Cinema e Política: como é imprescindível saber a melhor hora de sair de cena

Fátima Lacerda

10 de dezembro de 2018 | 08h13

 

Esse ano de 2018 ficará marcado por inúmeros acontecimentos que remetem à visão delineada no livro “1984” um romance distópico de autoria de George Orwell. Da linha acima e da linha abaixo do Equador aconteceram coisas mirabolantes, surreais, irreais, trágicas, porém algumas delas, Self-Made. Um ditado em alemão ensina: “Você é o arquiteto da sua própria felicidade“. Tal a dureza dessa frase que instiga a responsabilidade pelo próprio destino, tal a verdade que nela se enrosca. Quem não conhece a situação de um relacionamento que anda mostrando várias falhas irrecuperáveis ou mesmo no âmbito de trabalho quando você acorda todos os dias e mentaliza, vai melhorar, vai melhorar, quando a realidade diária é bem outra. “São tantas coisinhas miúdas arrasando aos poucos o nosso ideal. O momento em que o copo está cheio e não da mais pra engolir.

As coisas mudam de forma vertiginosa e, sim, como é difícil arregaçar as mangas se banhar de coragem para, sem pensar no que virá depois, não perder a hora de sair como soa aquela música do Francis Hime. O Brasil mudou vertiginosamente nos últimos meses, com ele, maneiras de ser lidar com o outro, um escorrego no foco das prioridades, preferências e objetivos numa dinâmica muito mais avassaladora do que na Europa que, por vezes, parece mais um oásis de tranquilidade, quando o olhar se desloca para a Américas.

Política

É bem coerente com o seu estilo de perceber política que Angela Merkel fez questão de encenar sua saída, mas não sem nomear a sua protegida com o nome impronunciável e com o qual a imprensa internacional está tentando de familiarizar. Merkel preparou o cenário para garantir uma certa tranquilidade nos 3 anos de governo que ainda a restam, antes que ela se aposente da vida política e possa curtir os inúmeros lagos maravilhosos da Região da Pomerânia Ocidental, Mar Báltico onde ela tem sua residência de verão. Um dos legados a ser deixado por ela será, decerto, que as meninas alemães saberão que além de poderem ser empresárias, professoras, astronautas, reporteres esportivas, sabem que não nasceram (somente) para serem mães, e que ser bela, recatada e do lar não serve como referencia para legitimação da mulher num mundo de regras determinadas pelo sexo masculino. As meninas alemães não aprendem fazer sentinela e nem acham nenhuma graça nisto. Elas sabem que podem ser o que quiserem, inclusive chanceler da república. Merkel foi a primeira mulher a governar a Alemanha e isso foi, em 2005, uma mudança de paradigma na percepção de mulheres no alto escalão da política. Mesmo sendo um país liberal, a Alemanha não difere de países de tradição machista como o Brasil, quando a mulher que mexer seus pauzinhos lá em cima, ela deve contar com represálias e tentativas de impedimento. As nuances diferem em diferentes países, mas o núcleo do problema é o mesmo.

Merkel tem sangue frio, como boa Dr. em Física e evangélica luterana (nessa combinação), aguentou ser muito torpedeada, vilipendiada pelo inimigo ao lado, o ex-chefe do partido da Baviera, Horst Seehofer, que agora se mostra manso, depois que Merkel anunciou e cronômetro a sáida em doses homeopáticas. Essas picuinhas que prejudicaram imensamente o trabalho da “Grande Coalizão”, formada com muito esforço e muito cálculo político para evitar a nova ida às urnas, trouxeram imenso desgaste, levaram à erosão do poder merkeliano dentro do próprio partido e também ela, à visível exaustão. Merkel conseguiu ser a roteirista do seu filme, mas foi bem na tangente. Mais uns meses, e seu legado estaria comprometido. Agora o espectro partidário se prepara para a Era-Pós-Merkel e esses primeiros dias depois da eleição da sucessoral no partido, sua discípula Anegrett Kramm-Karrenbauer, apelidade de AKK, mostram que os partidos estão perdidos depois que “Mutti” (a mãezinha) está saindo de campo. Como ensinou o diretor e escritor e agitador político Christoph Schliegensief (1960-2010):  É preciso “tomar o fracasso como chance” .

Se os partidos não perderem o trem da história, pode haver uma reformulação que pode frear as forcas neopopulistas que vem emergindo de todas as camadas da sociedade. E a Alemanha não está sozinha, mesmo em diferentes nuances, esse fenômeno acontece na Hungria, na Polônia, na Áustria e em doses cavalares e ainda mais trágicas nos EUA e no Brasil, porém com duas democracias em estágio de maturidade e fortaleza bem diferentes.

Cinema

Uma outra personalidade que está perto de tirar seu time de campo é o diretor da Berlinale. Dieter Kosslick, que tomou posse em 2001 e terá na edição de 2019 seu último festival, mudou como nenhum diretor antes dele,a cara e a abrangência do festival. Existem aqueles que adoram seu jeito Legère em lidar com as grandes estrelas, achando que isso combina muito bem com a dialética do Understatement da Metrópolis Berlim, uma cidade outrora estrangulada pela autarquica disciplina prussiana em na sequência, com Status de ilha, rebelar e se tornar a Ovelha Negra da República e centro cultural mais efervescente da Europa. 

Tudo iniciou lá atrás nos anos ’50, quando o bairro de Charlottenburg, onde fica o cinema Zoo Palast, ex-centro do festival, fazia parte do Setor Inglês. Foi necessário que o Magistrado da Admnistração Britânica, permitisse Alfred Bauer a realizar o Festival, do qual foi o diretor entre 1951 e 1976. A quase desnecessário, mas vale a pena lembrar que foi neste cinema que a Dama do teatro brasileiro teve sua consagração internacional como atriz quando ganhou o Urso de Prata em 1998. Um momento da minha vida que não irei esquecer, é a cerimônia, ao lado de Fernanda, Fernando tirando sucessivas fotos da amada e o Waltinho, o dono do sorriso mais lindo que eu conheço. E como a vida pode ser maravilhosa, a Fernanda ainda faz parte da minha vida e, com Waltinho temos uma trilogia para completar. A primeira em 1998, a segunda quando ele aqui esteve para discursar na noite de homenagem a Wim Wenders e me deu o papel com o discurso feito na íntegra. Agora falta ele voltar com um outro filme. Existem muitas possibilidades.

A Berlinale de hoje é um Mega-Festival, com inúmeras e abrangentes mostras e, isso também é obra da Era Kosslick e da Comissão de Seleção, com uma competição descaracterizada. Cannes mantém a caracterização da Mostra Competitiva, Berlim a perdeu pelo meio do caminho. A concorrência com Cannes nem acontece, no máximo uma com Veneza e é preciso uma ligação muito forte com Berlim e com o Festival ou até mesmo de amizade com o próprio Kosslick para que haja uma estreia mundial de peso na Mostra Competitiva. Há muitos anos, e essa versão nao é oficial, Dieter Kosslick, o brincalhão e queridinho dos jornalistas, especialmente na coletiva de imprensa dez dias antes do festival, passou o bastão para uma Comissão de Seleção e se tornou, somente, o garoto-propaganda, a Marca Berlinale e seu obrigatório cachecol vermelho, o que resultou num sucesso de Marketing sem precedentes. Isso tem a ver com o Zeitgeist, mas também com a própria personalidade daquele que outrora, escrevia discursos para o Senador da cidade hanseática de Hamburgo e depois foi trabalhar na Fundação de Fomento de Filmes na Região da Renânia do Norte-Vestfália (NRW, na sigla) e foi o mentor de muitos diretores alemães, hoje conhecidos mundialmente: Oskar Roehler, Christian Petzold, Fatih Akin, só para citar alguns.

O filme alemão e sua visibilidade no mundo tem muito a agradecer a Kosslick. Graças a ele, a cinematografia germânica, em toda a sua diversidade e nuances, se tornou presença natural e na Mostra Competitiva. O que se faz em casa deve ser valorizado, assim a filosofia kosslickiana. A barreira que seu antecessor, Moritz de Hadeln  tinha com o filme alemão, que aparecia, quando muito, uma vez na competição, caiu completamente com Kosslick enquanto as possibilidades de fomento aumentavam e as co-produçoes se tornaram um hábito.

Filme de Abertura

A noite de gala da próxima Berlinale terá a assinatura de Kosslick, mesmo que sua assinatura não seja reconhecível na abrangência da mostra concorrendo aos Ursos. Porém o filme dirigido por Lone Scherfigs é uma produção dinamarquesa canadense, na qual fluiu dinheiro da Suécia, França e Alemanha.

Felizmente o filme de abertura não será de animação sobre cachorros que querem implementar a justiça no mundo e nem um hotel chamado Budapeste, que recebe um monte de gente esquisita. Não, desta vez não será de Wes Anderson o filme de abertura e só por isso eu poderia abrir um Champagne ou uma cerveja, se eu fosse adepta dessas duas bebidas. Desta vez o filme de abertura é de uma temática que acontece na metrópole das metrópoles, Nova Iorque e junta solitários que se encontram no inverno hostil. Além disso, o filme tem a aura europeia que irá amansar os críticos de filmes muito comerciais e de fácil digestão. Para coroar um toque temático europeu, será a atriz francesa, Juliette Binoche que presidirá o júri internacional depois que em 2016, a atriz mais premiada de Hollywood, Meryl Streep, exerceu a função. 

O que vem depois

As novas cabeças do festival são o italiano Carlo Chatrian que nos últimos seis anos comandou o Festival de Locarno, à beira do Lago Maggiore e encarregada do empresariado no cargo de Diretora Executiva, será a holandesa, Mariette Rissenbeek. Ela mora na Alemanha desde os anos ’80 e vinha representando a empresa German Films, ou seja, promovendo o filme alemão ao redor do mundo.

A dobradinha e um homem e uma mulher no comando do festival é super bem-vinda. Com ela, termina o Cult da pessoa de Dieter Kosslick, suas idiossincrasias, seus humores inesperados, mas também o seu humor indispensável. Esse sim, deixará saudade. Entre suas frases que ficaram pra sempre, estão: “O Filme nos mostra o que acontece no mundo“, se referindo à essência de Glauber Rocha com um câmera na mão e uma história pra contar, independente de meios de comunicação tendenciosos e parciais. A outra frase, de alto nível de sarcasmo, digno do nível do gênio da sátira alemã, Loriot, Dieter Kosslick, em suas várias moderações com grandes estrelas e atrapalhado com a língua “estrangeira”, certa vez, mandou: “Meu inglês é tão bom, que você entende até em alemão“. A troca fará bem ao festival e, tomara, para a Mostra Competitiva, assim como a saída de Merkel possibilitará uma renovação na ala política, não somente do CDU, mas de toda o espectro partidário na Alemanha.

“Tem gente que chegar pra ficar, tem gente que vai pra nunca mais” no super sucesso eternizado na voz da Elis Regina, mas também existe a sabedoria e meticulosidade de um ditado alemão que prescreve: “Na vida a gente ainda se encontra duas vezes“. Isso pode valer para Merkel, para Kosslick. Para a autora deste texto, também.

No meu tempo recente em Coimbra, Lisboa e Fátima, eu me deliciei com o frescor da forma em que os portugueses usam para se despedir, forma que serve para todo o contexto, independente do fator tempo, eles dizem, “Até já!”

https://www.german-films.de/home/index.html

 

Twitter: FatimaRioBerlin

Instagram: rioberlin2018

Tendências: