Cúpula do G7 na Alemanha: um castelo escondido e uma anfitriã perfeita

Fátima Lacerda

05 de junho de 2015 | 11h10

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Se existe uma região na Alemanha, que pela sua localidade geográfica e pela sua cultura politisch oferece o perfeito esconderijo de tudo de “sujo, feio e inconveniente” que acontece no mundo, esse lugar é a Baviera.

Manter tradições faz parte de uma cultura intrínseca. Baviera, com suas montanhas deslumbrantes, suas cervejas de receitas centenárias e seus habitantes de grande poder aquisitivo. Não esquecendo que o mundo bávaro não seria completo, sem o partido, o CSU, União Social Cristã partido irmão do CDU, o partido há 15 anos chefiado por Merkel. A Baviera também tem o seu “Rei’, o chefe do partido e “a voz bávara em Berlim”. Horst Seehofer, o político mais tinhoso da república e não poucas vezes uma pedra no sapato de Merkel. Mas também aqui vale o que vale nos “casamentos por conveniência: “Ruim com ele, pior sem ele”. Por todos os motivos mencionados acima, foi Merkel quem escolheu o Castelo Elmau, como sede da cúpula do G7, sem Wladimir Putin, este quer, depois de anexar a região da Criméia se tornou persona non grata naquilo que os analistas políticos alemães denominam de “Sinteco político internacional”, lá onde se reúne a Liga dos Campeões, os Chefes de Estado das 7 nações lideres do mundo ocidental. Fontes nao divulgadas ligadas ao jornal Leipziger Volkszeitung divulga que é unissono entre os membros atuais que “nao querem jamais ter como participante”. “É mais fácil a gente convidar um Chefe de Estado da Ìndia ou da China, do que voltar a convidar o governo russo”.  Em sua exímia capacidade de botar panos quentes, a chanceler Merkel alega que “no momento, a volta da Rússia é infactível”.

A preparação

Entre os dias 07 e 08, os visitantes ilustres encontraram um palco perfeitamente planejado como a anfitriã Alemanha sabe fazer como ninguém. Os chamados Sherpas preparam anteriormente as notas a serem divulgadas. Nelas consta em que itens os países concordam e os que não. Esses últimos são “transferidos” para a próxima edição da cúpula que acontece anualmente desde 1975. Evitar polêmica e a principal premissa, afinal preciso demonstrar unidade para Putin, mas também para o mundo. Nem pensar em algo parecido como da Cúpula do Clima em 2009 na capital dinamarquesa ou em 2007  com o  turbilhão na região de Mecklemburgo durante a chegada de helicóptero do ex-presidente George Bush. Na ocasião, eu acompanhava a equipe da então Radiobras como assistente de produção. Em minha visita à mesma cidade da cúpula de 2007, moradores reportavam sobre “estado de guerra” na pacata cidade de Heiligendamm, à beira do Mar Báltico.

Esse ano, não há a terra plana da região nordeste de Mecklemburgo e muitas possibilidades de abrigo protestantes contra a ordem mundial ou temas específicos como a politica da UE concernente aos refugiados que todas as semanas são “desovados” por criminosos no Mar Mediterrâneo, por exemplo. No Castelo Elmau, o governo alemão encontrou o melhor esconderijo entre pacíficas montanhas. Os Chefes de Estado serão transportados de helicóptero de Munique diretamente para o Castelo, todo sobre os olhos de águia da Policia Federal Alemã.

Em entrevista ao programa de jornalismo investigativo “Monitor”, um dos hoteleiros da região declarou ter recebido ordem explicita do governo regional, o proibindo de alugar o jardim de seu hotel para protestantes.

Enquanto isso o grupo “Evitar a cúpula em Elmau” alugava na cidade vizinha de Loisach um gramado de um agricultor local para acomodar 1000 barracas de acampamento, a administração da cidade entrou na justiça e perdeu. A justificativa da proibição , alegando “falta de segurança e perigo de enchente” não convenceu os juízes da vara administrativa de Munique. ‘Não vemos razão para uma proibição geral. Mas claro que os proprietários podem fazer valer regras a serem respeitadas”, disse um porta-voz.

O prefeito da cidade, um social democrata, declarou ao jornal Merkur, de Munique que vai pensa na possibilidade de recorrer, mas” enquanto isso, aceitaremos a decisão judicial e apelamos aos protestantes em se orientarem nos princípios da Lei e da Ordem”.

Se os oposicionistas tivessem se comportado direitinho nas manifestações da Revolução Pacífica, o Muro de Berlim ainda estaria dividindo o mundo. Isso também é a percepção politica ingênua e rústica da Baviera.

Para fazer valerem intrínsecos direitos garantidos pela constituição alemã, como o direito a manifestações, o grupo ativista “Evitar a cúpula de Elmau” tem outro processo rolando na justiça para obter a permissão de que 50 manifestantes tenham “permissão de chegar ao menos perto do castelo para expressarem suas opiniões” disse o advogado do grupo. Caminha do por fora, grupos extremistas de esquerda se mobilizam via Internet. A policia da Baviera, que confirma que a resistência ao evento tenha “aumentado consideravelmente nos últimos dias”, também conta com a chegada de ativistas italianos de esquerda e garante impedi-los de entrar no país ja na fronteira. As imagens de Gênova ainda estão presentes nas retinas dos agentes policiais

Em caso de tumulto a policia já preparou 40 contêineres para “acomodar” 200 protestantes que serão mantidos presos.

A única saída para contrapor o ostracismo oferecido pelo Castelo Elmau e protestar nas cidades vizinhas, como Munique e na comunidade de Garmisch-Patenkirchen com 26.000 habitantes e que já tem fama manchada por ter sido sede dos Jogos de Inverno em 1936, no auge do nacipnalsocialismo de Hitler.

Contra a pobreza, contra o Pacto de Livre Comercio entre UE & os EUA e pelo meio ambiente, são os principais temas dos protestantes que estarão nas ruas.

A cúpula, seja do G6, G7 ou G8 vai nos apresentar protocolos já redigidos anteriormente. O que veremos no âmbito midiático será uma perfeita anfitriã, mas no final das contas, muita verba do contribuinte terá sido queimada para “obras de segurança” em volta do castelo.

Merkel faz como a personagem da literatura infantil de Astrid Lindgren, a Pipi Meialonga. ‘Faz o seu mundo do jeito que te agrada”, em alemão, Welt (Mundo) e o verbo gefaellt (agrada) são rimas usadas na frase corriqueira em debates entre adversários políticos.

No final da cúpula, o mundo não será um lugar mais justo e nem o projeto Mare Nostram no Mediterrâneo terá salvado mais refugiados do que antes, mas Merkel terá feito o dever de casa e pra ela, o que importa, é ter executado sua tarefa da melhor maneira possível. 

 


 


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