Depois de Paris e Hanover, a ânsia pela volta à “normalidade”

Fátima Lacerda

18 de novembro de 2015 | 07h57

Uma forma de trabalhar o choque do massacre em Berlim, eu encontrei em falar com amigos que lá vivem ou com amigos, com quem lá, recentemente estive. Entre eles, está a uma fotógrafa brasiliense. Nos encontramos em Paris, nos divertimos, gastamos sola de sapato à procura do melhor caminho para chegar a Praça da República, degustamos juntas as delícias da gastronomia francesa. Foi com Paula que eu somente dois dias depois do massacre, consegui conversar numa tentativa de dividir a dor, já que também ela, andou muito por Paris nesse ano que está prestes a acabar. Num certo momento, com sua dialética brasuca do copo sempre meio cheio, ela disse: “Espero que fique tudo bem e as coisas não se agravem”. Confesso que não divido esse otimismo. Nos últimos 10 meses estive 3 vezes em Paris, cidade que desde então, tem uma grande importância direta na minha história  e já na última estada, senti uma tensão que vem do medo e que, mesmo disfarçada, em lugares de grande massa, me deu a certeza de que não seria aconselhável e que eu não poderia voltar em breve.

A confraternização através futebol

Na noite de terça-feira (17), tanto em Hanover, no estádio do clube Hannover 96 quanto no Wembley, em Londres, era para ser uma mensagem do mundo civil contra o cultivo do medo plantado e regado pelo chamado Estado Islâmico. Como disse Anne Hidalgo, a prefeita de Paris: “Esse é um momento de dor, mas Paris está ai”, certificando que Paris não irá sucumbir. Bem perto do apito inicial do jogo, a partida entre os arqui-rivais Alemanha e Holanda, foi cancelada. Apesar de equipes de busca da polícia regional da Baixa-Saxônia terem passado o pente fino no estádio durante toda a tarde e não encontrado nada, o jogo foi cancelado. Segundo fontes da imprensa alemã, o aviso sobre a tentativa de um atentado a bomba durante a partida, teria vindo do serviço secreto francês. No “final de tudo” não houve atentado, nenhum ferido. Entretanto: ao invés da tentativa de desestruturar o medo coletivo que rege nos dois países, mostrando unidade num estádio de futebol e deixar de lado a rivalidade, seja ela entre a Holanda e Alemanha ou França e Inglaterra, o medo coletivo acabou sendo ratificado. Foi precoce demais a decisão do governo Merkel em querer demonstrar unidade contra o terror no camarote VIP da Arena em Hanover. Uma caricatura do semanário Charlie Hebdo toca na ferida mostrando um cenário bem parisiense: franceses com uma baguete debaixo do braço. Entretanto, a caricatura mostra anjos e o letreiro do lado, reflete: “Os franceses tentando voltar à normalidade“.

Charlien.jpg©Charlie Hebdo

A expectativa de Paula, não vingou. Nem podia. Babette, minha amiga e aquela que me obriga a falar francês o tempo inteiro quando estou na capital é uma das pessoas mais otimistas e mais pra cima que eu já conheci. Depois da noite mais escura da Europa nos últimos anos, agora, quando conversamos, dividimos as nos perplexidades e nossa consternação tentando entender, digerir. As brincadeiras sobre o meu carioquismo e o meu “lado berlinense” se dizimaram. Ela conta que não tem coragem de andar de metrô e que até parou de fazer suas caminhadas no início do amanhecer. As nossas conversas, outrora muito vivant, agora se tornaram verdadeiras reflexões políticas sublinhadas pelo medo, por motivos óbvios, o dela bem mais latente do que o meu. Entretanto. A manhã cinzenta de quarta-feira na Alemanha se faz sentir como um bolo de feijão que ficou entalado na garganta. O jogo de ontem em Hanover, mesmo que não servisse para dizimar o medo, teria sido um gesto de início de superação do choque. Não rolou. Já no estado de Wembley, ingleses e franceses conseguiram mandar a mensagem de negação do medo, cantando juntos, o hino La Marseillaise. Só uma tragédia como em Paris faz os ingleses esquecerem a rivalidade futebolística.

A capa do jornal Bild de terça-feira (17), mostrava um homem vestido uma burca que só mostrava os olhos com a manchete: “FEIND” (Inimigo), o mesmo jornal que afirma na edição desta quarta-feira (18) que, aos poucos, Hanover volta à normalidade.

A estigmatização do islamista radical como um que sai na rua com a burca só deixando os olhos à mostra é tão obsoleta quanto perigosa por ser tendenciosa gerando conflitos reais e instigando a intolerância nos bairros com grande número de muçulmanos como Kreuzberg, Neukölln e Wedding. 

No mais tardar, depois do ataque à redação da revista Charlie Hebdo, com assassinos com passaporte francês e dominando o idioma de forma impecável, sem nenhum sotaque e que cresceram e foram socializados na França, já não cola mais a imagem, nem do barbudo Salafista, do movimento conservador que faz uma abordagem literal, rigorosa e puritanas do Islã, nem do homem usando a burca e muito menos ainda a origem geográfica da pessoa. Anders Behring Breivik, o responsável pelo massacre na Noruega em 2012 era um solitário mór, planejou e executou tudo sozinho. Como diz a música de Lenine: “Ninguém faz ideia de quem vem lá“. A volta à normalidade, se é que ela é realmente possível, tanto em Berlim como em Paris está longe de ser atingida. Se esse dia chegar eu vou saber quando, sem pestanejar, poderei reservar uma passagem de trem para parisiar com Babette, Leon, Edmundo e Marco.

Links relacionados:

#TodosSomosParis

Lenine em Paris no projeto “En Cité de la Musique“: https://www.youtube.com/watch?v=NddwbJem3ug

http://www.berliner-kurier.de/home/7168224,7168224.html

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.