Cartão vermelho para Merkel e a hora e a vez dos populistas de direita

Fátima Lacerda

05 de setembro de 2016 | 19h24

A segunda-feira (05) amanheceu com ressaca na Alemanha e dessa vez, não é “só” assim percebido pela fração “I don’t like Mondays“.

Mais uma vez, em poucos meses, o país foi confrontado com aquilo que a classe política vem tentando, em formato de teimosia prussiana, em colocar debaixo do tapete.

A sabedoria de Helmut Schmidt

O que o ex-chanceler socialdemocrata tem a ver com isso?  Anos antes de sua morte, o ex-chanceler era convidado constante em convenções de partidos e congressos políticos. O fumante mais notável da Alemanha não cansava de ressaltar o “perigoso desenvolvimento” da direita populista no velho continente.

O fato histórico conseguido pelo partido populista de direita, Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla) em deixar o partido de Merkel pra trás na corrida da bancada mais forte no parlamento regional (a AfD ficou em segundo, atrás dos socialdemocratas, parceiro de Merkel no âmbito do governo federal) na região de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental.

Siggi©DPA

A humilhação

O gostinho da vitória dos populistas de plantão é ter desbancado o CDU, partido de Merkel, exatamente onde a chanceler tem sua casa de veraneio como também sua zona eleitoral, quando vai às urnas em âmbito federal.

Os socialdemocratas que estão com a faca e o queijo na mão para formar o novo governo com provável continuação da coligação com o partido de Merkel, são só alegria!

O chefe do partido em âmbito federal, Sigmar Gabriel, que na Era Schroeder (1998-2005) ocupou a pasta de “Música Pop” e por isso herdou o apelido de “Siggi Pop”, não esconde ambições de jogar tudo no ventilador da chanceler e vir a ser o chefão no sétimo piso da Chancelaria Federal, localizada na espinha dorsal do poder de como chama o jargão, República de Berlim.

“Siggi” espera conseguir tirar capital político da derrota da chanceler. Ele, que já se encontra em campanha, se distancia cada vez mais de Merkel, tentando recriar um perfil que o difere do curso centro-direita de sua atual patroa.

Horst Seehofer, o “Rei da Baviera” e que não perde uma oportunidade em sabotar Merkel e descreditar o governo ao qual ele mesmo pertence, também tenta tirar capital da derrota do partido da chanceler e, mais uma vez, exige “correção na linha da política dos refugiados”, para sublinhar para seus adeptos lá do sul, que ele ainda é “o cara em Berlim”.

As estatísticas de pesquisadores de partidos atestam que a maioria dos votos da AfD são consequência do êxodo da clientela do CDU. Mas quem pensa que o debandar do voto vem somente do partido da chanceler, se engana. Até mesmo do partido esquerdista Die Linke, houve êxodo do eleitorado para aquilo que grande parte da mídia teima em denominar de “Eleitor de protesto”.

Na segunda-feira, o The Day After, a Alemanha se mostra em estado de choque, quando as eleições de Mecklemburgo já se mostrava uma tragédia anunciada. As eleições de Berlim como Cidade-Estado, que serão em 16/09 será o segundo round da AfD. Não é preciso ter bola de cristal. Basta levar a sério os prognósticos e a análise do espectro partidário que sofre, atualmente, uma mudança na Alemanha.

MerkelChinaDPA©DPA

Merkel na China

A chanceler, que na segunda-feira pela manhã ainda se encontrava na cúpula do  G20 na China, fez uma rápida conferência com a direção do partido, em sua habitual reunião de segundas- feiras. Foi o Secretário-Geral do partido, Peter Tauber, que teve o ingrato dever de apresentar à imprensa. Seu discurso foi vazio, morno e recheado de uma tentativa fracassada em analisar o que realmente está acontecendo no país: uma incontestável mudança e deslocação do espectro partidário. Choramingou classificando o resultado como “amargo”.

Nós agora temos que tomar conhecimento que, no momento, muitas pessoas não acreditam em nossas propostas para resolver os problemas, apesar de já termos conseguido bastante, especialmente no número de imigrantes que chegam na Alemanha, no quesito integração além de suporte dos municípios, nós já conseguimos resultados positivos”. Em tom auto-reflexivo, a chanceler acrescentou: “Nós precisamos mostrar que também podemos resolver problemas”, declarou Merkel.  Logo a chanceler, que ficou famosa e obteve credibilidade exatamente pela capacidade de “empresariar crises“, declarou a chanceler, assumindo a responsabilidade pelo fracasso do resultado do seu partido, o pior na história em âmbito regional. Vale lembrar que, na Alemanha  tem estados federados e denominadospelas regiões, as Bundesländer. Ao todo 16.

O polêmico Franz-Josef Strauss, o “Rei da Baviera” no pós-guerra, costumava pregar: “À direita do CSU (o partido bávaro e irmão do CDU) só pode existir a parede”. A AfD encontrou uma brechinha entre o CDU e a parede. Até mesmo a Rosa Luxemburgo dos tempos modernos, Sarah Wagenknecht, vice do partido Die Linke também assegurou sua brechinha oportunista quando pleiteia uma redução do número de entrada de refugiados no país.

Uma rasteira

O que a AfD vem construindo na Alemanha não é de hoje. Porém a arrogância, a vista grossa e junto com a falta de um Plano B para evitar a debandamento dos eleitores, foi protelado o máximo.

A grande parte da classe política tente “carimbar” os eleitores da AfD como “eleitores de protesto” e assim, diminuindo sua forca e potencial enquanto o partido comandado, mais ou menos por Frauke Petry vai correndo por fora, ganhando terreno pela lateral direita. O fato do jornalista Tim Sebastian, atualmente atuando pela Deutsche Welle com o programa “Conflict Zone” ter se descolado até a cidade de Leipzig (leste do país) no início deste ano para entrevistar a rainha do cinismo, Frauke Petry, é somente um dos indícios do considerável aumento de relevância e visibilidade internacional do partido.

Análise honesta

Poucos veículos de comunicacao tem cojones para atestar aos membros da AfD motivo racista. Um dos poucos que ousa o texto claro é Roland Nelles, editor-chefe da área de política do portal Spiegel Online. “Os políticos sempre declaram que é preciso levar a sério as preocupações dos cidadãos, mas eu vejo de outra forma. Os eleitores da AfD usam a crise dos refugiados para sair do armário, ir ao local de voto, fazer sua cruzinha. É preciso falar claramente que os eleitores da AfD são racistas do tipo  “Alemanha para os alemães”, “Estrangeiros não são dignos em estarem conosco”, “Nós somos um povo superior” e isso é uma politica profundamente racista e xenofóbica, declarou Nelles.

Vale lembrar que vários membros da AfD vem de partidos e movimentos de extrema-direita. Decerto que existem diferentes “corredores” dentro do partido que tenta se vender como partido democrático, mas que ao mesmo tempo, fica sempre em cima do muro e não se distancia de tendências extremistas e xenofóbicas dentro e em volta do partido.

É pouco provável que o resultado em Meckelmburgo ameaça a candidatura de Merkel para as eleições gerais em setembro de 2017. A questão agora é se a chanceler irá mudar seu curso que iniciou em agosto de 2015 com a abertura das fronteiras para os refugiados.