Como é bom ter Pai !

Como é bom ter Pai !

Fátima Lacerda

12 Agosto 2018 | 11h50

Quando eu era menina, tinha uma agenda diária cheia como um adulto. Como a Creuzette era uma advogada muito ocupada além de viajar muito para São Paulo e São Lourenço, foi meu pai, um holandês pernambucano que me acompanhava na agenda diária.

Tudo iniciava no início do dia. Eu estudava no turno da manhã. Todos os dias era meu Pai quem me acordava e todos os dias eu pedia “mais cinco minutos”. Ele, sempre avesso a qualquer tipo de atraso e na forma de pensar e agir muito europeu, deixava, com desagrado, os 5 minutos. Ah, os 5 minutos! Será que alguém sabe como eles eram imprescindíveis? Eles eram, por vezes a vontade de prolongar a sensação do sono, uma das melhores coisas do mundo (e na vida adulta isso não mudou em nada) como também um tomar forças para encarar o dia.

Quando eu passei a estudar no turno da tarde, pela manhã eu tinha aulas de balé na Escola do Teatro Municipal ao lado da Sala Cecilia Meirelles e depois aula de Ginástica Olímpica no Clube de Regatas da Gávea. Todos esses trajetos eram feitos no fusquinha vermelho (depois o amarelo). Por ser autônomo, o meu Pai conseguia conciliar a sua agenda com a  minha. O rádio do carro, sempre na Rádio Globo e o tráfego temeroso do Rio de Janeiro, eram coprotagonistas desses rituais e desse cenário.

Plantão na cozinha

Para evitar que eu me tornasse uma dondoca, meu Pai, certo dia, decretou que eu teria que, duas vezes por semana, teria que “fazer plantão na cozinha com a Dona Maria”. A Dona Maria, a melhor cozinheira do mundo e que faz a melhor batata para acompanhar o Estrogonofe que já se viu na face do planeta Terra se tornou comadre do meu irmão, o Fabinho hoje é um homão de 1,70 cm e eles fazem parte da família. Num primeiro momento, aquele “decreto” de nada me agradou, mesmo que eu já tivesse o ritual de fazer bolo de chocolate com leite condensado com a Cristina, minha amiga de infância lá do 302 do prédio na General Canabarro e hoje, uma dentista muito famosa. Depois de nossas aventuras gastronômicas de sábado, a cozinha parecia um terreno de guerra. Para colocar mais sistema nessas aventuras, meu Pai decidiu, digo, decretou o “plantão”. Terças e Quintas, por duas horas, eu deveria aprender a cozinhar com a Maria. Não me lembro do que aprendi. Se o fato de hoje eu ser exímia no preparar de sobremesas, não sei bem de onde veio. Já faz muito tempo. A explosão da panela de pressão e o teto da cozinha ficando preto de tanto feijão, persistiu o tempo e a distância geográfica. Quem nessa ocasião estava no comando da cozinha, eu não me lembro. Só me lembro que isso foi o motivo para nunca, nunquinha, ousar em mexer numa panela de pressão.

Inusitadamente, meu Pai era mais presente na cozinha do que a Creuzette, que mesmo sempre negando categoricamente, aprendeu muitos quitutes com a Maria. Meu Pai jogando os limões na parede para obter deles o melhor suco para a melhor limonada que eu já provei, o barulho do liquidificador quando se fazia limonada suíça, o tempo não apagou. Uma vez quando a minha madrinha trouxe chocolates de Londres e meu Pai comeu o pacote inteiro e depois ficou “estacionado” no banheiro da suíte. A minha paixão por chocolate foi herdada por parte de Pai.

Perdido na cidade

Já vivendo em Berlim e de visita no Rio com o Christian, meu Pai nos levaria para o centro da cidade. Algo que hoje seria impossível. Quando menciono pedir uma carona para ele me levar em algum lugar onde passa metrô, eu posso ligar o despertador porque vem um discurso aclamado do avanço técnico e rápido que o metrô representa. “Você pega ali na porta e salta lá na porta (do destino). É uma maravilha!”

Nesse dia bem remoto, onde queríamos somente chegar na Estação de Barcas para embarcar para Paquetá, meu Pai se perdeu no caminho e como todo homem se nega a assumir que se perdeu, ele ficou girando pela cidade e, para disfarçar, ficava falando que gostava de um tal de “Michael Schuhmacher” (alongando o sobrenome para dar um toque enfático para a língua germânica) para distrair o Christian, que já tinha notado o alongar da “viagem” e dizia baixinho (mesmo sabendo que meu Pai não entende bulhufas da língua de Schiller & Goethe): “A gente já passou por aqui!”. Eu, simplesmente, balançava com a cabeça em postura afirmativa, apoiando a estratégia de tampar o sol com a peneira de meu Pai. Diga para um homem que ele errou o caminho e ele negará até o fim.

Conversas no Skype

Todo o sábado pela manha, existe um encontro marcado para falarmos através de uma ferramenta que não tem como não odiar, já que você fica totalmente dependente dela. Meu Pai não usa o Zap, então só resta o famigerado Skype.

Conversamos muito sobre pendências na minha conta no banco, sobre as despesas do cartão de crédito e os incontáveis juros e taxas de administração cobradas, assunto que me deixa estarrecida.

Foram durante vários dias que consegui convencê-lo a votar no Freixo no primeiro turno. No segundo, ele não perdoou e votou no atual prefeito. Desde o escândalo envolvendo a preferência de fiéis da igreja de MC para operações de varizes e cataratas, a conversa é bem acalorada e eu nem poupo alfinetadas pelo voto jogado pela janela.

Futebol

Enquanto eu quero saber dos detalhes e aprofundar as conversas, meu Pai, talvez por dificuldades de concentração ou mesmo de tempo é bem conciso, nada espalhafatoso e nada polêmico.

Quando o Brasil foi eliminado pela Bélgica na Copa da Rússia, eu liguei e perguntei: “O que você achou?”. “Essa confusão toda acabou” declarou ele em apavorante tom realista para quem esteve no Maracanã na Final da Copa de 1950, quando aquele gol do Uruguai e o placar final de 2 x1 destruiu o sonho de gerações. Ele fala de um silêncio mórbido nas arquibancabas, de uma tristeza como ele nunca viu. Quando conversamos sobre isso, ele sabe de todos os lances do jogo, da escalação e sobre os burburinhos em volta do lugar de concentração da equipe celeste.

Conversamos sobre aquilo que ele chamou de “jogos de recuperação” do Fluminense até ele perder para a equipe do Ceará. “Quem será o campeão do Brasileirão?”. “Tá difícil”, de prever quis ele dar a entender. Seu amor pelo esporte teve seu outro ápice ao ser eleito o voluntário mais idoso das Olimpíadas de 2016.

https://olimpiadas.uol.com.br/noticias/2015/09/30/voluntario-mais-velho-da-rio-2016-tentou-ser-jogador-e-foi-vetado-pelo-pai.htm

http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/olimpiadas/rio2016/noticia/2015/08/aos-87-craque-frustrado-pode-ser-voluntario-mais-velho-das-olimpiadas.html

Graças ao tão odiado Skype que, mesmo à distância, as conversas e até mesmo as brigas por motivos de geração, influências culturais e até mesmo por empecilhos do fuso horário, as conversas são indispensáveis, inspiradoras e tristes ao mesmo tempo porque assim que desligado o Skype, a distância geográfica vem à tona. Porém, ter um Pai vivo, com saúde, bonitão, de inconfundível sarcasmo carioca e apesar da casca europeia, consegue, com muito esforço, expressar emoção, carinho e amor pela filha distante, me faz da conta: KRAK, como é bom ter Pai! E quando mais madura eu fico, isso se torna ainda um maior aprendizado. Ter Pai é bom para dar bronca, conselho, ajustar a percepção e voltar pro chão.