Coimbra-Lisboa, dias de realizar sonhos e um Até Já

Fátima Lacerda

02 Dezembro 2018 | 16h34

 

Num sábado pela manhã era hora de realizar longos desejos. Ir ao Mercado Municipal de Coimbra, era somente um deles. Outras vezes eu lá estive, mas tarde de demais na hora do dia e as prateleiras e os mercadinhos já estavam vazios. Entre muitas senhoras que levam muito cedo nas redondezas de Coimbra e marcam presença religiosa nos mercados aos sábados, encontrei Inês. Ela leva verduras e legumes de sua horta para vender no mercado “para ajudar os filhos”, mas pensa todo o tempo é voltar pra casa para cuidas dos netos.

Perguntei desde quando ela vai ao mercado: “Há muito tempo, depois dei uma parada e agora estou de volta aqui” e acrescenta: “O mais importante é a saúde”. O semblante da Dona Inês conta um filme, uma história e também o que permanece teimoso em suas feições: uma postura positiva, uma casa de janelas abertas. As outras duas senhoras, nos balcões ao lado, outras bem mais reservadas. Uma delas, ao ouvir meu “ português das novelas”, veio toda simpática e diz: ”Meu sonho é ir ao Brasil” e eu me pergunto se ela tem ciência do momento trágico convulsivo e de retrocesso que o Brasil atravessa. Tanto em Berlim, Coimbra, Santuário de Fátima e Lisboa não há uma só vez que quando o tema e Brasil, olhares preocupados e ansiosos para saber “o que está acontecendo” não venham a tona.

Fui “convocada” a provar tangerinas minúsculas. Quando o fiz, me deliciei e tive que comprar, mesmo não tendo onde guardar já que, sem involuntariamente querer parafrasear o novo disco do Lenine, estou “em transito”. 1 kg de tangerina em Portugal custa 45 centavos de um euro! Um pacote com 30 lentes de contato diárias custa 14,99 euros. Em Berlim, o dobro.

As mulheres sofridas, mais caladas, as mais animadas tem algo em comum: o prazer de estar ali mercado,  de tirar um dedinho de prosa com quem queria feijão fradinho, mas ouve que o mesmo já foi vendido. ‘Se eu tivesse trazido mais, teria vendido mais” diz ela pra mim. Tive que segurar a emoção pelo desprendimento, ternura e exercício em preservar a culinária  regional daquelas mulheres.

Depois de uma longa prosa, pedi para tomar o depoimento de Inês em frente a, aliás, um nome super frequente em terras portuguesas. O espírito do amor da vida do Principe Regente Dom Pedro, filho do Rei Afonso V e a tórrida história de amor dele com Inês de Castro. O filme “Pedro & Inês foi projetado no festival “Caminhos do Cinema Português” e leva as meninas em peso ao cinema por causa do galã do cinema lusitano. No imaginário, constroem-se, ao mesmo tempo, expectativas e alimentam-se nostalgias de uma época de glória. O ator Diogo Amaral é o Mr. Right do cinema português. 

Ser membro do júri CISION na companha de Nuno Gonçalves, do canal Cinemundo e do jornalista Vasco Câmara, editor do suplemento “Ypisilon” do jornal “Publico” foi um deleite, uma grande sorte e sim, um prazer imenso. Foram muitas conversas, discussões sobre filmes. Não há nada mais intelectualmente prazeiroso do que discutir sobre filmes com quem entende do assunto e se mostra apaixonado pela Sétima Arte.

Encerramento

O Festival “Caminhos” (23.11-01.12) na cidade de Coimbra, terminou na noite de sábado (01) com cerimônia de entrega de prêmios no Teatro Gil Vicente, perto da Praça da Republica.   

A menção honrosa foi ao filme “Entre Sombras” das diretores Monica Santos e Ana Guimarães, do gênero Animação com um toque de filme de suspense e terror.

Com argumento super alinhavado, efeitos especiais de primeira linha e um filme de mulheres emancipadas, que fazem de porradas do destino, uma chance de correr por fora, garantem o final surpreendente. O filme trata de pessoas que vão depositar seus corações numa mala fechada num cofre de um banco e levam a chave escondida no peito, esperando a hora certa para abrir o coração. O frescor de um brisa de verão  o que sentir ao ver este filme. Quis entrar na tela (como nos filmes de Woody Allen) ir atrás do descascar aquela história. Neste momento, o filme ainda não está disponível no YouTube, mas com dois prémios angariados na noite de sábado (01), isso logo irá mudar. 

Todos os Caminhos levam a Lisboa

Acabou a pipoca em Coimbra. Agora e hora de partir para a melhor cidade da Europa: Se faz preciso espiar por novos caminhos, novas ruelas, avenidas alamedas, subir para o Castelo São Jorge pela Praça Moniz, ali onde tem o Roof Bar do Hotel Mundial e onde existe a maior fila de Lisboa para apanhar o bonde 28, o preferido dos turistas.

Agora, a partir de Lisboa (antes de regressar ao frio gélido de Berlim) irei inalar a insustentável leveza do ser que rege por aqui, na Padaria Portuguesa que fica na Avenida da Liberdade, ir ao cinema, passar na loja de Manufatura de Pasteis de Nata, ir ao Estádio do Benfica, ir ao meu restaurante preferido, não desistir de continuar procurando o Bernardo, não me aguentar de rir quando os portugueses respondem uma ligação, do celular, digo, telemóvel e ao invés de “Alô”, dizem “Estou!”

Termino este texto, diretamente de um saguão de um hotel em Lisboa, bem pertinho do Rossio, em pé, em frente a um computador postado em frente ao balcão com gente chegando, se despedindo e depois de tomar uma surra de uma hora, (sou usuária do Windows) ou depois de apanhar uma seca como dizem os portugueses, deixo um abraço e uma expressão usada por aqui de forma atemporal. Até já!