Curtas-Metragens na Berlinale: Maike Mia Höhne e a constante procura de como contar histórias do século XXI

Fátima Lacerda

14 Fevereiro 2018 | 19h29

©Sarah Bernhard

Quem já presenciou sessões de curtas-metragens na Berlinale sabe que lá se encontram os obcecados e aficionados desse formato. Até mesmo para a jornalistas, é difícil encontrar ingressos para as sessões hiper cobicadas e que vão até o final da noite. Tem sempre algo de conspirativo no cinema que exibe Curtas-Metragens. Histórias contadas de diferentes formas numa intensidade que gera um deleite intelectual metafísico, orgânico e que mexe com as entranhas, da coceira.

Nas sessões do Berlinale Shorts encontra-se uma imensa diversidade em estética, temática e formas de contar uma história específica. Quem está ali para assistir os filmes, está muito a fim de aventuras estéticas e temáticas. A gente quer pagar pra vê.

Quase sempre de macacão azul expressando um Understatement por um lado, mas usando óculos pretos com armações sempre de última moda, a curadora de nome cumprido, residente na cidade de Hamburgo se encontra num estado intelectual e de espírito que o inesquecível e Workoholic Frank Zappa, denominava de On Duty. (Sempre na atividade).

Maike Mia Höhne está sempre à procura dos melhores filmes para a próxima edição da Berlinale. Festivais de curtas pela Europa são algumas das estações que ela percorre. Uma conexão especial, bem nítida na programação dos últimos anos da mostra, é com o melhor do cinema autoral português, o país que atualmente vive um excelente momento e vem formando uma safra de excelentes diretoras e diretores que vem arrebatando público e júri nos festivais pelo mundo, mas especialmente nos festivais de categoria A.

 

Diogo Costa Amarante: © Heinrich VölkelBerlinale 2017/Foto Mark Toscano: © Dave Filipi

O diretor português Diogo Costa Amarante, em 2017 premiado com o Urso de Ouro na categoria de Curta Metragem com o filme “Cidade pequena”, este ano faz parte do júri que decidirá sobre os melhores curtas da sexagésima oitava edição. Formando o trio do júri estão o curador e cineasta americano Mark Toscano e a cineasta, professora universitária e pesquisadora sul-africana, Jyoti Mistry.

Escolhas

Mesmo quando não se está de acordo com as escolhas de Maike a ponto de se ver frente à tela de cinema e se auto-indagar: Como alguém forneceu um centavo sequer para realizar esse filme???

No caso de 2018, o filme Burkina Brandenburg Komplex do diretor Ulu Braun é o melhor exemplo de uma sensação de total rejeição. Porém, não há como não constatar, até mesmo em frustrantes momentos, a constante procura de Maike Höhne por formas de se contar histórias. Quem a vê durante o festival ou mesmo nas coletivas de imprensa percebe ela não está ali só porque é super cool, poderosa por ser curadora da mostra de um dos melhores festivais do mundo. Transparece uma obsessão e como ela mesma declarou em entrevista ao Blog, a procura dos filmes já é um prazer imenso. A naturalidade autêntica da curadora dos curtas se reflete na sede de conversas por parte dos cineastas e por parte do público. Ela é o motor dessa eletricidade palpável e sentível no ar para quem se encontra nas salas de cinema que projetam os filmes do Berlinale Shorts.

No preâmbulo das cabines que, para jornalistas radicados em Berlim, inicia na metade de janeiro, Maike Mia Höhne falou, exclusivo, com o Blog:

Era uma segunda-feira e ao expressar meu pedido, espontâeneo de uma pequna entrevista e a assessora de imprensa informara que ela estava “a caminho” vindo de Hamburgo. Entre uma cabine e outra, sentamos numa poltrona ali mesmo no cinema Arsenal, no sub-solo do Museo Alemão de Cinema e TV.

FL: Qual a sua maior expectativa em relação a próxima Berlinale ?

MMH: Me alegro especialmente com as conversas com o público (Q & A’s). As projeções e as conversas com os cineastas & público, o momento em que o filme aparece pela primeira vez na tela e todos estão ansiosos…É muito legal…

O público da Mostra Curtas é muito aficionado. Isso fica bem claro nas projeções.

Temos um público muito aberto, mas que expressa o perfil do público de toda a Berlinale. Outro dia mesmo falei com uma amiga que trabalha no setor da moda e que está doida para “ver 3 filmes por dia”. É um momento mágico quando todos marcam presença, isso expande o cinema. Meus filhos comparecem sempre, pra eles é um o festival é ponto certo na agenda. É verdade, o público é aficionado e esperam não “somente” embarcar numa só viagem, mas em várias e cada uma dura 20 minutos.

Como está a presença das mulheres nos Curtas em 2018?

Ao contrário. É importante que vocês (jornalistas) reportem sobre isso. Precisamos de mulheres que escrevem sobre o trabalho de mulheres. Quando isso não acontece, as mulheres cineastas continuam invisíveis. Temos entre 35% e 40% mulheres na mostra deste ano. Foi aquilo que conseguimos pesquisar sobre quais são as produções que estão acontecendo. Eu vejo isso de forma muito pragmática: Os filmes precisam chegar no cinema, é necessário que seja escrito sobre os filmes. Onde saem fotos deles? Em que jornais se escreve? No final das contas é sempre a mesma coisa. Qual é o significado que é dado às obras de mulheres, o que ajuda na hora da venda do filme. Cineastas portuguêses gozam de uma imensa liberdade, quando se tratta de contar história do século XXI. O cineasta João Viana, declarou em 2013: “Os portugueses são os poetas e a arte do século XXI é o filme, mas é preciso ter verbas”, em voz decidida. Quando mencionei o filme “Russa” dirigido por João Salaviza, ela não pestanejou. “Esse file não é o máximo, nao é o máximo?” Dividimos a mesma eletricidade por esse filme, mas também pela cinematografia do diretor português mais expoente no momento, quando se trata de Curtas-Metragens.

O quão importante é a presença do cinema português em Berlim?

A presença do cinema português é super importante na forma livre e descompromissada de contar histórias. Salaviza, por exemplo, quer inclusão, participação. Como curadora eu vejo a necessidade em apoiar isso. Com “Russa” ele usou uma forma híbrida, com um toque documentário. Esse filme mostra o que acontece quando você não tem um Lobby.

“Russa” conta a história de famílias do bairro de Aleixo na cidade do Porto e que sofrem com o galopante fenômeno urbano da gentrificação em prol dos especuladores imobiliários.

A que se deve a presença constante do cinema português na mostra de Curtas-Metragens?

Cineastas portuguêses gozam de uma imensa liberdade, quando se trata de contar histórias do século XXI. O cineasta João Viana, declarou em 2013: “Os portugueses são os poetas e a arte do século XXI é o filme, mas é preciso ter verbas”, diz ela com voz decidida.

Quando mencionei o filme “Russa” de João Salaviza, ela não pestanejou: “Esse filme não é o máximo, não é o máximo?” e dividimos o momento em nos sentirmos eletrizadas pelas histórias, em forma e conteúdo, de João Salaviza.

O quão importante é a presença do cinema português em Berlim?

A presença do cinema português é super importante na forma livre e descompromissada de contar histórias. Salaviza, por exemplo, quer inclusão, participação. Como curadora eu vejo a necessidade em apoiar isso. Com “Russa” ele usou uma forma híbrida, com um toque documentário. Esse filme mostra o que acontece quando você não tem um Lobby.

“Russa” conta a história de famílias do bairro de Aleixo na cidade do Porto e que sofrem com o galopante fenômeno urbano da gentrificação em prol dos especuladores imobiliários.

Entre os filmes brasileiros na mostra Berlinale Shorts estão:

  1. Alma Bandida”, dirigido por Marco Antônio Pereira (15 Min)

©Berlinale

2. “Russa”,. Dirigido por João Salaviza (foto) & Ricardo Alves Júnior, em coprodução com o Brasil (20 Min)

©Berlinale

©Miguel Manso

3. “Teremoto Santo”, dirigido por Bábara Wagner & Benjamin de Burca (20 Min).

©Berlinale

A Berlinale acontece entre 15 e 25 de fevereiro.