Cinema para todos: “Deus e o Diabo” na capital

Fátima Lacerda

03 de dezembro de 2014 | 13h18

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A Mostra “Perspectiva América Latina“, da qual há 4 anos sou curadora, nos meses de novembro e dezembro tem religião como foco programático. Nesta quinta-feira a mostra tem o seu ápice com a exibição da obra-prima de Glauber Rocha “Deus e o Diabo na terra do sol“. Decerto que não é a primeira vez que o filme é exibido em Berlim, mas a primeira vez, na Oficina.

Popularmente apelidado de Kreuzkölln é o bairro que mescla Kreuzberg com Neukölln, bairros de verdadeira ebulição social e cultural no sudeste da cidade, onde abita um público tão heterogêneo em termos de nível de escolaridade, da forma de consumir cultura, de proveniência geográfica que esse terreno instiga qualquer gestor cultural. A heterogeneidade se torna um delicioso desafio.

Com a sua política programática voltada para imigrantes residentes na capital, a Oficina das Culturas atrai estudantes universitários, jovens alemães e imigrantes de todas as partes do mundo. Pessoas de baixa renda podem exercitar a cidadania fazendo parte da programação cultural do bairro (ou da cidade) onde moram. Os filmes, sempre às 19 horas das quintas-feiras, com entrada gratuita, é uma das possibilidades.

O público que estará na oficina amanhã, tirando os brasucas que irão para matar a saudade ou até mesmo para “a sua premier bem pessoal” de “Deus e o Diabo”, não é aquele já conhecedor de tudo, como o que, proveniente da cena clubista, marca presença no circuito Estação Botafogo, mas um público seco por cultura em geral e aberto à aventuras cinematográficas. Essas pessoas vão conhecer Glauber, vão participar do bate-papo depois da seção.

A mostra, focada no cinema latino americano contemporâneo, constata que a América Latina se emancipou, não somente na realidade política, com sistemas democráticos de governo em vários países. Junto com o rasante avanço tecnológico e as organizações de fomento que foram se multiplicando na Europa, os projetos cinematográficos se tornaram factíveis. 30.000 euros de ajuda de financiamento, faz a diferença decide sobre o ser ou não ser de um filme de baixo orçamento. Nesse contexto, de emancipação do cinema latino americano contemporâneo, e tendência na formação de produçoes bi-nacionais, a Alemanha tem grande participação e grande mérito.

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A contemporaneidade de Glauber

Entre todos os filmes exibidos nos meses de novembro e dezembro, “Deus e o Diabo” é o único que tem data de lançamento de décadas atrás. Entretanto, a contemporaneidade de Glauber é incontestável. Esse baiano sensacional que deixou uma obra incrível e, devido a meticulosidade de sua mãe, Dona Lúcia Rocha, uma obra completa e arquivada de forma prussiana.

O legado vai mais do que isso. Tive a chance de conhecer Paloma, que em parceria com o cineasta Joel Pizzini restaurou e compilou a obra de Glauber, apresentando o produto realizado na mostra Fórum da Berlinale. Eryk Rocha, com seu olhar instigante e seu talento ímpar.

https://www.youtube.com/watch?v=7uHXBrUj-rk

Ava Rocha, que sacudiu a cultural underground berlinense com performances, pocket-shows. No final de um deles, sentamos todos à beira do canal que atravessa Kreuzberg ao lado do quiosque turco. Ajudei a traduzir o pedido para todos os membros da banda, comemos juntos pizza de espinafre com gorgonzola enquanto Ava, com um dicção e tom de voz de arrepiante similaridade com a de Glauber, falava sobre suas impressões da cidade, onde permaneceu várias semanas.

https://www.youtube.com/watch?v=CV-kQYD0HnI

Exibir Glauber na capital é mais do que um ato de consciente curadoria. É a realização de um sonho.

http://www.werkstatt-der-kulturen.de/de/spielplan/?datum=2014-12-01&filter=Komplett&detail=1026