Coimbra: Um difícil começo, muito cinema, inusitados encontros e muita chuva

Fátima Lacerda

29 Novembro 2018 | 16h34

 

Ainda há em mim, resquícios de Jet Lag. A viagem de Berlim para Coimbra foi imensamente cansativa, com alguns atropelos, um tantinho de sorte que não permitiu que eu perdesse o trem para Lisboa. Consegui chegar a tempo na Estação de Apolônia, a que tem trem para Coimbra. Há muito a contar. Vamos por partes.

A vista da foto acima é a foto da minha janela com vista para o Rio Mondego, um pedacinho minúsculo dos ao todo, 234 km de um dos rios mais importantes de Portugal.

Para falar de Coimbra (de Berlim eu já venho falando desde 2013), eu preciso, antes de mais nada, falar de Lisboa. Esse lugar me atravessa, me deixa num estado de querer inalar tudo, tudo o que passa a minha volta e todos os mínimos detalhes. Gosto de rever edifícios, locais visitados há dois anos atrás (2016), quando lá passei uma semana de férias que incluía a passagem do ano, o Réveillon para celebrar a vida. Entrar numa padaria e ver crianças lambendo os dedos ao devorar sonhos recheados de todas as maneiras, a correria do entra e sai e a dona do estabelecimento atuando como um maestro num cenário caótico, faz pular meu coração e surpreende minha retina com a insustentável leveza que rege em certos lugares neste país que eu aprendi a amar, exatamente através de encontros, de âmbitos intelectuais, de presença física e que foram me mostrando esse pais, o qual eu só conhecia das piadas que ouvi, ainda quando moleca. que português é sinônimo de burro e pão duro, e claro, dono de padaria.

Lisboa já não tem muito da reflexão silenciosa e profunda percebidos dos poemas Fernando Pessoa e nem aquela escuridão sombria exibida em filmes que abordam a sentida eternidade da ditadura de Antônio Oliveira Salazar (1933-1974) ou mesmo em filmes do grande Mestre, Manoel de Oliveira.

Lisboa se tornou o ponto de turismo agitado do pós-moderno e em tempos de terrorismo, que fazem das regiões do norte da África um lugar a ser evitado, a capital e o país como um todo, se tornou o Point da Europa. O outro lado desse desenvolvimento urbano é a ascensão absurda do custo de vida em Portugal. Até três anos atrás, Berlim era elogiada pelo baixo custo de vida e também lá, isso e coisa do passado e a especulação.

Perto da Igreja de São Tiago, na rua Ferreira Borges, encontrei uma loja centenária de bonés e chapéus. Muito bem acompanhada por um português de Lisboa e com excelentes habilidades comunicativas e que cativa com sua simpatia, adentramos a loja e ouvimos a história que nos levou ao túnel do tempo e, particularmente, ver um senhora muito delinear seu vasto e fundido conhecimento de diferentes tipos de boinas e de fabricação foi um delicioso requinte. E como a Alemanha me persegue por todo o lugar onde estou (é mesmo coisa de destino e eu nao tenho dúvida), havia num cantinho da loja um cartaz da marca Knirps e, por coincidência ou não, três chapéus fincados na parede ao lado do cartaz, de certo, do tempo do onça, como dizia a minha avó.

Estranhamento

E foste um difícil começo, afasto o que não conheço”. Comigo e Coimbra foi um inicio difícil assim como a Paulicéia para Caetano. Até mesmo no sétimo dia, quando lá fora chove Cats & Dogs e o céu é, no mínimo tão cinzento como em Berlim, eu me lembro do dia de ontem (29), quando estive à beira da piscina tomando sol e arriscando uma entrada até o joelho na agua. Isso parece uma eternidade.

A melhor maneira de driblar o Jet Lag e as estranhamentos é partir para a rua, se jogar na multidão e ver o que acontece. Na realidade, eu queria ir no Mercado Municipal, polo de culinária portuguesa e suas diferentes interpretações, um monte de gente e história num só lugar e muito burburinho. Impressionante como os portugueses são solícitos na hora de dar informações, porém isto não vale para os controladores de bilhetes da empresa de trens (de comboio, como eles dizem por aqui. Lá estão verdadeiros Cabrões (pulhas) que se fazem de legitimados pelo uniforme para extravasarem suas frustrações. Não e preciso muito para perceber a diferença, quando você vem de um lugar hostil como Berlim no quesito prestação de serviços e gentileza, para sentir e perceber uma insustentável leveza no ar em Portugal, mas claro, sempre há exceções. Sempre haverá um que irá descontar na brasileira, no diretor de cinema português que perdeu a hora de saltar do trêm de Coimbra e acabou parando em Lisboa tendo que fazer todo o trajeto. Agora a empresa Comboios de Portugal ainda quer dele a multa de 150,00 euros, mesmo ele tendo assegurado, pagar a diferença referente ao bilhete de volta de Lisboa para Coimbra.

Berlim tem inúmeras qualidades. Gentileza, certamente, não está entre elas e lá a exceção é muito, muito rara.Passa no posto policial, vira a direita e sobe a ladeira a vida toda” disse uma senhora da loja da Rua Sofia que irá desencadear na Câmara Municipal de Coimbra. O posto policial eu nunca vi, mas o ranço prussiano de teimosia em mim, seguiu em frente para ver no que ia dar. Ali mais a frente deparei com o prédio da Câmara. Já com os pés doloridos da sandália de salto alto que eu teimara colocar (eu me recurso a aceitar a chegada do inverno), sentei num banco de madeira maciça na entrada do lindo prédio. No balcão, três mulheres conversavam sobre assuntos gerais e que eu, pela distância, não podia entender detalhadamente. Levantei, me dirigi ao balcão. Antes mesmo que eu lá chegasse, uma delas bateu o olho na minha sandália, seguida de uma impagável expressão do rosto. Atrás do balcão, agora para mim visível, uma policial de rabo de cavalo com um jeito descolado e muito despachada. Numa profissão de domínio masculino é necessária postura firme para se garantir com outras competências. A voz de cunho resoluto e direto pode ser, estrategicamente nesse setor profissional, uma ótima escolha. Perguntei porque o Wi-Fi da rede Coimbra+ não funciona e as respostas que ouvi foram as mais mirabolantes possíveis. Entre uma frase e outra, pronunciada como se ela estivesse correndo para pegar o comboio, ela esbanjou: A minha rede é “Coimbra Convidados. “Sei, disse eu mexendo a cabeça e sorrindo, mas sabendo que ela não iria me ajudar a resolver meu problema. Ah, certo!”, disse eu fingindo entrar na onda. As outras duas ouviam atentamente a conversa. “Eu acho que ali fora (apontando para rua) é melhor (o WiFi)” e acrescentou “pessoas ficam sentadas ali nos bancos, informou querendo se livrar das minhas perguntisses.

Ao longo do prédio que fica quase ao lado do famoso Café de Santa Cruz, do lado da rua, tem uns bancos postados na calçada, a mesma que da para o Mercado Municipal, no qual eu não conseguir chegar a tempo para curtir o movimento do que todos falam. Mas cheguei num outro lugar, infinitamente melhor e a rede Coimbra+ continuava não funcionando se tornava um mero detalhe naquele final de tarde em que eu tentava desvendar a cidade. Coimbra tem muitos defeitos, especialmente para quem vem de solos prussianos, sempre em busca da ausência da falha. Para entender, e eventualmente gostar de Coimbra, é preciso paciência e um olhar, terno, atento para as manifestações de uma insuportável leveza do Ser e Estar, no sentido mais filosófico possível. Entrei numa loja para comprar Fita adesiva (aqui eles chamam de fita cola) e o estranhamento continuava. O lugar, uma pequena loja de comércio, era de um chinês, que logo foi chamado pela esposa, já que isso é assunto para homem além de eu ter dado a ela a impressão de não entender o que ela dizia. Ele, um magrelo muito estressado no andar, balbuciava uma língua que eu não sei precisar, me levou até o fundo da loja, muito escura para um (raro) dia de sol e me mostrou vários tipos da tal Fita Cola, sempre balbuciando sílabas com palavras atropeladas. Todas as fitas penduradas numa estante bem rudimentar ali naquele fundo de espelunca, eram “protegidas” por um anel magnético e na porta tinha detector para fiscalizar os menos honestos. Vale mencionar que os valores da tal fita variam entre 1 e 3 euros. Somando o trabalhão que deve ter dado o empenho de lacrar as fitas e o valor que se paga por elas, não há nenhuma lógica e nem coerência. Olha ai meu lado prussiano (!!!) querendo ver lógica ou pelo menos, uma explicação em tudo. Nessa mesma hora me vem em mente, o ditado alemão: “Outros países, outros costumes” (Andere Laender, Andere Sitten) e toda a tentativa de justificação vai para debaixo do tapete.

O acaso e o meu imaginário

Sabe quando você tem um retrato, no teu imaginário e, num momento dos mais inusitado e inesperado, aparece na tua frente, tudo para e você experimenta da maneira mais sensorial possível aquele momento do filme “O Dia em que o Mundo Parou”. Assim foi o Claustro da Manga. Ao ali chegar, tomada por um imenso cansaço físico e me tal, vislumbrei um pé de Laranjeiras. Laranjeiras! Me lembrei da uma novela “Meu Pé de Laranjeiras” da qual eu só lembro que se falava muito em minha casa sobre ela, se não me falha a memória de noveleira, essa terá sido a primeira telenovela brasileira. Desculpe mas a correria do festival e a necessidade de escrever esse artigo (antes que seja tarde demais) me roubam o tempo de confirmar essa afirmação perguntando ao guru nosso de cada dia no Zeitgeist, o Google.

No Jardim da construção emblemática e que se chama Claustro da Manga eu encontrei um cenário bucólico e de tal teor poético que nenhuma linguagem era capaz, naquele momento, de descrever o que eu senti e que tomou todo o meu ser.

O monumento renascentista foi construído em 1533 por João de Ruão a mando de D. João III e, segundo a cartilha com descrições, fruto de muita sabedoria e reflexão. Se decidiu evocar a Fonte da Vida com quatro rios em quatro pontos cardinais. O ponto de ônibus que fica ali em frente e toda a correria para quem está subindo a ladeira em direção à Praça da Republica, não influencia em nada o bucólico, nem o paradisíaco e nem a sensação de paz e eternidade que exala a aura daquele lugar. Não tinha vontade de sair mais dali. A mesma sensação eu tive há anos atrás quando, pela primeira vez, pisei no Castelo de São Jorge, em Lisboa. Fora isso, nenhuma sensação foi igual. Nunca antes. Nunca depois.

Memória

Com o estômago vazio e ainda com um enjoo cavalar que sofri no avião, eu indaguei um garçom do restaurante “Jardim da Manga” que tirava a louça da mesa sobre o tipo de culinária servida ali. Ele, sem jeito balbuciou qualquer coisa, mas deu para notar que era um conterrâneo. Logo apareceu um senhor idoso e sisudo, citando as especialidades e logo me convidou para entrar. Na mesa, estava sentada uma senhora não menos sisuda e que já foi logo passando a resenha para a moça recém-chegada. “A cozinha já está fechada desde as 15 horas”. Eram 15:15 quando eu cheguei lá dentro. Então eu pensei: A flexibilidade brasileira não passou por aqui.

Começamos a conversar, cometi que sou jornalista da imprensa brasileira e que também escrevo sobre culinária. Falei sobre a minha Première em Coimbra. Ela me mandou sentar. Depois de uns 15 minutos perguntou se eu não queria comer uma Chofana, carne de cordeiro, cozinhada em vinho e que tem um molho bem aguado pelo valor de 15 euros. Geralmente vem batata e uma verdura junto. Eu pedi um pouco de arroz. Ah, como eu sinto falta do arroz como acompanhamento!

Sabia que me colocava em terreno culinário perigoso. Estômago vazio combinado com enjoo não é necessariamente o melhor ponto de partida, e muito menos o melhor momento para comer algo tão pesado. Linda me mostrou um lugar reservado e, gentilmente mas com firmeza, me mandou para ali e ali sentei. Enquanto esperava, observava duas filhas e uma senhora do Brasil. As cenas, de grande ternura, se intercalavam entre as filhas e a mãe e os conselhos e dicas do Seu Augusto ou simplesmente o lembrar a ele, que havia esquecido de levar o cafezinho. Quando uma tigela cheia de carne chegou na minha mesa, eu me vi frente a um grande desafio. Eu quase nunca como carne em Berlim. Porém ali estava um primo da feijoada brasileira e estava uma delícia. Em maneiras brasucas, Linda chegou a mesa e disse:” Você vai comer isso tudo”. Fui enrolando muito, deixei um bocado na tigela (algo que nunca faço mesmo já desde pequena) e pedi desculpas ao capitular.

Enquanto eu comia, Seu Augusto vinha a mesa e me contava tudo sobre Coimbra, sobre o lugar que já existe por décadas e sobre que ele ali trabalha há 30 anos. Como uma pessoa tão sisuda, pode estar em posse de tanta informação e tanta firmeza de conhecimento? Ele apanhou um livro sobre a história de Coimbra, trouxe a mesa e disse:” Esse é pra você dar uma lida” e me indicou a livraria ao lado do prédio da antiga redação do Diário Coimbra para adquirir o livro.

A naturalidade que ele mostra na entrevista é impressionante. Não havia uma hora e meia que eu estava ali e ele, num só Take, manda tudo o que eu queria saber e sublinha a construção lá fora do Claustro da Manga e, por “recomendação” de Linda, os produtos que podem ser consumidos no local. O potencial de identificação quando ele fala é de comovente ternura, apesar do semblante sisudo.

Muitas impressões. sublinham minha estada em Coimbra durante o período do Festival (23.11.- 01-12), isso fora os inúmeros filmes que venho assistindo no no “Caminhos” para o qual fui convidada para ser júri da imprensa e onde encontrei expertos no cinema português e muitas conversas cheias de riso, reflexões. críticas e histórias.

https://www.caminhos.info/juris/jurados-2018/

Na noite desta quinta-feira (29), será apresentado o filme “Praça Paris” da diretora brasileira Lucia Murat. No final da tarde (horãrio português), a chuva passou, mas a vontade de vara a noite discutindo sobre cinema e, nos Intermezzo que se delineiam, sair pra rua e dar à procura de histórias, encontros, surpresas, continua como no primeiro dia.

Twitter: Fatima Rio Berlin

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