Chico César na capital e o Brasil é logo ali

Fátima Lacerda

21 de janeiro de 2015 | 11h14

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Uma terça-feira dessas de quando o inverno faz você querer pegar o primeiro avião e sair batido para algum lugar onde haja a luz do sol. Escuridão a partir das 16 horas, asfalto molhado, de vez em quando flocos de neve se misturando com gotas de chuva. A roupa que se veste é sempre errada. Berlim tem duas caras que não poderiam ser mais antagônicas: a do verão e a do inverno.

O Lido é um clube que suscita um terreno praiano, mediterrâneo o que em Berlim, apesar do Rio Spree que atravessa a cidade, é bem relativo.Mesmo que eu como carioca da gema esteja sempre à procura do mar.

Nos confins do bairro de Kreuzberg, multiétnico e pela vida noturna com grandes similaridades com as noites do baixo Leblon, rolou o show do artista brasuca. Nesse mesmo lugar, a cantora Céu já marcou presença várias vezes. Lido. Um oásis cultural e no meio do caos urbano no bairro que, durante os 28 anos da cortina de ferro, era a “estação final” da parte ocidental de Berlim.  Logo ali atrás, já estava o lado comunista.

Tem dias que você quer pegar o primeiro avião e dizer Auf Wiedersehen a Berlim. A noite de terça-feira (20) foi uma dessas: Fria, escura, um asfalto molhado e escorregadio, que transforma o andar de bicicleta numa aventura.

Exatamente para uma noite pouco convidativa para sair de casa, estava agendado o show de Chico Cesar. Mesmo que da minha perspectiva bairrista, de Kreuzberg 61, como não ir a parte 36, minha ex-vizinhança e hoje um polo de turistas, de multinacionais da área de música e um lugar onde a multiculturalidade de Berlim é pulsante, autêntico, à flor da pele.

Na porta do clube, pouca gente. Uns rapazes distribuíam panfletos da festa de carnaval do próximo dia 14. “Não poderei ir. Essa é a noite de encerramento da Berlinale”. “Nós vamos estar lá até o início da manhã. Tenho certeza que você vai conseguir aparecer”, garantiu ele, não se dando por rogado.

O local não estava lotado. A diversidade do público ratifica a linha do “Lido” e estava totalmente em harmonia com a dialética kreuzbergiana. Brasileiros, fãs da música brasuca, alemães que esbanjavam o domínio da língua portuguesa cantando junto e os que não arreglavam os olhos frente à tanta sinergia entre artista e público noo formato de uma oração.

Quase pontualmente, Chico Cesar entrou no palco e se apresentou com um quarteto entrosadíssimo. O baterista e o baixista são professores da Escola de Música da Faculdade da Paraíba. O tecladista toca também sanfona. No mais tardar ao soar da mesma, todo o inverno lá fora se tornara algo bem mais distante do que o Brasil. De quebra, teve uma versão bilingue de “Á primeira vista” com cantora Dota Kehr, que contou em alemão, que ouviu a música pela primeira vez dentro de um ônibus em viagem pelo Equador. “Eu quis saber de quem era essa música, comprei o disco e isso me levou a começar a tocar violão”, arrancando gritos de delírio da platéia, frente tal sinergia cultural.

Na versão alemã de uma das mais singelas músicas da MPB, Dota conseguiu o perfeito transporte linguístico e semântico da ternura e da elegante simplicidade, vertentes dessa composição. Em dueto com a jovem cantora, em versão alongada da música, Chico Cesar era só orgulho. No meio de uma estrofe e outra “Wunderbar!“, ele bradava.

Dota, vulgo “Die Kleingeldprinzessin” (A princesa dos trocados) abriu o show com repertório politicamente corretíssimo: “Eu quero ter um passaporte que seja carimbado com a expressão “seres terrestres”, dizia o texto da música final do show de abertura.

Eu voltei!

“Eu estou de volta!”,  anunciou logo de início, usando um alemão respeitável. No decorrer do show, ele soltou mais e não deixou qualquer dúvida que já é um rotineiro com a oitava performance na capital.

Quando ecoou “Mama África”, músicas em homenagem a Mandela, Marley, Chico Science e Dominguinhos, aflorou a brasilidade na plateia. Teve Forró, Xaxado, Reggae. No final do show , que teve 2 bis, Chico de mãos dadas com os músicos, ensaiou uma daquelas coreografias de dança popular. Prontamente a plateia se juntava e tudo virava um bolo humano. Sorrisos, daquele tipo de quem está triturando a saudade, se espelhavam pelo local causando um ar de inusitada euforia.

Glasgow, Berlim, Liubliana (capital da Eslovênia) e a cidade de Karlsruhe (sul da Alemanha) e tambem Paris (27.01.) são as estações da turnê na Europa.

Depois de um chá de cadeira em frente ao camarim, fomos levados a Chico, que se mostrou solícito e imediatamente topou falar exclusivo com o Blog.

Chico César trouxe para Berlim, além da delícia musical, afeto, calor humano e de quebra, ratificou que da perspectiva berlinense, o Brasil é logo ali.

FL: Você arrasou no alemão. De onde vem essa naturalidade com a língua?

CS: Eu falo um pouquinho de alemão porque eu tenho muitos amigos da Alemanha. Eu gosto muito de poder falar com as pessoas, na língua delas, dizer coisas afetuosas “Bom dia”, “Boa tarde”, “Como vai” e isso desde que que vim ao país pela primeira vez.

FL: Que foi quando?

CS: Em 1982. Eu fui muito bem tratado pelos alemães. Eles carregaram as minhas malas, me indicaram o caminho. É uma coisa muito especial pra mim, ser amigo dos alemães. Eu sei que há uma imagem nem sempre boa dos alemães, como se fossem um povo frio, mas comigo, eles não foram.

No palco você mandou a frase com grande ênfase: “Eu estou de volta!” Tem algum significado especial?

Há quase 8 anos eu não voltava na Alemanha. Durante 6 anos eu fiquei trabalhando como gestor de cultura na Paraíba. Eu agora me sinto um homem livre pra poder experimentar através da arte, a minha afetividade, o meu jeito de ver o mundo. Estou de volta!

Nessa situação em que a Europa se encontra, de uma guerra ética, religiosa, procurando a sua identidade, você acha que a música é mesmo a linguagem universal e capaz de transpor pontes?

Eu acho que não há uma guerra. Ontem, eu toquei em Glasgow, na Escócia. Há um sentimento muito profundo de fraternidade das pessoas do mundo. Elas estão além das religiões, da geografia. Eu fui muito bem tratado no aeroporto de Londres, de Glasgow, de Berlim.

O que recentemente aconteceu em PARIS foi resultante de um conflito religioso…

É algo menor. A humanidade é maior. Em Paris foi um grupo radical que se posiciooua contra uma caricatura. Desde que venho na Europa, como em 1981 e 1982, eu percebo que há um desejo grande das pessoas em se envolverem com as outras. Não é geopolítica, é geo afetividade. As pessoas querem amar. Eu fiquei muito feliz, já que eu mesmo vim com um espírito “ah, vai ser tudo muito difícil”.

Ontem Glasgow, hoje Berlim. Existem diferenças quando você está no palco?

O nosso show na Escócia foia a primeira vez. Berlim já é a oitava. É uma espécia de casa. Eu tenho a música “Ale Ale Alemanha” é da mesma época da “Mama África”, ou seja, quando eu pensava a África, eu pensava também a Alemanha. A mãe. O peito generoso. O leite. Algo que alimenta todo mundo. Em Glasgow, fomos recebidos muito carinhosamente, mas aqui (em Berlim) é uma celebração porque todos que estavam aqui, sentem a necessidade de viver num mundo mais igualitário, mais respeitoso.

E qual a sua expectativa do show em Liubliana?

Não sei. Lá há uma iniciativa do pessoal da diplomacia, que quer muito nos receber. Eles pensam que a música brasileira é um importante canal de integração.

Links relacionados:

https://www.youtube.com/watch?v=p7qTM0LnULw

http://www.kleingeldprinzessin.de/

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