Com “Afrodeezia”, o virtuoso Marcus Miller serve um banquete musical em Berlim

Fátima Lacerda

28 de abril de 2015 | 08h57

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A visita à Casa de Escravos na costa do Senegal, anos atrás, resultou na gravação da música “Gorée” no disco Renaiscance (2012)e logo em seguida, num convite da UNESCO para ser “O músico pela paz” e atuar como porta-voz do projeto “Rota dos Escravos”. Ai nascia a ideia de “Afrodeezia” o novo trabalho do multi-instrumentalista, Marcus Miller.

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O show em Berlim na noite de uma segunda-feira (27) chuvosa e numa locação que já foi usada como depósito e distribuição de cartas, foi a prova cabal desse desenvolvimento que passa por lugares de chave influência musical do mundo. Entre eles, Detroit, Senegal, Rio de Janeiro, São Paulo, Nova Iorque.

Vestido com uma camisa preta com os dizeres “Afrodeezia” e a explicação fonética para como pronunciar e o significado da palavra Marcus Miller entrou no palco com a habitual simplicidade.

Ao anunciar “Gorée”, Miller, com toda a calma e sem nenhuma pretensão de fazer o papel de Mestre de Cerimônias, explicou: “Nessa casa haviam 3 compartimentos. Para homens, mulheres e crianças. Nesse lugar, os negros eram submetidos a testes de saúde para determinar se estariam preparados para atravessar o oceano Atlântico”. Do público internacional berlinense ele colhia o silêncio absoluto resultante de muito mais do que somente uma postura politicamente correta num momento em que a Europa se vê numa letargia política concernente à política de refugiados. O peso dos 1000 refugiados que deixaram suas vidas no Mar Mediterrâneo, mostra a ferida aberta que é a política de imigração da UE.

“Na realidade, quando eu fiz essa música, eu queria expressar o sentimento de tristeza e impotência que senti quando visitem a casa. Os escravos perderam tudo. Sua religião, suas famílias, seus idiomas, mas conseguiram manter sua essência através da música. Nessa cancão eu fiz questão de também dar espaço à uma superação, aquilo que faz as pessoas levantarem depois de perder tudo”.

No início, somente pianista e Mino Cinelu na percussão permaneceram no palco. Momentos depois, Miller retorna com a clarinete barítono. A dinâmica da longa canção vai, aos poucos, sofrendo uma metamorfose estilística instigante e acaba com um groove de danças africanas e um Miller tomando espaço no palco, dançando com os pés fincados no chão, resgatando toda uma cultura expressada naqueles movimentos . A seriedade no discurso, a virtuosidade no executar e dirigir da banda jogando com nuances de mais ou menos expansividade, fez do show algo magnético. Miller faz isso sem o intuito de entretenimento, aquilo que seu mentor, Miles, odiava, achava que somente o produto musical deveria ser de interesse do expectador. Miller se libertou desse radicalismo e encontrou a sua própria linguagem. Ética. Autênticidade e uma deliciosa porção de quem sabe o que é e porque está ali. Sem devaneios. Sem conflitos.

Num intermezzo, Miller apresentou Mino: “Nos anos 80, eu e ele (apontando para a cozinha) tocamos com Miles. Um Nino Cinelu sorridente, curtiu a apresentação exclusiva de sua pessoa.

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Afrodeezia pelo mundo

Falando sobre o processo de gravação do novo trabalho lançado em 15 de marco último, Miller conta que viajou pelos quatro cantos fazendo descobertas, expandindo sua percepção musical em estilo e gênero.

Tivemos no Senegal, no Brasil, em Detroit e em grande centros musicais do mundo. Falando em Detroit, eu penso nos sons da Motown”, arrancando gritos de delírio da plateia. Simpaticíssimo e sabendo muito bem como magnetizar a plateia, instiga. Qual seria a melodia básica mais eletrizante da Motown? Essa aqui? Essa?” Quanto ele manda os legendários acordes de “Papa was a Rolling Stone“, o ex-galpão dos correios, incendeia. A interpretação, com longos solos, arranjos filigrano é só uma das Delicatessen que estariam por vir. Adam Agati na guitarra é um cara que não tem quase nenhuma expressão no rosto e poucas vezes abriu os olhos e mantinha as botas pretas com o cardarço desfeito. Entretanto, toda a sua sensibilidade sai no som da guitarra, uma mistura de B.B. King com Jeff Beck. Brilhante!

Andanças musicais pelo Brasil

Ao anunciar “We were there“, a faixa número 4 do disco, Miller compartilhou uma mais uma etapa do processo de andanças: “Nós tivemos um show no Rio de Janeiro e depois, no meio da noite, encontramos um estúdio e fizemos uma jam com músicos locais. Como George Duke era apaixonado pelo Brasil e pela música brasileira, dedicamos a ele essa canção.

Em nota no site, Miller explica bem detalhadamente o percusso musical no Brasil:

“Quando estive em São Paulo e toquei samba com músicos locais, eu percebi que já conhecia esse ritmo através de músicos do Marrocos. Essa conexão eu acho fascinante, mas como disa Taj Mahal: “Nova Orleans é somente o norte do Caribe” (local de nascimento dos avós de Miller). “Foi incrível!

“We Were There”

“Em 2013 perdemos George Duke e no ano passado, Joe Sample. Esses eram os dois tecladistas mais importantes da nossa era. Os dois eram fissurados em música brasileira e na influência do samba e da bossa nova eram visíveis em seus respectivos trabalhos. Depois de um show no Rio de Janeiro, entramos num estúdio com Marco Lobo, as cantores Aline Cabral, Andrea Dutra e Christiane Correa Tristão e editamos essa música, que incorpora as minhas melodias favoritas, as do Djavan. Com essa faixa eu quis expressar alegria, o desprendimento e o sentimento que a música pode trazer, apesar de todas as adversidades”.

Brett Williams mandava um groove de jazz-bossa que nos transportou, sem escalas, para solos cariocas. Irresistível. As músicas de Miller gozam de uma assinatura de um perfeccionista, mas sem se tornar estéril e elitista na escolha de arranjos complexos.

Quem achava que o virtuoso havia chegado no topo de sua inspiração, terá que rever esse conceito. Em Berlim e na atual turnê pela Europa, que inclui participação no Festival North Sea, na Holanda no mês de julho, Marcus Miller se mostra pleno no exercer da arte, simples e direto ao lidar com o público e desprendido para uma brincadeira ou outra, algumas delas não economizam no sutíl.

Antes de tocar “Son of Macbeth”, o que eu chamaria de um hard-calipso decorado com uma dinâmica incendiante, ele pergunta: “Vocês sabem o que é Calipso?”, indaga provocativo. Alguém da segunda fileira grita: “Berlim tem até uma banda de Calipso!”. Sem ter ouvido, Miller brinca: “Ah, Desculpem…eu esqueci que estamos em Berlim!”.

O bis foi uma versão mais groove de “Tutu”, menos minimalista do que durante a turnê com “Tutu revisited”. Já bem mais descontraído, o chefe regia a banda com um gesto de “Venha!”. Apontava como quem diz: “Agora o pianista!” e ratificava com os dedos tocando no ar, quem agora faria o solo. Louis Cato, na batera e Mino Cinelu na cozinha musical são o alicerce de tudo. Os responsáveis pelos instrumentos de sopro, entravam e saíam do palco em coreografia previamente ensaiada.

Antes de executar “Tutu” no bis, ele mandou: “Em 1981 eu e o Nino tocávamos na banda do Miles. Ele tinha 8 e eu 5 anos” arrancando um gesto de não com o dedo e um sorriso maroto de Nino.

O último bis, sem banda, teve um Marcus agachado na beira do palco, colado nos fãs, executando de forma poética “I’ll be there”, homenagem ao Jackson Five, gravado no disco Renaissence.

https://www.youtube.com/watch?v=EZ656RtdK98

Um show de lavar a alma. Uma viagem pelo universo musical. Um show reflexivo, instigante, completo. Desses que você mesmo no caminho de casa sente o corpo e a mente, reverberando, em êxtase e em harmonia com o universo.

Marcus Miller – Baixo, clarinete baritono, viola marroquina

Alex Han – Saxophone

Adam Agati – Guitarra

Brett Williams – Teclados

Lee Hogans – Trompete

Louis Cato – Bateria

Mino Cinelu – Percussão

Links relacionados:

Streams das 11 músicas do novo disco, você ouve no site da revista JazzEcho:

http://www.jazzecho.de/marcus-miller/diskografie/album/product:238604/afrodeezia

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