Diário de uma viagem: Berlim-Lisboa – Parte I

Fátima Lacerda

08 Janeiro 2017 | 18h47

 WIN_20161228_122904

Logo depois do feriadão de Natal, deixei Berlim para uma viagem que estava planejada desde setembro. Sua característica logística exigiu disciplina e determinação prussianas: Berlim – Lisboa – Barcelona – Berlim.

O solo que deixei foi um solo ainda em estado de petrificação devido ao ataque ao Mercado de Natal que aconteceu na chamada City-West, lugar onde frequentemente passo e que durante semanas passei, já com o evento comercial natalino no local. Era impossível não pensar no que poderia ter acontecido, tivesse eu voltando da fisioterapia ou da dentista como fiz tantas vezes. O medo que é alimento mór da dialética e do discurso alemão, estava em seu ápice: o medo de tudo.

A festa de Réveillon da cidade de Colônia também despertava o medo devido o também trauma da virada 2015/16 com inúmeros casos de assalto, assédio sexual e estrupo. Antes e durante o período de Natal, a tensão era focada totalmente se a polícia da região da Renânia do Norte Vestfália “daria conta do recado” além do debate e questionamento também sobre a “segurança” do Réveillon em Berlim, a mega-festa  que acontece em frente ao Portão de Brandemburgo e depois da do Reveillon de Copa que ocupa o primeiro lugar, a segunda mais famosa e mais expressiva. Desse solo gélido e depois de 3 dias seguidos de vendaval, algo totalmente inusitado para a climática berlinense, lá embarcava eu para Portugal, “a casa pobre da Europa”, como denomina o jargão midiático na Alemanha.

O voo Berlim-Lisboa pela TAP teve turbulências homéricas, exatamente devido aos 3 dias de vendaval. A aeromoça acabara de servir o lanchinho, e o avião balançava como uma máquina de lavar no final da lavagem de roupa. “Eu sabia!”, disse a simpática alemã ao meu lado. A mesma que me aconselhou a não comer balas “sem açúcar”, já que o ingrediente que é usado nessas balas causaria demência e até diabetes. “Por causa dos dias de vendaval, está essa turbulência terrível!”, explicou. Os alemães, simpáticos, solícitos ou não, tem sempre uma resposta pra que o mundo te pareca um lugar previsível.

WIN_20161229_160125WIN_20161229_184405

Os passaredos…

Não bastasse ter um apartamento de cobertura que ficasse num lugar estrategicamente perfeito, a poucos passos do Rossio, centro turístico e comercial e do Bairro Alto, da mundialmente famosa boemia lisbonense. Do lado esquerdo do varandão que ia, como diz meu pai “de fora a fora”, um pé de suculentas tangerinas. Porém, essas se encontravam na parte de cima da árvore, nos dando um colorido verde laranja todas as matinas antes do café da manhã (ou “pequeno almoço” como dizem os portugueses), sem uma escada não era possível pegar provar da suculenta tangerina. Essa ânsia, ficou na vontade. Outras tantas foram satisfeitas e armazenadas para tempos de um inverno glacial em Berlim. Uma delas cafés memoráveis no “A Brasileira”, o ponto de encontro, o must see para quem visita Lisboa e uma possiblidade de encontro com o eterno Fernando Pessoa.

WIN_20161230_125438WIN_20161230_123539

Viver Sem Tempos Mortos

Num momento de convulsão e de permanente ataque terrorista, Portugal e Espanha estão contabilizando recordes no setor turístico. Antes, os europeus optavam por viagens baratas para o Egito, Marrocos, Tunísia. Agora, o foco turístico na Europa se concentra em Portugal e Espanha e esse assunto é uma constante nas conversas de bares e restaurantes. A propósito restaurantes: Lisboa topa o desafio de receber turistas sem pestanejar e sem dormir no ponto e sem estorquir dinheiro dos turistas como acontece, atualmente, em Barcelona.

momento-hb-fachada-34310

O Restaurante “Momento”, por exemplo, é uma excelente pedida para que buscar delícias da cozinha portuguesa preparada com talento e requinte. Localizado na Rua da Rosa 151 e, felizmente meio escondido, você não encontrará ali turistas espalhafatosos,  espaçosos, mas verdadeiros degustadores de uma excelente cozinha num ambiente de discreto requinte. O triunfo do “Momento” é o talento do cozinheiro Helder Branco, que junto com seu pai faz o empresariado do restaurante que existe somente há 8 meses e já encanta os degustadores da boa comida lisboeta. Um olhar nos portais Fork ou TripAdviser exibe o regozijo dos que já conferiram a qualidade do restaurante.

Pesquisei muito sobre culinária antes de adentrar a capital lisboeta. O Via Graça, com o chefe João Bandeira tem uma vista do Tejo de tirar o fôlego e o jantar de Réveillon não chega nem a tomar lugar no site do restaurante, já que os ingressos para uma noite de requinte e deleites gastronômicos, fica esgotada 3 meses antes.

O “Momento” não tem vista para o Rio Tejo. Nem mesmo para parte nenhuma de Lisboa. O foco aqui é mesmo a culinária. Mas não há como não louvar a delicadeza do cozinheiro-chefe que não é daqueles que toda a hora vai à mesa para perguntar se “está tudo bem”. Tivemos o lugar mais privilegiado do restaurante. Na lateral do balcão. Ao nosso lado, um casal inglês. Mais lá na frente, uma família italiana. Quando chegamos, foi o próprio Helder que foi a porta receber-nos. O restaurante estava abarrotado, mas a nossa mesa lá, vazia, reservada e esperando por nós. Logo de início, um vinho rosé para saudar-nos.

WP_20161228_21_17_08_Pro

Em cima do balcão, latas de sardinhas, que fotografei, depois de perguntar estaria ok. A funcionária atrás do balcão, muito simpática e comunicativa, vinha sempre a nós para responder nossas inúmeras perguntas e curiosidades.

WP_20161228_21_28_24_Pro

A entrada foi Pastel de Nata de Bacalhau. Isso mesmo. A mistura das duas mais conhecidas iguarias da cozinha portuguesa. Os pastéis, como todo o resto são feitos na hora, mas os minutos de espera não são uma tortura, mas fazem parte do processo de degustação consciente e prazerosa. Nesse quesito os italianos são campeões do mundo e não temem em exacerbar essa dinâmica ao máximo. Mas em Lisboa tudo é mais tranquilo, mais sereno, mais gostoso.

O prato principal escolhido foi lasanha de verduras. Nunca vi uma lasanha feita de forma tão filigrana e tão deliciosa. Até mesmo minhas lembranças de infância de lasanha do La Mole na Barra depois da praia, foram desbancadas; no quesito paladar, não no quesito memória emocional gastronômica. Não conseguimos comer tudo no mesmo dia. Jogar fora, nem pensar. Pensar em levar o resto de comida pra casa, não é brega e nem caipira. Ao contrário de Terra Brasilis onde jogar comida fora é useiro e vereiro, na Europa isso é o maior mico além de ser inadimissível. Na Alemanha, então, irá angariar olhares de repúdio total. 

Quando pedi de sobremesa o musse de chocolate, brinquei com o chefe dizendo: “Vamos ver se o seu musse é melhor do que o meu”. Quando a sobremesa chegou e a versão lusitana era de um musse com lascas de pé de moleque em cima, em contraste à consistência sofisticada e cremosa do musse, fazendo um golaço, ai foi covardia. Não há como competir com pé de moleque! Ainda mais se ele vem, propositalmente, desestruturando o monopólio da consistência cremosa. 1 X 0 pro Helder!

WP_20161228_22_25_30_Pro

Perguntado por mim, se o pé de moleque seria influência da cozinha brasileira, Helder negou: “No norte de Portugal tem muito pé de moleque.

A concepção

Antes de chegar a hora da visita, eu recebera 3 e-mails do restaurante: uma confirmação no dia da reserva, um lembrete 3 dias antes e um lembrete no dia da visita.

Depois do jantar, em conversa informal ao lado do balcão e antes dele me levar á cozinha, transparente através de um vidro muito espaçoso ao invés de uma parede de concreto, Helder Branco conversou com o Blog:

HB: Fizemos o restaurante aqui (Bairro Alto), pensando no turismo. O restaurante tem 9 meses, é recente e está muito bem.

FL:Vocês tem um marketing meticuloso no restaurante, um marketing muito profissional. Eu mesma recebi 3 emails concernente à minha visita aqui.

HB:”Esse é um restaurante familiar. O marketing é feito por mim e por meu pai. Nós não distribuímos panfletos e não fazemos nada disso. Unicamente abrimos as portas.

FL: O fato do lugar acomodar “somente” 36 pessoas é intencional para haver um toque de exclusividade?

HB: Queríamos um restaurante com uma capacidade nessa vertente: menos, mais acolhedor, mais familiar. Muitas pessoas traz muita confusão, muito barulho. Queríamos fazer um ambiente mais recatado.

FL: A cozinha brasileira teve alguma inspiração na sua carreira?

HB: Nós temos aqui em Portugal, o Nougat. É tradição em Portugal. Desde pequenininho comemos Nougat feito com amendoim e açúcar (como é chamado o pé de moleque em Terras Lisboetas). Eu quis dar uma textura de contraste no musse.

FL:Qual foi a cozinha que te inspirou?

A nossa cozinha é tipicamente portuguesa. Nós tentamos trabalhar com os melhores produtos possíveis. Temos umas receitas tradicionais com sofisticação.

WIN_20161227_172634 (2)

Brasil em Lisboa

Outro protagonista da cena culinária lisboeta é Eduardo Araújo, ex-ajudante de padeiro e que imigrou pra Portugal há18 anos. Hoje, com 32, ele é o chefe de cozinha restaurante “Carmo” da capital lisboeta.

WIN_20161227_172421WP_20161227_15_51_54_Pro

Lá encontra-se o melhor croquete de carne e o melhor bacalhau à braz que já se viu. O quesito custo e benefício em Lisboa é muitíssimo equilibrado. A diferença entre Lisboa em Berlim é a percepção sobre o cliente.

Em Berlim o cliente é, em esmagadora maioria, um “mal necessário”, quando se trata de preços acessíveis. Claro que o segmento de luxo não está sujeito a essa percepção de que o cliente é um estorvo. Em Portugal a hospitalidade é natural, orgânica.

Assim como no “Momento”, e no “Carmo” os dois quesitos são muito bem harmonizados. O serviço solícito. No “Momento”, um clima de mais comedimento. No “Carmo” um clima mais descontraído. A melhor dobradinha é agendar o Restaurante “Carmo”, localizado no Lago do Carmo perto da estação de metrô Baixa Chiado e reservar no “Momento” para o jantar.

A virada

Depois de 4 anos amarrado por um governo de centro-direita Portugal ousa nadar contra a maré contrariando as tendência políticas de direita populista na Europa, exibe um governo de minoria liderado pelo Primeiro Ministro Antonio Costa (PS) e apoiado por um vasto espectro esquerdista composta por PS, BE, PCP, PEV e PAN, esse último defensor das pessoas e animais e da natureza.

Em conversas com lisboetas, sejam taxistas, produtores de cinema ou donos de restaurante, a satisfação, acima disso, o alívio com o atual governo é um denominador comum dessas conversas com pessoas tão diferentes. Angela Merkel que depois da queda de seus aliados como numa tábua de jogo de xadrez e agora a´”última moicana” que representa com mão de ferro a política de austeridade e a burocracia de Bruxelas não deve gostar nada disso. Entretanto, as preocupações de Merkel em arrumar a própria casa são tantas, que não há cabeça (ainda) para pensar “na casa mais pobre da Europa”. Mesmo porque. Enquanto Portugal estiver cumprindo os critérios da política de austeridade e fora da “zona da degola”, tudo certo!

Enquanto os alemães estão ainda insistindo na dialética do copo meio vazio e de que o mundo vai acabar amanha se o meteorologista do noticia principal assim declarar, em Lisboa o clima é tranquilo, de serenidade, de uma apaixonante leveza, que se expressa ao constatarmos que no último dia do ano, também na capital lisboeta tem a Corrida São Silvestre saindo do Rossio e subindo a Av. Liberdade, um tipo Champes-Élysées de Paris.

WIN_20161228_142218

A leveza, combinada com uma serenidade que deixa qualquer berlinense, ao mínimo, instigado, quando eu, achando ter pego o trem errado para ir à Cascais andar descalça pela praia sob a temperatura de 18 graus, saltei em Estoril e interpelei o funcionário da ferrovia, esse de braços apoiados na porta do trem ainda parado e me olhando como se eu fosse um ET: “Eu acho que eu peguei o trem errado no Cais do Sodré” (Est. ferroviaria), disse eu num tom de tristeza e consternaçao pelo tempo perdido. 

WIN_20161229_113919

Eu quero ir pra Cascais”. “Você quer ir pra Cascais?”, perguntou ele me olhando com olhar sério de professor que acaba de inicial a prova oral na qual eu vou me ferrar: “Sim!”, retruquei. Depois de 20 sentidos segundos, mas ainda com o trem parado, ele disse com uma serenidade de um monge tibetano e como se estivesse me dizendo a verdade mais óbvia do planeta terra: “Essssseee, é o treeeeem que vai pra Cascaaaaais!”. Essa serenidade, nem dando bola para a minha angústia de poder ter entrado no trem errado foram demais para a amargura prussiana, nesse momento, desestruturada, de queixo caído, ao mesmo tempo que encantada pela coolness do portugues.

WIN_20161229_125335

Como bandeira pouca é bobagem, mantive a parada em Estoril, andei pela praia e ainda vislumbrei o “Casino Estoril”, o mesmo que no dia seguinte seria o palco da festa de Réveillon, protagonizada pela poderosíssima Fafá…de Belém!!. Co-incidências, não existem! O universo conspira a nosso favor, ou não!

WIN_20161229_124500WIN_20161229_124753

O Belchior continua tendo razão quando canta: “Viver é melhor que sonhar”. Realizar sonhos, melhor ainda.

WIN_20161228_160002

Depois de mais de duas décadas, o reencontro com Lisboa e a visita à várias cidade de Portugal, especialmente ao Cabo da Roca, o ponto mais leste do continente europeu e meio caminho de casa, foi estar no Brasil sem pisar em território brasuca, foi estar em casa cercada de pessoas esbajando humanidade, bem-humoradas, solícitas, numa cidade muito bem resolvida que é Lisboa, gozando de paz social e tranquilidade.

WIN_20161229_181853

Em Portugal, especialmente na capital, encontrei uma Europa que pensava ter sido dizimada pelo terremoto político e constante ameaça iminente de terrorismo em que vivem a maioria dos países da UE.

Links relacionados:

http://www.restaurantecarmo.com

http://www.restaurantemomento.pt/pt_BR/

http://www.restauranteviagraca.com/