Cientista de Santa Catarina empolga o júri do Fórum Internacional de Sustentablidade “Green Talents”em Berlim

Fátima Lacerda

28 Outubro 2017 | 18h19

 

Enquanto no Brasil, o presidente da Academia de Ciência e Tecnologia, Luiz Davidovich faz severas críticas ao governo federal pelo corte do orçamento anual para a ciência (de 5,8 bilhões para 3,2 bilhões de reais), em Berlim, o Ministério de Ciência e Tecnologia (Ministerium für Forschung und Technologie) mantém o foco no futuro da sustentabilidade, num desafio global.

Durante 2 semanas, 25 jovens cientistas foram selecionados para o Forum Internacional “Green Talents” financiado pelo governo federal alemão. Entre 602 inscrições provenientes de 95 países, entre eles a Suécia, Uganda, Egito, Iraque e Eslováquia como marinheiros de primeira viagem, 25 cientistas de 21 países, foram selecionadas e selecionados para passar duas semanas na Alemanha visitando, em várias cidades e organizações com foco no desenvolvimento sustentável. Um jantar para confraternizar com gastronomia tradicional da Baviera em Munique não poderia faltar, é o que revelou um slide projetado no telão ao longo da cerimônia de premiação.

A viagem dos cientistas por várias cidades também serviu para contato com instituições que poderão ter os selecionados durante 3 meses com uma bolsa de “Cientista convidado”, para aprofundamento da pesquisa e angariação de Know-How. A segunda-parte do projeto também será financiada pelo Ministério Alemão da Ciência e Tecnologia, assim me garantiu uma representante da agência externa que organizou o evento.

Entre os selecionados do simpaticíssimo grupo composto de muitas cientistas mulheres provenientes da Indonésia, China, Austrália, EUA e Quênia, estava Kamila Pope (33), brasileira de Santa Catarina mestrada em Direito Ambiental e atualmente cursando o doutorado na Universidade de Santa Catarina com a tese sobre a obsolência industrial (redução intencional de qualidade de produtos reduzindo sua duração) sob um prisma político e jurídico.

Durante a cerimônia de entrega dos prêmios, a sonoplastia, em forma de trilha sonora tentando chegar junto ao Feeling do país que estava sendo premiado (com mais ou menos propriedade), desestruturou o clima rígido de toda a entrega de prêmios, ainda mais se esta conta com a presença de políticos de alto escalão. Entre sons indianos, africanos e até de Michael Jackson pleiteando um mundo melhor “For you and for me” ou um tema instrumental para a cientista do Nepal, a plateia se deliciava, decerto também pelo fim da jornada eletrizante para as/os cientistas e as perspectivas de um futuro próximo. Não houve como não especular se, ao ser mencionado o nome de Kamila, haveria o som de alguma Bossa Nova, o que para a minha surpresa, não aconteceu.

O futuro é aqui e agora

A política de incentivar jovens cientistas do mundo todo tem, na complexa contemporaneidade, um significado ainda mais importante dos que em décadas anteriores: do lado alemão, o de combater a causa de imigração. A sustentabilidade gera empregos e qualidade de vida. Cientistas da Rússia, do Irã, dos EUA e do Iraque sentados na mesa e concordando sobre medidas necessárias a serem tomadas para ontem é só um dos aspectos inusitados como de bem-vinda perspectiva desse evento.

Na manhã de sexta-feira (27), no Prédio do Ministério de Ciência e Tecnologia, à beira do Rio Spree com uma vista privilegiada para a Chancelaria Federal, os 25 selecionados para o Fórum Internacional receberam seus prêmios. Na plateia, presentes alguns Chefes de Estado e alguns embaixadores dos países selecionados. O Brasil no estava representado pelo Itamaraty, mas excelentemente bem representado por Kamila Pope, simpaticíssima, como pude constatar, muito querida pelo grupo. Depois da premiação, e antes do almoço oferecido aos convidados, a cientista catarinense conversou exclusivo com o Blog:

FL: De 602 inscrições para o Fórum Internacional do Ministério da Ciência e Tecnologia, foram escolhidos 25 jovens cientistas de ao todo 22 países. Como você se sentiu quando recebeu a notícia?

KP: Eu me senti muito privilegiada. Existem tantas pessoas com tanto potencial no mundo afora! Ás vezes, fazer pesquisa no Brasil, não é algo fácil. A gente encontra dificuldades diárias no financiamento, na estrutura e tudo mais. Vindo dessa realidade, quando você consegue ter um reconhecimento internacional do seu trabalho, é algo muito gratificante! Me senti também muito feliz de poder trazer um pouco do que a gente está fazendo no Brasil para um contexto internacional, uma pesquisa que está sendo feita no Sul (do Brasil). A gente vê na pesquisa e na ciência um foco muito grande no que tem sido feito na Europa e nos EUA, países considerados como desenvolvidos. Então, quando a gente tem uma pesquisa vindo de um país em desenvolvimento sendo ouvida e reconhecida é algo muito gratificante.

Você tem a possibilidade de voltar à Alemanha no ano que vem. Você já escolheu onde aprofundará a sua pesquisa?

A gente visitou vários institutos de pesquisa e universidades. Eles todos são muito atraentes em termos de estrutura e de uma abordagem transdisciplinar. É até difícil de dizer qual seria o ideal. Na primeira semana tivermos visitas gerais. Na segunda semana tivemos encontros individuais com alguns especialistas nas nossas áreas. Na cidade de Bonn, eu tive ótimos encontros em encontros de pesquisa. Tem uns locais que tomei como prioridade, mas as conversas precisam ser aprofundadas, eu preciso discutir com eles, também preciso ser aceita. Tem toda a questão burocrática que precisa ser resolvida.

Qual a sua impressão sobre Berlim sob o prisma de sustentabilidade?

A gente vê muitas iniciativas de empresas e de lojas. Eu trabalho muito com direcionamento de resídios. Aqui em Berlim vemos as máquinas que coletam as garrafas e toda a estrutura que eles tem de recolher os resíduos de forma bem separada já com a consciência dos consumidores. Se eu pudesse estar em Berlim com “Cientista Convidada” eu ficaria também muito feliz. (risos)

Qual é exatamente o projeto que você realiza na Faculdade de Santa Catarina?

Na minha tese de mestrado, eu trabalhei com o tema da obsolência planejada que é uma estratégia inserida do nosso modelo econômico para fazer que os produtos se tornem obsoletos prematuramente. São estratégias que são desenvolvidas para que nós, consumidores, aumentemos o ritmo do nosso consumo, que a gente descarte os nosso produtos com velocidade cada vez maior para manter a nossa economia em constante crescimento. Existe um consenso que essa é uma prática insustentável. Então na minha pesquisa, eu tentei identificar essa prática suas razoes sociológicas, históricas, econômicas e por fim eu tentei buscar alguns marcos teóricos dentro do direito da economia que pudesse nos ajudar a superar essa prática. Agora (fazendo o Doutorado) eu trabalho com a questão dos resíduos e pesquiso sobre qual seria a melhor forma de regular um produto durante todo o seu ciclo de vida. Dessa forma, a gente consegue abarcar a questão do desenvolvimento desse produto. Qual o material que se vai usar, quanto tempo ele irá durar, que Design ele irá ter até o momento final em que se esse produto irá se tornar um resíduo assim como as formas de reintroduzir esse material num ciclo produtivo. O meu doutorado é de um ponto de vista mais amplo, macroscópico desse problema.

Como você vê a perspectiva ambiental no Brasil?

Em termos legislativos, o Brasil é conhecido como um país progressista em assuntos ambientes. Infelizmente, nos últimos anos, a gente tem acompanhado uma regressão das nossas políticas públicas ambientais para atender diferentes interesses econômicos envolvendo setor rural entre outros, que tem exercido grande pressão na nossa legislação ambiental. O tema de produção e consumo sustentáveis é algo muito desafiador, até mesmo para países considerados desenvolvidos economicamente. Para o Brasil, eu vejo isso como ainda mais desafiador. Temos os problemas econômicos, os de corrupção que temos enfrentado recentemente. É muito complicado esperar resultados imediatos. A nossa economia global ainda é baseada na ideia de crescimento . Enquanto a gente não questionar essa ideia que, em termos biológicos e físicos é uma ficção, a gente dificilmente irá conseguir alcançar uma produção sustentável.

Luiz Davidovich, presidente da ABC, criticou severamente a diminuição do orçamento anual para Ciência e Tecnologia. Ele declarou que os cientistas se mostraram “horrorizados” com essa medida. Como você ve esse desenvolvimento concernente às verbas para a ciência e tecnologia?

Quando eu comecei a minha faculdade em Santa Catarina em 2003, faltava até papel higiênico. Sob o governo Lula a infraestrutura melhorou consideravelmente. O momento agora é muito assustador. Espero que em breve, consigamos mudar essa situação, seja nas próximas eleições ou com a renúncia do atual presidente.

A meticulosa escolha dos 25 premiados do Fórum “Green Talents” foi feliz na representatividade geográfica, social e de gênero. Houve um saudável balanço entre a participação de homens e mulheres. A brasileira Kamila, que ao ser perguntada por mim se tem descendência alemã devido ao nome com “K”, respondeu: “Isso foi a criatividade da minha Mãe“. Quando fui mais além, perguntando se o seu nome leva dois Ls (tipo Kamilla), ao anotar seu contato eletrônico para o envio do link do artigo, sem pestanejar, ela respondeu esbanjando em bom humor: “A criatividade da minha Mãe parou no K“..

Superconectada com o grupo e, pelo que pude ver durante a manha de sexta-feira, muito querida também, Kamila, além de elegantérima vestindo uma calça vermelho de cintura alta, a catarinense convenceu o juri do “Green Talents” por sua competência e visão diferenciada em seu foco de pesquisa.

No site do Fórum Internacional, a nota publicada sobre Kamila, não deixa dúvidas na justificativa pela escolha da cientista.

O júri ficou impressionado com a nova perspectiva de sustentabilidade de Kamila e a vontade de ir além de um ambientalismo tradicional para encontrar soluções para o subestimado tópico de obsolência planejada“.

Links relacionados:

http://www.greentalents.de/kamila-pope.php

http://www.greentalents.de/

http://ufsc.br/