Cinema à beira do Rio Spree : 130 anos de história e um brinde à democracia

Fátima Lacerda

07 de julho de 2016 | 04h56

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Outrora à beira do rio que atravessa o centro de Berlim, atrás do prédio do Reichstag, teto do qual foi ocupado pelos russos quando tomaram Berlim em 1945 com provavelmente o maior símbolo da derrota da Alemanha nazista, havia a fronteira entre duas cidades separadas por ideologias intransponíveis como a  travessia de um lado para o outro do Rio Spree. Um lado era o ocidental, o do lado do Reichstag. O outro, o oriental, terreno baldido com soldados do exército popular, os chamados Volkspolizisten (Vopos, na linguagem popular) armados até os dentes. Ali se mostrava a ferida aberta pelo muro, construído para durar “100 anos”. Foi exatamente esse lugar o primeiro que eu, em 1988, com a turma da escola visitei e tomei conhecimento em âmbito do espaço físico de que o solo que acabara de pisar, era dividido de forma trágica.

Hoje, essa mesma beirada do Rio Spree outrora lugar de ameaças iminentes, consternação, cenas dramáticas de fuga pela água é hoje, depois da Unificação dos dois estados alemães, um lugar para celebrar a democracia, a constituição e o parlamentarismo.

Para ratificar o simbolismo dessa lugar e conscientizar berlinenses e visitantes sobre a sobre o andar da carruagem da democracia o filme conta a história de 130 anos, o significado e o desenvolvimento do parlamentarismo que se deu dentro do prédio que desde 1999 no contexto da mudança da capital de Bonn para Berlim, abriga a câmara baixa do parlamento alemão, o Bundestag.

Sir Norman Foster, o arquiteto condecorado pela Rainha Elizabeth II concebeu a modernização do Reichstag. A cúpula de vidro deveria instigar e sugerir a transparência da democracia alemã. Pouco antes do início da reforma, em 1995, o Grupo Olodum fez show histórico no jardim no Reichstag durante o verão berlinense, que coincidiu com o “empacotamento” do prédio pelo artista americano e descendente de búlgaros, Christo (Vladimirov Javacheff) e sua esposa, Jeanne-Claude.

O prédio, sua história, sua simbologia ao longos dos anos, seu terraço com uma vista do coração de Berlim de tirar o fôlego são alguns dos aspectos que tem efeito magnético em pessoas do mundo inteiro. Vindo a Berlim, não faça como os grupos de japoneses que ficam só nos Selfies em frente ao prédio. Encare a fila, se registre, passe o pente fino no prédio, curta o café no terraço e a vista que deixa Berlim a seus pés.

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Depois do Brexit, analistas políticos são unânimes na opinião que a Alemanha terá um papel ainda mais importante na Europa Central. Sem falar no Plano B d de Merkel para o pós-Brexit, plano esse no qual ela não deixa qualquer dúvida que irá executar. A aprovação dos restantes 27 membros para o Plano B da chanceler é só uma questão de tempo. Também no âmbito europeu, não há alternativa para a habilidade brilhante ao mesmo tempo que comedida no “empresariar de crises”: nem seu amigo Jean-Claude Juncker e ainda muito menos Martin Schulz, um erro cabal no cargo em que ocupa e que o mantém por estar ciente de não ter nenhuma chance a nenhum outro cargo no âmbito interno da política alemã (nem mesmo de tesoureiro no partido SPD)  tal o percentual que de antipatia que obtém por parte dos eleitores.

“Ao povo alemão”

Marie-Elisabeth-Lueders-Haus-1005897Lichter©Bundestag

Dem Deutschen Volke” é a escrita na fachada de frente do Reichstag. Assim também é denominada a projeção que dura 30 minutos e inicia, diariamente, ao anoitecer com duas projeções por noite. A estreia foi em 03 de julho e a última projeção do ano, coerente com a simbologia e justificativa político-cultural, acontece em 03 de outubro, dia que se comemora os 26 anos da Unificação dos 2 Estados Alemães.

A superfície principal de projeção de imagens e luzes é o prédio que tem a assinatura do arquiteto Stephan Braunfels, o Marie-Elisabeth-Lüders-Haus, o terceiro edifício que completa o chamado “Bund des Bundes” (Laço federal, em tradução ao pé da letra).

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O “complexo parlamentar” é formado pelo prédio do Reichstag, do Paul-Löbe Haus e Marie-Elisabeth-Lüders-Haus. Nesses dois últimos, estão localizados os escritórios dos parlamentares, assim como salas de conferência e de comissões de inquérito. A projeção de luzes acontece também nas escadas e nas paredes vizinhas ao Marie-Elisabeth-Lüders-Haus, esse que foi construído exatamente da linha do Muro, parte “das costas”, a que dava para Berlim Oriental.

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Marie-Elisabeth Lüders (1878-1966) foi uma das maiores personalidades no âmbito da política de cunho social como também representante-chave do movimento feminista da Alemanha, teimosa guerreira pela causa das mulheres num período onde esse discurso era uma raridade. Em 1969 o correio alemão a eternizou com uma edição de selos.

Além do foco temático do filme que abrange 130 de história, ele ressalta e valoriza o significado da democracia parlamentar regente na Alemanha desde 1949. O filme tem tom original em alemão com legendas em inglês.

Nem mesmo o jogo entre o País de Gales e Portugal de CR7 foi motivo para que a projeção ficasse vazia. Um grupo considerável de pessoas se encontrava ali nas escadas à beira do Rio Spree na noite de quarta-feira (06) sob o céu aberto de uma noite de verão com céu de brigadeiro e para berlinense nenhum botar defeito.Para arredondar, o filme termina com o Norbert Lammert, presidente do parlamento no fim de uma sessão dizendo: “Eu lhes desejo um bom dia e, se possível, que ele seja tranquilo“, fechando com um sorriso cuidadosamente otimista.