.

FL: Você consegue se você se lembrar de um momento marca te do teu início em Berlim?

Eu acho que você o todo. Imagina uma cidade vibrante, em pleno verão (Europa no verão é diferente do inverno) na Berlim entre Muros ainda, no singular, fechada por si, fechada pelas fronteiras, mas de uma dinâmica interna muito, muito forte. Ainda estava na fase da reconstrução da Alemanha. Foi nessa época que gerou o prédio desenhado por Oscar Niemeyer no bairro de Hansaviertel” (vizinho da área verde Tiergarten). 1987 Berlim, fechada por si comemorando o seus 750 anos, mas um aniversário que tinha o gosto amargo já que o Muro estava ali tão presente.

FL: Como você viveu a queda do Muro de Berlim?

Com a queda do Muro houve uma avalanche, um tsunami de arte do lado Oriental invadindo toda a Alemanha e toda a Europa. Eu me lembro da exposição ART Cologne (noroeste do pais) em 1990. Lá já haviam galerias do leste sendo representadas. Já os artistas ocidentais, até então bem representados, tiveram que dividir o bolo. Alguns deles perderam o solo e não conseguiram mais se recuperar. Era também uma questão política, do tipo, “agora chegou a vez deles”, (dos orientais) que estavam, até agora, sem a chance de se promover internacionalmente. Não houve um diálogo sobre os interesses do Oriente e do Ocidente. Foi tudo muito rápido. Os orientais se venderam totalmente e não tinham intenção de talvez manter o que eles tivessem de melhor. Abriram mão de tudo por um capitalismo emergente. Já os cubanos tem uma identidade super forte: (ao contrário dos alemães) ele sabem o que querem alcançar e sabem o que não eles querem perder. Quando o bloco do leste desabou no início dos ano ’90, a Rússia deixou os cubanos desamparados. Na época do “Período Especial” eles não tinham nada! Os cubanos não vão querer se vender facilmente. A Alemanha do Leste, na época, não estava interessada num diálogo. Eles queriam chegar na democracia rapidamente, procuravam o atalho do capitalismo que achavam que seria a solução de todos os problemas.

FL: Como Curadora Brasileira, mas que faz exposições de artes de vários países, como China, Índia, Cuba existem percalços culturais de entendimento no executar desses projetos ou o pós-globalizado já neutralizou tudo isso?

É muito positivo para nós, brasileiros, que viemos de uma cultura miscigenada. Isso nos da um respaldo para dialogar com vários países, no mesmo nível. Tivemos a exposição sobre a Índia 2011/12 no percurso do CCBB de São Paulo, RJ e Brasília. Tivemos 1,2 milhão de visitantes nas 3 cidades. Chegando na Índia nós tivemos uma conversa que não passou pela Europa. Nós conversamos A índia, também é como o Brasil, foi também Colônia. Foi em parte até colônia de Portugal.

FL: E a barreira linguística, não existe?

As barreiras linguísticas são superadas pelos trâmites da Artes Plásticas. Eu viajo muito, mas quando chego em lugares eu faço as mesmas coisa. As vezes penso, que monótono! (risos). A gente vai à busca daquele roteiro específico. Existe um código de comportamento, de diálogo e também de negociação. Essa atuação da Curadoria Internacional é essencial para angariar esses itens.

FL: Como surgiu a ideia de fazer a exposição de Cuba especialmente na cidade de Rostock?

Apresentar uma Mostra de cuba era uma questão emergencial. Cuba está se transformando muito rápido. Rostock é uma cidade do leste, portuária e que recebia todas as mercadorias que vinham de Cuba para a Alemanha Oriental. O próprio Fidel Castro esteve duas vezes em Rostock, uma em visita oficial e uma não oficial. Rostock já passou pelo processo de mudança, de readaptação. Intuímos a tentativa de um diálogo aberto para entender o que está acontecendo em Cuba neste momento. O Kunsthalle, o prédio da exposição, foi construído para sediar uma Bienal dos Países Bálticos, que existiu até 1992. Eu fui convidada como Curadora porque desde 1997 eu colaboro como Curadora convidada e Conselheira da Bienal de Havana. Rostock assim como a própria arquitetura do Kunsthalle ainda mantém os vestígios da Alemanha Oriental.

A exposiçãoKuba Libre” não teve “somente” o aval do Ministério Alemão das Relações Exteriores, na pessoa do Ministro Frank-Walter Steinmeier, mas foi o próprio ministério que, no contexto da abertura política de Cuba pediu orientações à curadora brasileira em como executar a aproximação cultural. Tereza atuou como aconselhadora do ministério no contexto da primeira visita de Steinmeier, depois da retomada histórica da relação diplomática entre Cuba e os EUA. Nesse contexto, ela já expressou a idéia de alinhavar uma exposição. Juntou-se a goiabada com queijo, digo, Eisbein e chucrute. Em recente conversa informal com o Ministor, durante a festa de confraternizacao para a imprensa no pátio do ministério, parabenizei o ministro Steinmeier pela exposição: “Eu considero esse passo importantíssimo na nossa futura relacao cultural com Cuba“, alegou.

O instigante no caminho de muito trabalho e perseveranca da paulista-berlinense é sua independência nas escolhas das parcerias. É como um ator ou atriz que já chegou a um patamar que pode escolher com quais diretores trabalhar. Tereza vai ainda além disso: o outro lado de sua confortável carreira é ter suas próprias idéias e apresentá-las para os parceiros com quais quer trabalhar, garantindo sua soberania sobre o andamento dos seus negócios e projetos. Apesar de uma agenda sempre recheada de viagens e todo o trâmite administrativo que um Curadora Internacional tem, ela, bem na dialética berlinense, nao deixa de se engajar socialmente. Uma vez por semana, Tereza trabalha de voluntária na seleção de roupas doadas e, na sequência, distribuída para refugiados que estão instalados no Aeroporto de Tempelhof, hoje, em parte uma área livrer de lazer e noutra, solo de abrigo para refugiados. O assunto do trabalho com os refugiados surgiu antes do gravador ser ligado. O entusiamo com que Tereza falou da atividade, não deixa duvidas na autenticidade em se solidarizar.

A questão da imigração é por demais complexa. Há sempre o perigo de se ficar pelo caminho e ou se adentrar em sucessivos equívocos culturais, ficando preso no Brasil, mas fisicamente em Berlim.

A ideia do novo tópico do Blog é exatamente a de desvendar e compartilhar os diversos caminhos que levam a Berlim, esses, que podem ser muito tortuosos como equivocados.

Tereza é um exemplo de uma junção feliz, bem alinhavada, resolvida e indubitavelmente de muito sucesso na ponte de duas culturas que não poderiam ser mais antagônicas como também na ponte para outras tantas culturas. Para ela, só o céu é o limite. 

Links relacionados:

http://www.usp.br/espacoaberto/?matéria=exposicao-india-chega-a-sao-paulo

http://www.kunsthallerostock.de/2016/kuba-libre/

www.p-arte-com