Crise diplomática com a Turquia, jornalistas investigativos e resistência em espaço urbano em Berlim

Fátima Lacerda

09 de março de 2017 | 11h01

Não mais do que 12 horas se passaram depois da cerimônia de entrega de prêmios para jornalistas qque priorizam pautas sobre política, mais especificamente sobre a democracia parlamentar regente na Alemanha, o parlamento alemão já iniciava o debate sobre a atual crise diplomática com a Turquia. 

Na noite de quarta-feira (08), Norbert Lammert, presidente do parlamento alemão convidara políticos e jornalistas para a cerimônia de entrega de prêmios no salão protocolar do Reichstag, prédio que abriga o parlamento.

Pude conversar, entre outros, com colegas poloneses, russos, como tamém com jornalistas alemães, entre eles, o jornalista Frank Buchwald, que durante anos, foi correspondente da TV aberta ZDF no Rio de Janeiro e hoje o chefe da redação de política daquela emissora em Berlim, mas o encontro mais gratificante de todos foi com Norbert Lammert, presidente do parlamento, ele, que havia sido cotado para candidato para o cargo de Presidente da República, mas (também) por ser a segunda ou mesmo terceira opção de uma chanceler sem um real Plano B, ele recusou a batata-quente.

Depois que uma colega húngara fez inúmeros Selfies, levando Lammert, um Gentleman, quase a loucura, já em tom sarcástico, ele mandou: “Agora já temos fotos em todas as posições”. Eu cheguei até a ele (sem pedir Selfie) e sem medo de ser feliz, expressei:

Eu gostaria muito de tê-lo como Presidente“. “A Sra. já é a terceira a me dizer isso essa noite“. “Um homem de retórica brilhante, pincelado de humor nas horas apropriadas, um homem do diálogo e do consenso, o que a Alemanha precisa mais do que tudo nesse momento”. “Eu cairia em depressão ou eu explodiria“, declarou em tom temperamental inusitadamente direto e transparente. Foi no momento em que uma jornalista suíça veio pedir um Selfie.

No final da noite, teimosamente, chuvosa de um dia que as redes pipocaram em defesa dos direitos das mulheres e políticos usaram seus Twitter para sugerir medidas “radicais” para que haja a igualdade de salário entre homens e mulheres. Se as pautas sobre mulheres, residentes nesse e no outro lado do Atlântico e sugestões para a melhoria da vida delas não fosse tão inflacionária no dia 08/03, mas se espalhasse por todo o calendário anual, seria de muita valia e, certamente, mais eficiente. 

Resistência urbana na calada da noite

No final da noite de terça para quarta, o iluminador artístico Oliver Bienkowski fez uma instalação de luz na parede da Embaixada da Turquia, localizada na beira da maior área verde de Berlim, o Tiergarten.

Em alusão a comparação da recente (e ainda atual) postura do governo alemão frente ao país que está frente ao que os analistas políticos denominam de “: “Erdogan cita o governo nazia alemão como um exemplo de governo efetivo”. A caricatura é de autoria do artista brasileiro  Carlos Latuff, porém dos direitos autorais são da PixelHELPER.org.

*PixelHELPER Foundation gemeinnützige GmbH é uma associação sem fins lucrativos e com suas ações realizadas em espaço urbano, procura chamar atenção para equívocos políticos e sociais. Já em 2016, na ocasião da entrevista de Erdogan ao “The Guardian”, o PixelHelper projetara uma voto do protagonista do nacional-socialismo na Alemanha e do atual déspota turco. Lado a Lado. Farinha do mesmo saco.

O jogo sórdido e perigoso entre Berlim e Ancara terá seus próximos capítulos. O último deles foi o encontro entre Cavusoglu, Ministro turco das Rel. Exteriores e Sigmar Gabriel, do lado alemão. A conversa foi coisa rápida e “teve como assunto, temas difíceis” declarou Gabriel que, inusitadamente, foi sozinho falar com a imprensa.

Num encontro nesse formato é de praxe, que os dois protagonistas informem a imprensa sobre o que foi conversado e se disponibilizem à perguntas dos jornalistas. O aspecto solitário de Gabriel perante ao microfone foi constrangedor para ele próprioa, e em consequência para o governo de Merkel com seu fetiche em tampar o sol com a peneira e um atestado incontestável de como a Turquia, cada vez mais, se distancia da Europa ou daquilo que restou da UE.

Existem fronteiras que não podem ser ultrapassadas“, declarou o social-democrata Gabriel. Num país dilacerado pela Guerra como a Alemanha, o tema fronteira tem um significado muito forte e muito absoluto. O que todos sabem, incluindo Gabriel é que a Turquia já ultrapassou todas as fronteiras, seja ela em tom diplomático, de coerência e tantos outros quesitos. Gabriel sabe disso. Ele sabe também que o governo alemão é conivente com o desenvolvimento no país e quando chora, são lágrimas de crocodilo.

 

 

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