Busca da polícia em mesquita e na cena salafista radical não traz clareza sobre o perigo de um ato terrorista

Fátima Lacerda

27 de novembro de 2015 | 09h16

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Na tarde de quinta-feira (26), a polícia berlinense fez buscas na mesquita Seituna, localizada no bairro de Charlottenburg, bairro tradicionalmente habitado por uma classe média alta, de profissionais liberais e artistas e no bairro de Britz, sul de Berlim e em âmbito administrativo, parte do bairro de Neukölln.

Erroneamente fontes de imprensa escrita e de TV divulgaram que a Unidade Especial da Polícia (GSG9, na sigla em alemão) teria protagonizado as duas buscas, o que foi desmentido na sequência pelas agências de notícias. A GS9 esteve atuante somente nas buscas do bairro de Charlottenburg, na Mesquita.

Às 19:15 horário local, a polícia, através do #Hashtag Polizei Berlin no Twitter desmentiu que haveriam sido encontrados “objetos suspeitos” na busca em Britz. Nem nas casas nem mesmo no carro de um dos dois presos, onde a polícia buscava explosivos e armas. A noite na imprensa berlinense bizarra, um verdadeiro bazar turco de notícias que eram desmentidas ou modificadas logo na sequência.

O “Negócio com o Terror” é sempre uma garantia de vários cliques e de aumento de audiência e isso vale também para as emissoras alemães sérias, como o rede ZDF. Não deixando por menos, o programa de sátira política, heute show, zoou com os noticiários da própria emissora, afirmando que „Expertos e analistas sobre o tema terror tem sido tirados do arquivo nesses dias “para comentar mais um programa especial, mais um e mais um“.

O que entretanto procede quanto à busca de quinta-feira e foi confirmado é que os dois homens que foram presos tem respectivamente 28 e 46 anos, um nascido na Síria e outro na Tunísia e constam na polícia como adeptos da cena radical salafista de Berlim, denominada radical por ser considerada “disposta ao uso da violência”. Os números que quantos Salafistas realmente dispostos a se deixar seduzir pelas promessas do chamado Estado Islâmico é impossível realmente saber de fato. Isso somado ao agravante da falta de competência do Ministro do Interior, Thomas de Maizière, com toda a certeza o pior que já ocupou essa pasta em toda a história da Alemanha e que já se mostrou várias vezes, não estar ao nível dos desafios de segurança enfrentados pelo país nesse momento crítico.

A polícia afirma que os dois homens estariam envolvidos no planejamento de um atentado , provavelmente na cidade de Dortmund (noroeste do país) e que explosivos teriam sidos transportados da cidade de Munique para Berlim. Entretanto ainda rege falta de clareza, se o planejamento tem alguma relação com o massacre de Paris da sexta-feira 13.11. ou com o cancelamento recente do jogo amistoso entre Alemanha e Holanda na cidade de Hanover.

O que foi confirmado pela agências no final da noite de quinta-feira (26) é que o Ministério Público abriu inquérito contra os dois suspeitos, que foram apresentados ao juiz, mas que por falta de provas, foram soltos na madrugada de sexta-feira.

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O bairro de Britz é um bairro de solo fértil de igualmente erupções e convulsões sociais e os quais muitos sociólogos e políticos gostam de tomar como exemplo para decretar e ratificar o fracasso da “Sociedade Multicultural”, a popularmente chamada de MultiKulti.

O ex-presidente francês, Nicolas Sarkozy, que em entrevista ao Financial Times também defende essa postura, atribui a Sociedade Multicultural a culpa do ataque que custou a vida de 130 pessoas em Paris quando declara: “A França não é um supermercado, é um buraco. Não existe uma identidade francesa como também não existe uma sociedade multicultural feliz“. Também o apelidado “Rei da Baviera”, Horst Seehofer, não perde a chance de culpar a MultiKulti por todas as mazelas socio-políticas, as pequenas, médias e grandes, mas que tem em comum ir além pequeno horizonte bávaro e da hermeticidade de sua sociedade extremamente elitista.

Desestruturando os rótulos

O bairro de Charlottenburg com sua tradição aristocrata não tem um histórico nem de convulsão nem de erupção social. Entretanto, as buscas também foram realizadas ali. Continua valendo como mencionado num dos meus recentes artigos quando fiz de Lenine, minhas palavras: Ninguém faz ideia de quem vem lá. O Salafista radical pode estar em qualquer lugar.

Em coletiva concedida a correspondentes estrangeiros em Berlim na manhã de hoje (27), Rainer Wendt, chefe do sindicato da polícia em âmbito federal (DPolG, na sigla) criticou que “os estados europeus economizam demais no edificar do aparato policial” e exigiu do governo a contratação de um número maior de policiais. Wendt ainda afirmou que em vários setores faltaria qualificação de unidades especiais contra o terror. É difícil, assim como politicamente impossível, negar um pedido de um sindicalista pela maior criação de empregos quando o argumento é a arma de todas as armas: o “Combate ao terror”. Porém, o sindicato da polícia, cumprindo o seu papel de representar a classe, não deixa de recitar o mesmo verso todas as vezes em que, em alguma passeata ou evento de massa, a estratégia da polícia é criticada pela mídia ou pelos políticos.

A imprensa alemã, como a imprensa de um modo geral, se mostra perdida e atabalhoada na hora de noticiar, analisar e filtrar matérias concernentes ao terrorismo e suas inúmeras possibilidades de desdobramento e a imprensa fala, muitas vezes, em sua função mór: a informação e resultante dela,o esclarecimento. Resta o medo daquilo que não foi dito ou daquilo que foi instrumentalizado num editorial.

No fim das contas, ao invés do esclarecimento, acaba-se semeando ainda mais o medo, que já está em todos nós, mesmo que em Paris ou Berlim os adeptos dos direitos republicanos de ir e vir queiram demonstrar teimosia de não se deixarem tolir. Seja no distrito 18 de Paris ao redor da feira na saída da estação Chateau Rouge da linha 4 ou na espinha dorsal de Berlim em Alexanderplatz: “o medo é uma linha que separa o mundo”.

Berlim amanheceu hoje com o céu cinzento, uma constante no mês de novembro. Quanto a isso, a rotina prossegue. Sextas-feiras é dia de oração nas Mesquitas. Decerto serão as buscas em Charlottenburg e Britz o principal assunto, mesmo sem ter trazido clareza e mesmo que mais de 300 pessoas tenham sido evacuadas de suas casas.Mesmo assim: é melhor prevenir do que remediar. Enquanto isso, Berlim navega na possibilidade de ser alvo de um ataque terrorista. Essa possiblidade pode durar semanas, se cristalizar em um fato real ou se dissolver em especulações, mas o que fica é o medo, que os berlinenses pela sua disciplinia prussiana, seu acirrado e inegociável e imbatível pragmatismo e por ser um povo acostumado com guerras, conseguem disfarçar muito bem.