Depois da despedida de Obama, Merkel procura novos aliados para manter de pé a “Casa Europa”

Fátima Lacerda

18 de novembro de 2016 | 21h10

Grande parte do mundo ocidental está em pânico sobre a vitória de um republicano que, na reta final, foi até mesmo abandonado pelo chefe do seu partido, fato inédito na história de eleições presidenciais dos EUA.

Trump veio, viu e venceu

Hillary Clinton caiu da cadeira e Donald Trump, o qual tudo indica que não contava com a vitória, mas queria fazer história de sua maneira e agora terá que pagar pra vê.

Enquanto Obama encantava os berlinenses, sugeria na coletiva de imprensa de quinta-feira (17) que “os alemães devem prezar Angela Merkel” e, pegando onda no ponto de interrogação fictício sobre se chanceler irá se candidatar mais uma vez em 2017, Obama declarou: “Se eu vivesse aqui (Alemanha) eu não poderia votar, mas iria fazer campanha para ela“.

As notícias que vão vazando sobre a formação do gabinete do republicano deixam ratificam o que a revista Der Spiegel prognosticou na edição desta semana: “O fim do mundo, da forma que a gente o conhece”.

Durante 3 dias as ruas do centro da capital concernente ao espaço físico e a incapacidade de ir e vir se assemelhavam à época da Guerra Fria. Policiais vindos da cidade portuária de Bremen, da Baviera, não sabiam informar sobre como seguir caminho driblando e desviando de inúmeras ruas interditadas.

Os hóspedes do Hotel Adlon tiveram que enfrentar filas homéricas em tarde chuvosa. Para amenizar o transtorno, a diretoria do hotel disponibilizou champagne grátis para quem aguardava adentrar seus aposentos. 

A coletiva

O esperado momento que iniciou com mais de uma hora e meia de atraso, resultara especulações por parte dos jornalistas: “Séra que tem desentendimento?. Os âncoras nos estúdios de TV tentavam encher linguiça. Quanto mais Obama e Merkel demoravam, mas fantasiosas se tornavam as especulações.

Da assessoria de imprensa chegava a Info: “Eles já entram no elevador”. Como os dois não chegavam, a zoeira em torno do elevador não demorou a fazer a roda. O repórter da emissora de TV, RTL mandou: “Tem que fazer inspeção nesse elevador”. Depois: os intérpretes já tomaram seus lugares nas cabines” e a conclusão: “Não vai mais durar muito tempo”.Temas como a Guerra na Síria, sanções à Rússia ficaram, como diz o jargão daqui: “na segunda fileira”. Merkel foi, como quase sempre, uma atenciosa anfitriã e depois de longo agradecimento “à parceria”, deixou a palavra com o convidado. Ao mencionar sobre “momentos difíceis” se referindo ao escândalo envolvendo o grampear de seu telefone celular, Merkel manteve a postura e fez uma autocrítica bem ao largo ao mencionar sobre a salada entre os serviços secretos dos dois países no contexto do escândalo que teve como protagonista a NSA.

O interesse dos jornalistas por terem à sua frente o homem mais poderoso do mundo era de se esperar. O outro lado da moeda foram protagonizados por ansiosas perguntas que tiveram, e só poderiam ter uma resposta teoria. Nem Obama nem ninguém sabe como se dará a nova ordem mundial sob o governo de Trump. E como ninguém sabe é fácil embarcar no discurso do medo como fez a emissora global ao reportar, tanto no JH como no JN sobre Berlim. Independentemente da teimosia errônea de chamar Merkel de “Primeira Ministra” a matéria veiculada no JN teve um texto sombrio enigmátíco e o Muro de Berlim foi tirado do fundo do baú para uma comparação pueril, para dizer ao mínimo: “A cidade que derrubou seu muro para renascer”. O mundo não precisa o verbo renascer implica estar morto, no mínimo sonolento, letárgico. Tudo o que Berlim não foi nos anos de luta que antecederam a queda do muro.  

A transição do governo Obama e Trump não chega nem perto do que foi a luta de décadas de movimentos oposionistas: na Polônia e pelos movimentos oposicionistas da Alemanha Oriental. 

Obama Superstar

O presidente americano já deixa muitas saudades tanto nos alemães como na opinião pública. Uma senhora alegou na TV regional de Berlim que veio da cidade de Halle, leste do país e estava em êxtase por Obama tê-la assenado ao deixar o prédio da chancelaria federal. Garotas na idade de quem é fã de Justin Biber ficaram estéricas ao ver o presidente: “Ele é o cara mais poderoso do mundo e parar para acenar pra gente. Isso é incrível“. Ratificando seu estilo pessoal e como chefe de estado, Obama se deixou filmar com um copo de plástico de café enquanto ia para o Hotel Adlon. A aura da mídia, até mesmo da que se diz séria, foi de demasiada euforia. Os dois principias meios de comunicação, a emissora de TV WDR e o portal Spiegel Online se reuniram com o presidente para entrevista. Fora um discurso em tom humanista, preocupado, mas sem efeito, Obama ficou bem na foto. Nada mais. Nada menos. 

O presidente coqueteou: “Você como chefe de estado viaja muito, mas não vê quase nada das cidades. Eu pretendo voltar aqui com Michelle e fazer Sightseeing”. O chefe do portal Spiegel Online pergunta: “Sem equipe de guarda-costas?”. Sorridente, muito simpático, Obama responde: “Talvez um pequenininho” ratificando a resposta com o gesto da mão. O telespectador merece mais qualidade no veicular de matérias, especialmente se elas são realizadas por emissoras abertas, com um compromisso explícito em informação.

Merkel à procura de aliados

A chanceler que teve seu segundo maior momento desde ocupa o governo quando Barack Obama a “elogiou no céu”, como diz um ditado popular. O primeiro, provavelmente, foi ao receber a Medalha Presidencial da Liberdade concedida pelo presidente americano em 2011. Ao ser perguntada por uma jornalista da Agência Alemã de Notícias, a DPA, se a despedida seria difícil, Merkel, para não entrar na saia justa, ensaiou um easy going. Olhando para Obama, esticando o braço direito, disse em tom de tamo junto: “Claro, quando você trabalha muito tempo junto. Além do mais, a gente não está sumido no mundo, como falamos em alemão.

Obama, sorridente, fez o sinal de telefone, o que nos remeteu imediatamente para a, decerto, parte mais sombria e nada harmônica do Casal 20 da política mundial. Depois da trilha final de Obama; pior que isso: a derrota dos democratas, Merkel ficou sem seu principal aliado.

François Hollande

O presidente francês está com a corda no pescoço batendo seu próprio recorde em piorar o percentual de aceitação pelos franceses se aproximando da marca de 13% de aceitação, marca que já havia contabilizado em 2014. Como veiculou em junho deste ano o jornal “Le Journal du Dimanche”. Em toda a história da República Francesa, nenhum presidente foi tao pouco popular. As eleições presidenciais marcadas para o início de 2017 são uma carta em branco. O conservador Philippe de Villiers, presidente do “Mouvement pour la France” já expressou ambições.

Matteo Renzi

O chefe do governo italiano terá que enfrentar um referendo sobre mudança na constituição. Renzi decidiu por acoplar o resultado do referendo ao seu futuro político e alegou que se os italianos votarem pelo “Não”, ele irá renunciar e não estará disponível em ajudar na formação de um novo governo. Duas semanas antes do referendo, as pesquisas atestam que os italianos votarão “No”.

Theresa May

A premiê britânica se mostrou muito simpática no breve pronunciamento com a chanceler na manhã de sexta-feira (18). Não se falou sobre BREXIT, não “somente” para evitar constrangimento, mas porque já está sacramentado que o requerimento a UE será feito em março de 2017 e o foco temático na saída do Reino Unido da UE teria reduzido a legitimacao de May no encontro dos 6. (Merkel, Holland, May, Rezi, Roya, Obama).

May fez questão de focar no guerra da Síria e na situação em Alepo. A premiê garantiu que a Inglaterra irá apoiar tentativas da UE de resolver o conflito”: “A luta contra o terrorismo, a Síria, a Russia, serão problemas nos quais continuaremos trabalhando, mesmo depois que a Inglaterra deixar a UE”, garantiu.

O tema de “Combate às causas de fuga” do continente africano foi uma constante nas conversas com todos os chefes de estado.

Mariano Rajoy

O último dos moicanos na lista dos aflitos em Berlim foi o premiê espanhol, eleito no final de outubro, depois que a Espanha ficou, de fato, 300 dias sem um governo acertado. A situação de Rajoy que é líder do Partido Popular Espanhol, não é diferente a de Hollande. Na votação no final de outubro no congresso, 170 votos a favor, 111 contra e 68 abstenções. A cartilha de um governo que goza de amplo respaldo é bem outra. A Rajoy só restou o governo de minoria. Mesmo assim. Ameaçada de ficar sozinha na “Casa Europa” Merkel foi, ao mesmo tempo solícita e de estrategia. Iniciou, como de praxe, com dados estatísticos: “No ano que vem teremos a comemoração da abertura da primeira Câmara de Comércio alemã na Espanha. O país também acabou de completar 30 anos como país-membro da UE” , com uma “ajudinha” do ex-chanceler alemão Konrad Adenauer.

Dando como motivo a primeira visita oficial do premiê espanhol depois de eleito, ela fez com ele uma coletiva separada, logo depois de oferecer um almoço à ele a à sua comitiva. A mesma jornalista da coletiva de Obama perguntou se Merkel se vê como “a última governante do mundo livre ocidental” e e a Espanha é o parceiro que ela procura. Sem se deixar tempo para entrar numa saia justa, Merkel desconversou: “A Espanha é um parceiro muito importante para nós, mas eu não quero agora estabelecer hierarquias“.

Merkel e Rajoy falaram sobre a necessidade do combate dos motivos de fuga das populações africanas e declararam estreitar a cooperação com a Líbia.

Justificando de sua parte a estreita cooperação com a Alemanha, Rajoy não poupou nas estatísticas: “A Alemanha tem o maior PIB da Europa, é o mais número 1 em exportação e o de maior renda per capita do continente europeu.”

A humildade de Rajoy perante a Merkel mostrava claramente que era a anfitriã, mas também continua no comando da Europa. Porém Merkel tem um grave problema: os próximos anos serão de desafios nunca anteriormente cogitados. Agora não é “somente” será necessária a brilhante capacidade de “empresariar crises” da chanceler concernente à crise dos refugiados, mas agora a Força-Tarefa será o bater pé e teimar nos “valores comuns” que ela tantas vezes repetiu na coletiva com Obama.

Agora na basta focar em evitar o desabamento da “Casa Europa”, acometida por uma peste chamada populismo de direita, mas agora é manter a casa erguida e enfrentar e estar preparada para o pior quando se trata do outro lado do Atlântico. Obama tem seus méritos, mas quebrou a promessa em não fechar Guantánamo, deixará saudades não “somente” pelo seu sucessor, por ter tirado milhões de americanos de uma situação indigna de nunca terem tido um plano de saúde, ter mostrado que um presidente pode sim, ser humano, se mostrar apaixonado pela esposa e orgulhoso das filhas, além de se deixar fotografar no mar de sua cidade natal, o Hawaí. Entretanto, em Berlim valeu o gesto. Faltou o conteúdo. Não por culpa do presidente do qual, frente ao que vem por aí, já se sente saudades, mas pelas circunstâncias.

   

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