Berlinale: De táxi com Jafar Panahi pelas ruas de Teerã

Fátima Lacerda

13 de fevereiro de 2015 | 18h36

A nota política da Berlinale está intrinsecamente acoplada com a história do festival criado em 1951 no setor britânico da então cidade dividida.

“Filmes nos ajudam a compreender o que se passa no mundo” disse certa vez Dieter Kosslick, diretor da Berlinale. Segundo ele, o cinema nos oferece uma visão ampla, bem diferente de alguns meios de comunicação.

FIPRESCI

Os críticos seguiram a linha do festival. Um sinal político enviado para o governo iraniano, que ainda mantem a proibição de Jafar Panahi em fazer aquilo que, como ele mesmo inúmeras vezes já declarou, é a essência de sua vida: Cinema.

Já mencionei anteriormente que me instiga a procura de histórias num espaço urbano. Pessoas, suas biografias, seus percalços e superações.

“Táxi” começou correspondendo essas expectativas. Um diretor de cinema, famoso em todo o país, e obrigado a ganhar seu pão como motorista de táxi e, como o expectador logo irá constatar, sem conhecer as ruas da cidade.

O primeiro fator de estranhamento cultural que se desvenda nas primeiras cenas do filme é que no Iran, o táxi e como um lotação, tipo Van. Os passageiros vão entrando enquanto tiver lugar e a direção do trajeto for a mesma. Um passageiro beirando os 30 anos,  descolado e sem medo de ser feliz, senta no banco da frente. Logo em seguida, uma mulher na faixa dos 35 se acomoda no banco de trás . O cara, querendo marcar terreno, inicia uma discussão sobre o que fazer com ladrões que roubam pneus de carros. “Pena de morte!!”, provoca. “Outro dia o meu cunhado queria apanhar o carro para ir para o trabalho e chegou lá e, ao invés de pneus, deparou com 4 pedras. “Um cara desses deveria ser executado imediatamente ”. A discussão esquenta. Panahi só intervém para garantir a continuidade da disputa que se da entre o homem e a mulher. O ápice se concretiza quando ela começa a desafia-lo com argumentos plausíveis enquanto ele continua apostando no polêmico, no superficial até que, depois de bufar devido a um desespero pela falta de instrumento intelectual, ele apela para o pessoal e esbraveja: “A Sra. não entende nada do que eu digo!” e indaga “Qual é a sua profissão ?”. “Sou professora”responde. Abrindo um sorriso de desprezo ele, com o peito cheio de orgulho achando que descobriu o ponto fraco da adversária, diz: “Ahnh!. A Sra. passa o dia inteiro contando historinhas para crianças” e abrindo um sorriso de quem acabou de encontrar a saída de emergência, diz: “Mesmo que a Sra. não o tivesse me dito, eu saberia”.

Quando ela pergunta, “E qual é a sua profissão ?” ele, já opta pela dissimulação : “Quando eu sair do carro, eu lhe digo”. Ao descer do taxi, revela: “Sou trombadinha”.

O diálogo que parece bem informal é a mensagem política de Panahi sobre a intransigência jurídica do seu país e a passageira é a versão humanista, a voz de Panahi.

201511112_3.jpg©Berlinale

O filme vai super bem até que a sobrinha do diretor entra no carro. Uma menina super esperta, falante e inteligente e orgulhosa de poder contar na escola que tem um tio que é diretor de cinema. A partir dai, o filme se torna previsível, a viagem do táxi enfadonha por abdicar do externo . “Táxi” mostra instigantes cenas das ruas de Teerã  nos faz cúmplice, principalmente com a deliciosa atuação do vendedor de filmes piratas que entrega em casa. Hilário!

Um dos fregueses estuda na Faculdade de Cinema e pede uma dica sobre quais os filmes deve assistir e lamenta ainda não ter encontrado um tema para fazer um filme: “Você mesmo tem que encontrar o seu tema, mas pra isso você tem que sair de casa”, diz o diretor que, mesmo sendo convidado inúmeras vezes para entrar, rejeita de forma galante a oferta.

“Táxi” é um filme cheio de falhas, algumas delas se viram ao seu favor, mas acima de tudo é a expressão do desespero de um diretor impedido de exercer sua arte. Mais do que isso, a solidão artística, são explícitos numa das cenas finais do filme quando ele sai do carro, deixa a sobrinha no banco do acompanhante, anda uns passos de costa para a câmera  e retorna logo em seguida, sem que essa cena tenha qualquer relevância para o filme.

A premiação dos críticos consta como um termômetro para a premiação do júri internacional que acontece na noite de sábado (14) no Berlinale Palast. O clima de jornalistas iranianos na cerimônia da FIPRESCI não poderia ser de melhor, mesmo com aqueles que – politicamente – não simpatizam com o posicionamento critico de Panahi.

No discurso da noite de abertura, a Ministra da Cultura, se referindo a responsabilidade politica do festival, disse: “Dieter Kosslick deve continuar convidando Jafar Panahi até o dia que ele possa vir a Berlim”. Entretanto, exibir e premiar filmes “somente” sobre o prisma político, seria também ir de encontro a essência do festival.

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