Cinema na Penitenciária

Fátima Lacerda

28 Fevereiro 2018 | 09h07

 

Confesso, que estou atrasada com as matérias ainda referentes à Berlinale. Por estar desde sábado, de molho com uma gripe cavalar, a minha atividade na escrivaninha tem sido mínima.

Enquanto Angela Merkel, em convenção do seu partido, corre atrás do prejuízo (que não é pouco) o seu maior crítico foi designado para a pasta do Ministério da Saúde. Continua valendo no universo merkeliano (e não só nele): “Se você não pode se livrar do inimigo, junte-se a ele”. E tê-lo como subalterno no gabinete do próximo governo é a melhor maneira de neutralizá-lo. A atuação de Merkel, fazendo sua maior aliada, Karrenbauer, se tornar a Secretária Geral do Partido, também é uma bela cartada. Mas em Berlim, muito mais do que o cinema político, tem um festival que, em sua recente terminada versão 2018, ousou.

Berlinale Goes Kiez

Essa seção, criada em 2010 tem o intuito de homenagear gerentes de cinemas de pequeno porte, localizados em bairros, que em Berlim goza de características bem típicas. Na edição 2018, além de seis cinemas de bairro, apareceu na lista a Penitenciária de Tegel, a JVA, uma penitenciária com 930 celas, tida como de alta-segurança e a mais antiga de toda a Alemanha. Mas que como pudemos constatar há bem pouco tempo, não é impossível escapar dela. Um prisioneiro, Hamed Mouki, da Líbia que estava condenado até 2022 se enfiou debaixo de um caminhão de entrega, entre os 70 que diariamente estacionam no pátio,escapou e até agora, não foi encontrado.

Fridolin Freudenfett

Numa sexta-feira ensolarada (23.02), mas com a temperatura de zero graus, os oito jornalistas registrados para presenciar a exibição do filme “O silêncio na sala de aula” (“Das schweigende Klassenzimmer“em tradução livre), do diretor alemão Lars Kraume, tiveram que ficar durante sentidas horas na famigerada zona de trânsito, enquanto confiscavam nossos passaportes, nos davam declarações para assinar. No filme, o diretor faz uma adaptacao literária sobre a história de uma turma da Alemanha comunistas, por fazer um minuto de silêncio na sala de aula em solidariedade às vítimas na Hungria que se rebelava contra a ocupação soviética. Essa atitude acorda os lobos defensores do sistema que exigem o nome do iniciador da “Contra-Revolução” sob a ameaça de proibir toda a classe de fazer vestibular e entrar na faculdade.

Aos poucos o salão se enchia. Os jornalistas se mostravam ainda tímidos em interpelar os ainda poucos presentes. Eu e Pierre, um colega da Agence France Presse fomos falar com um solitário sentado na fileira de trás. Bernhard, de 54 anos, um tipo caladão e desconfiado, logo de cara já foi avisando: “Eu não sou detendo. Eu sou professor aqui dentro da penitenciária das matérias história e matemática”. Ele contou que antes, lecionava na rede pública e largou o setor para ser professor na penitenciária. Ao ser indagado o motivo: “Mudar de ares”, disse ele com uma frieza igual a da temperatura que reinava naquele salão. Até esperar o início do filme, juntei uma cadeira ao aquecedor e tentava aquecer meus dedos entres as frechas.

Funcionários da penitenciária iam chegando. Em suas mãos, imensos chaveiros com diversas chaves. Em minha inocência de quem nunca esteve numa casa de detenção, eu pensei que seriam os próprios presos, carregando consigo as chaves de suas celas. Depois de perguntar a uma mulher de pulôver bege, cabelos ao ombro e com óculos de última geração, sobre a origem das chaves e não contendo a curiosidade jornalística, a pedi para segurar as chaves, por um momento. Relutante em atender meu pedido e em tom de quem tem sempre o pé atrás, ela disse: “Rápido”. Realmente, o molho de chaves, era muito pesado. Decerto que numa penitenciária, as chaves ganham um significado especial. E pra mim, não foi diferente além do formato do molho das chaves.

Depois da exibição do filme, que fala sobre liberdade de escolha, amizade, traição e solidariedade, o Senador da Justica de Berlim, Dirk Behrendt, que eu conheço de longa data do seu trabalho nos Verdes e que hoje faz parte do governo de coalizão com os Social-democratas na Cidade Estado, Berlim, saiu da sala. Essa medida havia sido sacramentada desde o início da ideia originada lá pelo verão europeu de 2017 quando o porta-voz da penitenciária, ligou para a Berlinale perguntando se eles não gostariam de incluir a JVA Tegel no percusso da mostra Berlinale Goes Kiez. O porta-voz, Sebastian Brux, um cara super simpático e comunicativo não escondia o orgulho em ter conseguido essa premiere. Foi a primeiríssima vez que um filme da Berlinale foi exibido numa penitenciária. “Eu acho importante a participação, o sentimento de não estar excluído de tudo o que acontece lá fora”, declarou. Perguntei sobre a condição para participação dos detentos nesses eventos, por exemplo, se os que são considerados especialmente agressivos, podem também participar. A resposta, claro, que foi não.

Perguntas…Perguntas…Perguntas…

Surpreendentemente, a discussão depois do filme foi bem mais intensa, em termos de quantidade e qualidade, do que anteriormente, imaginava. Havia grande interesse por parte dos detentos. O diretor Lars Kraume respondia, com ausência naturalidade, suas perguntas. A participação intensa dos detentos durante a a Q& A foi o sinal, bem-vindo, para jornalistas, conversarem com detentos. Conversei com Jens, que está preso há 10 anos. Decidi não perguntar quanto tempo ele ainda deveria cumprir pena. Perguntei sobre como ele se sente, tendo acesso à uma programação inédita que teve premiere na Berlinale somente dois dias antes engatando na pergunta se ele usufrui de ofertas culturais na penitenciária: “Claro, eu sempre fico muito feliz quando eles oferecem essas atividades”. Vale mencionar que a JVA Tegel oferece espetáculos de grupos de teatro externos como nesta semana, o espetáculo “Parsival” de Richard-Wagner. Todos os ingressos já estavam esgotados na última sexta-feira.

Jens falou sobre solidariedade na prisão, que só existiria em certos grupos. “Existe muita traição” disse ele com uma solidão gélida no olhar.

Hamsar, um detento polonês, reclama da raridade de visitas que pode receber de sua família, que vem especialmente da Polônia. Quando perguntei quanto tempo ele ainda precisa cumprir pena ele, com um sorriso desconcertado, disse: “Eu tenho pena perpétua!”. Ao indagar que na Alemanha a pena perpétua é de 15 anos e depois do cumprimento é possível sair, ele deu a entender que a gravidade do crime cometido é tão, imensa, que nem mesmo depois do cumprir de 15 anos será possível deixar a penitenciária. Também Hamsar falou de traição e falta de solidariedade, aquilo que no filme apenas vista, tinha de sobra.

Ao fazer um apanhado com o olhar pela sala é, surpreendente, a aparência dos detentos que, encontrando na rua, você nunca pensaria que ele já esteve na prisão. Depois de 3 detentos conversarem em particular com o diretor Lars Kraume, os policiais de sela iam buscar um por um, levar as suas celas. Só depois de todos recolhidos, a imprensa poderia deixar o local.

Saindo dali, ficou um bolo entalado na garganta pensando que os detentos voltariam para suas celas e, provavelmente, ligariam a TV até o sono chegar.

Até mesmo nós, jornalistas, sentimos claro alívio depois de termos sido liberados daqueles muros altíssimos e zonas de trânsito de temperatura gélida. Imaginei não ter a liberdade de, sempre quando a vontade bater, pegar a bicicleta e sair pedalando pelas áreas verdes de Berlim como símbolo da liberdade de ir e vir quando der na veneta. Pelo que parece, é possível também se acostumar com a falta de liberdade, até mesmo para o resto da vida. E para quem está fora dessa realidade, uma pergunta que não quer calar: E que vida pode ser essa?