A convulsão política e social em Chemnitz e o que Angela Merkel tem a ver com isso

Fátima Lacerda

28 Agosto 2018 | 18h05

©DPA

O que vem acontecendo na cidade de Chemnitz (que na época da Guerra Fria tinha o nome e Cidade Karl-Marx), região da Saxônia, leste do pais é um termômetro para que que o pais se tornou. As associações com os momentos mais tenebrosos da história alemã, são inevitáveis.

Desde o ano passado, o partido nacionalista, patriota, populista de extrema- direita e comprovadamente com grupos ligados à cena neonazista, está representado por 17% da população. Entre seus eleitores estão também membros de todas as camadas e classes sociais que chutaram o pau da barraca no quesito política partidária, especialmente a protagonizada por Merkel. Num futuro próximo, não haverá governo sem a participação da AfD (Alternativa para a Alemanha), um partido que, no início de sua trajetória foi subestimado. Pela classe política e pela mídia.

A Saxônia tem uma triste tradição como solo fértil,para a ideologia marrom. Não “somente” os grupos de extrema-direita são muitos nesta região, mas também a polícia já se mostrou conivente com os grupos extremistas. A repartições do Ministério do Interior assim como o Serviço Secreto regional (LDK, na sigla) já deram varias provas de ineficiência ao longo dos últimos anos.

Recentemente, um repórter da TV aberta ZDF filmava uma passeata de grupos de direita na Saxônia, quando um homem com um chapéu com as cores da bandeira alemã se dirigiu ao cinegrafista e em tom irado e de ordem a ser prontamente cumprida, exigiu que ele desligasse a câmera “Para de me filmar! Isso é crime!”. A resposta do jornalista para ele “seguir andando” não o acalmaram. Ele chamou a policia, que manteve a equipe da TV detida por 45 minutos depois de conferir por duas vezes as carteiras. O cara que não queria ser filmado, ficou famoso no país inteiro e como a imprensa alemã não brinca em serviço, foi descoberto que esse carinha e funcionário da Secretaria de Serviço Secreto no departamento de “delitos econômicos”.

©DPA

Chemnitz e os Haters de Plantão

Durante uma festa popular no sábado, um alemão de 35 anos foi morto e dois gravemente feridos. No domingo (26), neonazistas tocaram o terror nas ruas, enfrentando uma polícia que se mostrava despreparada, caçando imigrantes ou pessoas com aparência “diferente”.

Vídeos diponiveis no Youtube mostram momentos que capitulação da força policial uma fatal falta de um Plano B do governo regional da Saxônnia assim como a letargia do governo de Berlim. No video, pessoas gritam “Essa é a nossa cidade. Fora da nossa cidade” e “Nós somos o povo” (Wir sind das Volk) frase usada pelos alemães orientais em passeatas em 1989. O uso dessa frase em seu imenso caráter indiferenciado, exibe a convulsão de sentimentos, por muitos anos, escondidos nos bares, nas escolas e nas associações de esportes e em grupos fechados do Facebook. No video abaixo, Andrzej Rydzik, porta-voz da polícia da cidade de Chemnitz confessa que a polícia não estava preparada para o número de participantes da passeata.”

Os suspeitos pela morte de Daniel Hillig (35) são um Iraniano (22) e um Sírio (23), já detidos sob os cuidados da promotoria. Mesmo assim, na noite de segunda-feira (27), vários grupos de direita convocaram, pela Internet e foram para o centro da cidade Também grupos de esquerda e ONG’s convocaram seus aliados nas redes sociais para passeatas. Também desta vez, a polícia fracasou. Contava com centenas de pessoas e se viu confrontada com milhares.

A polícia, que havia pedido reforços de outras regiões não conseguiu manter a ordem, ou ao mínimo, obter sucesso em separar os dois grupos. Com uma retórica vazia, foi alegada “uma estratégica confrontativa”, estipulada em não interferir em todos os conflitos. Porem, as imagens de vídeos veiculadas também nas redes sociais mostram que os estre istas e neonazistas não foram para as ruas para para exercer o luto por Daniel. Desde o fim da tarde, antes do inicio das passeatas, o clima era de ódio e confrontação, alegou em video, a repórter do portal Spiegel Online. Amigos dele publicam Postings no Facebook, apelando para que seja feito o luto em homenagem a ele, mas que ele luto não seja capitalizado pelos neonazistas.

Merkel

O cenário em Chemnitz relembra as convulsões sociais e politicas do início dos anos 90′ quando a Alemanha, recém-unificada, procurava sua nova identidade. Os dias de terror nas cidades de Hoyerswerda e no bairro de Lichtenhagen na cidade de Rostock ainda são feridas nãocicatrizadas na memoria politica do pais. Em Lichtenhagen, neonazistas, literalmente sob os aplausos de “cidadãos do bem” por fazerem “justiça”, aterrorizaram o país durante três dias, incendiando abrigos de imigrantes e refugiados e colocando o então governo frente ao seu maior desafio em âmbito social e politico depois da Unificação.

Na época, a maioria de moradores dos abrigos era do Vietnã, Angola e Moçambique, países-parceiros da antiga Alemanha Oriental. Na época, Ângela Merkel era ministra da pasta da família no gabinete de Helmut Kohl. Em conversa com “cidadãos irritados” na época, Merkel mostrou todo o seu despreparo e sua superficialidade em percepção politica. Ela pergunta ao extremista de direita:” Se um vietnamês viesse tomar uma cerveja aqui, como seria?”. ”Eu não deixaria isso acontecer. Gentilmente, eu iria fazê-lo entender que ele não pode fazer isso aqui”.

Merkel:” Eu acho triste que, hoje em dia, jovens quando querem aparecer na TV, atiram pedras”. A resposta, intelectualmente de alto nível, diz “É preciso que pedras voem para que uma ministra apareça por aqui”. Merkel fica sem palavras.

Hoje, como chanceler e sendo o retrato da letargia, retrato esse ratificado pelo seu gabinete que tem um “Ministro da Pátria”, seu arquirrival, Merkel é uma das responsáveis pela chamada pelo distanciamento da política por parte dos eleitores, muitos deles se sentem “esquecidos” e optam pelo “voto protesto”. A outra ala é de alemães que já não comparecem nas urnas há muito tempo e, organizados em grupos se veem cada vez mais ousados em quebrar tabus de comportamento. Grande parte desse desenvolvimento se deve ao partido AfD, que não perder uma chance em instigar o ódio até que ele saia das salas de reuniões e vá para as ruas, como se vê nesses dias na cidade de Chemnitz.

O desgaste do governo de Merkel, que está no cargo desde 2015, e gritante e só a chanceler não vê. Vista grossa e uma de suas especialidades.

O ministro-presidente da Saxônia, Michael Kretschmar, do mesmo partido de Merkel, o CDU, vem se mostrando, via Twitter, se mostrando incapaz no quesito “administração de crises. Em comunicados e quites ele condena a atitude dos neonazistas em “instrumentalizar” a morte do alemão Daniel, para destilar seu ódio contra imigrantes. Ele também exige que “cidadãos da Saxônia protejam estrangeiros e refugiados”. O apelo e da boca para fora. O governo da Saxônia, seus órgãos oficiais falam um outro idioma. O da conivência. Ate agora, Berlim fez vista grossa, no melhor estilo merkeliano, e quanto o clima de ódio no pais fica cada vez mais visível, mais presente, mais sentido. Nas estações de metrô, nas ciclovias, nas filas do supermercado, dentro dos ônibus. Tudo é motivo para conflito.