Cidade dos cachorros e o meu “exílio de verão”

Fátima Lacerda

28 Junho 2016 | 20h50

Cachoroo_Pro

Eu sou berlinense e ninguém liga”. Por mais proteção animal“. 

O ditado popular ensina: o cão e o melhor amigo do homem. Em Berlim, ele é também o único.

Quando você se notar em solos berlinenses se surpreenderá em ver os quatro patas serem mais bem tratados do que seres humanos. Em cafés e bares, por exemplo, é fácil ver cães sendo recebidos de forma que eu chamo de orgásmico eufórica pelos donos dos estabelecimentos. Isso sinaliza aos outros fregueses, desprovidos de tão preciosa companhia, a preferência pelos donos de cães. Nãos necessariamente porque os donos dos cachorros sejam prata da casa”! Não! O olhar microscópico e experiente para as mazelas berlinenses, sabe muito bem: essa recepção homérica se deve ao recadinho para os humanos: olha, a gente prefere mesmo é o cachorro! Essa atitude esconde, melhor, revela uma postura mais do que pessimista, anti-humanista, desacreditada no ser humano. Frank Zappa declarava não ter nenhuma crença nos homens, na humanidade. O berlinense levou essa premissa ao ápice com a inseparável perfeição prussiana.

Direitos especiais para cachorros

Numa cidade, onde entre dois lares, um deles é habitado por somente uma pessoa, assim confirmam recentes estatísticas veiculadas pelo Senado de Berlim, não parece estranho que um cachorro ou um miau miau ou mesmo um papagaio, como o “Julius” da Karin. Quando ela o mencionava, parecia que falava do marido. Quando eu ligava em momento “inapropriado” ela dizia: “Estou ocupada. Estou dando café pro Julius!” Quando na despedida eu, ironicamente, mandava “lembranças para o Julius” ela vivenciava raro regozigo.

Quem pensa que isso é amor aos bichos, nao foi fundo o suficiente na alma berlinense. É para driblar a solidão, ao mesmo tempo que tenta angariar algum reconhecimento e legitimidade sociaos já que não ter filhos e ou não ter cachorros é estar fora, out. É ser um individualista. Afinal, igualmente como os cachorros ou os celulares ou crianças pequenas são sinônimo de status social, mesmo guardando as devidas proporções entre eles. Quem quiser comprovar essa tese quanto à criancas pequenas como símbolo de reconhecimento social é só ir ao café “Doubled-Eye” um café que oferece deliciosas especialidades do café portugues além de um delicioso pastel de nata por e está localizado na Rua Akazienstraße, no  bairro de Schöneberg. É só ir lá pelas 11 horas da manha, curtir o café e observar o circo social que ali se apresenta. Um circo de vaidades mal resolvidas, assim como o circo protagonizado pelos cachorros que se exibe no meu lado preferido e em tantos outros lagos em Berlim.

Naturistas x cachorros

Existe um lago em Berlim que é tão veiculado à minha própria história e biografia nesta cidade que quase todas as pessoas que amo, que amei e que me visitaram na capital, eu levei lá. Entre elas. Ana Lisa, minha amiga italiana de Gênova, o Moritz, a Creuzette, a Assunta, minha amiga da Escócia, o Luiz, e tantas outras pessoas. Nesse lago, outrora um paraíso para naturistas, nudistas e que persistem em querer ver o nascer ou o por do sol, há 4 anos virou um antro de jovens à procura de aventura, um antro de musica irritante, muita cerveja, muito barulho e acima de tudo, muitos cachorros.

Uma verdadeira batalha judicial se iniciou quando em janeiro de 2015, a prefeitura do bairro de Zehlendorf (sul da cidade), decidiu pela proibição de cachorros, na coleira ou não à beira do lago. Na parte de cima da área verde, os quatro patas ainda poderiam passear, executar suas necessidades, mas a parte de cima não era plataforma suficiente para os donos à procura desesperada de um pouquinho de wow wow, de atenção. Afinal, com quem conversar senão nas inúmeras paradas no parque para o papinho com outros donos de cachorros ou sorrir sem medo de ser feliz quando os bichinhos se entendem ou até mesmo querem aprofundar o contato. Ah, que fofo!

A revolta

A politica de austeridade de Merkel frente Irlanda, Portugal e Grécia não são razoes suficientes para um ato de desobediência cívica, nem para uma revolta. Nein! A proibição de cachorros na beira de um lago, sim. Justifica passeata com os bichinhos comportadinhos na coleira, algo que no dia a dia de quem frequenta o lago, quase inexistente. Afina,l o animal precisa de liberdade, de correr, avançar nas criancinhas, aterrorizar os ciclistas que por ali passam. Em suma: uma questão de liberdade. 

Começou uma verdadeira batalha, também acompanhada pela mídia além das fronteiras berlinenses. A discussão e as alfinetadas recíprocas entre prefeitura e donos de cachorros tinham uma dicotomia, um antagonismo como já visto em debates entre fumantes e não fumantes, vegetarianos e comedores de carne vermelha e adeptos da produção em massa.

Os donos de cachorros se sentiram “discriminados”. Houve passeata, abaixo assinado e o escambau.

O grande dia

Chegara o dia 15 de maio de 2015. Depois de debates, picuinhas e até ameaça de morte Christa Markl-Vito, membro dos Verdes, e membro no parlamento de bairros (que em Berlim tem autonomia)) fez entrar em vigor a proibição. Voltei a frequentar o lago ao qual eu, 3, anos antes, havia virado as costas. Aliás, a maioria dos naturistas! Finalmente era a hora de voltar a tomar posse sem ter que presenciar discussões homéricas entre naturistas e donos de cachorros. Reconquistar o espaço perdido era a novidade do verão 2105, mas acima de tudo não ter mais que “avisar” os donos dos cachorros que o lado norte do lago não permite os 4 patas, nem suas brincadeiras, nem suas enervantes latidas. Mesmo com os contrários à proibição exercitando rebeldia, o numero de cachorros havia diminuído consideravelmente e as esquinas do parque estavam devidamente marcadas. Onde havia um símbolo de cachorro pintado na cor vermelha, era proibido. Um símbolo na cor amarela, permitido, mas só se na coleira. Para as crianças pequenas e seus pais, a nova medida foi um aumento de atratividade do lago e da área verde como um todo.

O focinho berlinense

Na linguagem popular existe uma expressão denominada Berliner Schnauze que, no se tido amplo é a forma intrínseca do berlinense em não se fazer de rogado e reclamar, questionar, mandar o verbo, não se conformar. Nesse caso, o ditado foi acoplado a tradução literal que remete cachorros. Pois bem. Uma associação assim denominada, recorreu aos tribunais para revogar a implementação da prefeitura do bairro de Zehlendorf (sul de Berlim) e saiu vitoriosa. Em dezembro de 2015 foi revogada a proibição.

Sem preparo e assistência jurídica eficientes, a prefeitura suavizou a proibição reduzindo-a ao período entre 15 de abril e 15 de outubro, algo com efeito de cobertor de pobre já que não se precisaria de bola de cristal para saber que naquele momento, o muro havia caído, havia sido criado um caso de precedência resultando num vento favorável para os melhores amigos do homem. No início de abril, através de um mandado de segurança de um dono de cachorro, o juiz revogou por completo a proibição de passear com cachorro à beira do lago, ou seja, fez voltar a estaca zero.  O único aspecto que restou no âmbito do bom senso foi a obrigatoriedade de levar o 4 patas na coleira que deve ter o cumprimento de, no máximo, 2 metros. Quem ficou com a cara no chão foi Christa Markl-Vito dos Verdes. Ela tentou justificar a proibição em juízo, alegando que o comprometimento da qualidade da água do lago causada pelas fezes dos cachorros na água. O lago Grunewald, rodeado por uma floresta e não muito longe dali é especialmente para cachorros, já que a qualidade da água ficou tão comprometida, que o número extremo de bactérias tornou impossível ser usado para lazer para pessoas. Porém, os donos dos cachorros já não gostam de usar esse lago. Ele perdeu a atratividade exatamente pela sujeira causada pelos próprios 4 patas. Então o foco maior não é poder passear livremente com o seu melhor amigo, mas manter um circo social a todo o custo, defender o terreno conquistado e isso ao custo da qualidade da água, da tranquilidade de amantes da natureza e segurança de crianças pequenas e ciclistas.

Como o focinho berlinense não brinca em serviço, afinal, passear com os 4 patas na beira do lago incluindo o sacudir dos pelos depois de nadar faz parte de um direito de “cidadão” para o qual vale a pena percorrer todas as instâncias judiciais, como se o aparato judiciário de Berlim já não estive abarrotado de processos bem mais urgentes.

Moral da história: o meu lago preferido, nesses exatos dias de temperaturas por volta dos 35 graus, voltou a ser de domínio dos cachorros. Tudo pela cidadania! Tudo pelos direitos “humanos”! Tudo pela liberdade dos cachorros que são instrumentalizados pelos donos à procura de reconhecimento social. Parece surreal? Sim. Mas isso é Berlim!

Os solitários poderão voltar a exercer a cidadania de andar na beira do lago, já que falamos de uma questão de princípios e isso é tão intrínseco na forma de ver o mundo do berlinense como o degustar da cerveja e a salsicha de molho curry.

Neste verão, os amantes da natureza estarão procurando tranquilidade, digo, exílio em outros lagos menos paradisíacos e outros fora da cidade de Berlim, cidade dos cachorros.