Diario de uma viagem: Berlim – Lisboa – Cabo da Roca – Parte II

Diario de uma viagem: Berlim – Lisboa – Cabo da Roca – Parte II

Fátima Lacerda

12 Janeiro 2017 | 22h12

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Um dos mais emblemáticos destinos de viagem em solos portugueses é a ida ao Cabo da Roca, localizada a 18 km de Sintra, 15 de Cascais e 40 km de Lisboa. De trem, a viagem dura 45 minutos até Cascais. De lá, pega-se o ônibus 403, que sai de meia em meia hora e precisa de entre 25 a 30 minutos até chegar ao local que até o final do século XIV, pelas falésias ingremes, sua rochas “lixadas” se achava que ali era o fim do mundo.

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A foto do cartaz do filme “Terra Estrangeira” (1995) com os protagonistas à deriva à frente de um navio encalhado, foram o estopim de um sonho, um desejo que viria se realizar no dia 28 de dezembro de 2016. A realização desse sonho foi meticulosamente planejada, já que somente às quartas-feiras e somente até às 16:30 horas, o Farol está aberto. Está, finalmente, prestes a visitar o ponto mais ocidental em terra firme do continente europeu foi recheado de muito frio na barriga. O plano era: Visitar Roca, ir ao Farol e pegar a certidão de que estive lá e depois colocar na parede em frente à minha escrivaninha. 

Viver é melhor que sonhar …

Também o sonho de voltar a Portugal num momento bem diferente de quando o visitei pela primeira vez duas décadas antes, foi acalentado durante ano. Amigos e colegas que retornavam de solos portugueses eram só elogio para a capital portuguesa. E quando alemão elogia algo, é porque é bom mesmo.

Viajarépreciso

Navegar é preciso…

A história contada em “Terra Estrangeira” tinha somente algumas similaridades com a minha biografia de imigrante, mas a ânsia pelo desconhecido, a vontade de viajar, conhecer o mundo na forma mais abrangente possível era uma vertende que me instigava, ocupava, me fazia sonhar em ver outros solos. 

No final de 2016 e, tirando os noves fora tendo vivido mais em Berlim do que no Brasil (por isso a crítica de “brasileiro dando rolé na Zooropa” nao confere). Ao mesmo tempo em que de forma pessoal e profissional igualmente ligada ao Brasil eu queria, nesse final de um ano tão contundente e tão convulsivo, fazer o “meio caminho” para o Brasil e sair de solos depressivos que estavam Berlim. 

“A casa pobre da Europa”

Ao contrário de outrora, quando Portugal ainda era a “ovelha negra da Europa” e ainda mesmo, na atualidade, continuando chamada pelo jargão midiático de “a casa pobre da Europa”, Portugal deu a volta por cima e, ao contrário da Alemanha, conseguiu manter um caráter genuíno, de  um savoir vivre, ao mesmo tempo sem a insustentável leveza dos seres cariocas de que o sol sempre nasce no dia seguinte e como se a “água do caribe” das praias das últimas semanas fossem algo caído do céu e muito menos sem a iminente paúra de que o mundo vai acabar amanhã, dos alemães com sua arraigada dialética do copo meio vazio. Uma leveza e uma saudade dos tempos dos mares, talvez possa ser descrita assim a essência do clima lisboeta, do clima de Portugal. 

Hoje, com um governo composto por um conglomerado de forças esquerdistas e contando com robusta maioria para governar,  Portugal já está forra da zona da degola da política de austeridade e tem no turismo sua maior fonte de renda. Portugal e Espanha são os países que tiram mais proveito da onda de terrorismo que acomete grande parte da Europa e que em dezembro último alcançou Berlim.

Ao contrário daquela cena do filme, quando Alex, vivida por Fernandinha Torres quer vender seu passaporte por 3.000 dólares e o potencial comprador toca na ferida aberta de todos nós na época, quando diz: “Um passaporte brasileiro não vale nada”. Hoje, em Portugal os brasileiros são bem vistos, tratados de forma solícita ao mesmo tempo que nessa recente viagem, me vi confrontada com o equívoco dos “ensinamentos” e piadas de que português é sinônimo de burro. Tudo bem que o sinal de trânsito, avisando quantos segundos ainda falta para ficar vermelho resulta num sorriso maroto pra quem vem de Berlim. Isso tem mais a ver com a influência de solos prussianos e sua filosofia de “você faz tudo sozinho”, intrinsecamente trancado com necessidade de emancipação. Berlinenses não gostam de atitudes paternalistas ou mesmo de um cafuné, em âmbito concreto ou metafórico: sinais com relógio de segundos seria e é totalmente infactível em terras gélidas daqui.

Outros países, outros costumes…

Em Portugal não há horário certo para os ônibus, nem muito menos um cartaz no ponto informando sobre os horários de chegada e de saída. Isso confere especialmente para os ônibus interestaduais. Como compramos o cartão Lisboa Card, que além de acesso livre à meios de transporte e descontos em museus, também garante a viagem grátis para o Cabo da Roca, partindo de Lisboa até Cascais de trem e de lá, com o ônibus 403 que sai de 30 em 30 minutos e isso com uma pontualidade britânica. Devido a um passeio na praia e um café num dos lugares mais deliciosos que encontramos perdemos, por duas vezes, o ônibus que saia do Terminal logo em frente á estação ferroviária por termos chegado 30 segundos atrasadas no ponto e ainda tivemos o “gostinho” de ver o ônibus da perspectiva da carroceria traseira.

Os funcionários da empresa, confrontados com a nossa surpresa pela pontualidade britânica da saída dos ônibus, o funcionário ainda nos alertou, quando notou que tomaríamos um café num delicioso local ali pertinho: “Não vai longe, não, senão vão perder de novo“. avisava ele com voz de professor.

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“É um lugar pra se perder alguém ou pra se perder de si próprio!” descreve um crítico sobre “Terra Estrangeira”. Em “Cabo” se soltam as amarras, aflora a vontade de voar. O encontro das falésias com o mar, a diversidade delas arrebatou minha retina de tal forma, que esqueci completamente em pegar o certificado de que estive lá! Ao contrário do que divulgam portais de turismo, a média de tempo que se fica no lugar em que Camões descreveu como “Onde a terra acaba e onde o mar começa” seria entre 30 minutos e uma hora, nós ficamos ali por mais de 3 sob um sol abençoado e solícito para quem vinha de Berlim, de um inverno glacial.

Visitar, vislumbrar “Roca” não foi um capítulo da “Terra Estrangeira” que a Europa já não é pra mim há muito tempo, mas um encontro especial num lugar à caminho do Brasil. Sim. Caetano tem razão. Minha Pátria é minha língua!

Ao contrário do destino de Alex, que tinha em solo português como metáfora de uma terra estrangeira, ir a “Roca” foi a ansiada e serena junção da minha história. A junção da goiabada com queijo numa confortabilidade que só o tempo possibilita.

Ficamos tanto tempo em postura contemplativa, que perdemos a hora de funcionamento do Farol. Chegando lá, vendo os últimos visitantes saindo, deparei com Ramos de Pina, nascido no Cabo Verde e desde pequeno residente em Lisboa. Ao chegar lá, ele avisou que o Farol estava fechado. Quando eu mencionei que iria fazer uma matéria para a imprensa brasileira e que vinhamos de longe, o tom desse homem simples e de um olhar tenro foi mudando: “Eu vou fechar o Farol e já volto”. Eu, gata escaldada da implacável disciplina prussiana onde não há nenhum centímetro para negociação já que a regra é regra e princípio é sagrado, fiquei sem entender até perceber que com essa frase, teríamos uma visita guiada exclusiva. Esperamos pacientemente na parte térreo do farol aparelhos e história que ratificam a tradição de Faróis em Portugal, esse povo navegador.

Ramos pediu para não ser filmado, mas nos levou pelos dois salões, exercitando com orgulho comedido o trabalho que, segundo ele, faz a 8 meses. Ele também esclareceu que essa atividade é de responsabilidade da Marinha portuguesa.

Depois da visita guiada no primeiro piso, chegaria a hora de deixar pra trás toda e qualquer paúra de altura. No é que o ápice, o varandão do Farol é alto. A escada para chegar até lá, seria um excelente tema para o próximo filme de Woody Allen e daria pano pra manga como lidar com medos frente à realização de sonhos.

Deixar os medos para trás

Eu já subi até a tiara da Estátua da Liberdade em Nova Iorque. Quem passa, mais do que isso, vislumbra o “corpo” da estátua sabe o regozijo que é chegar lá na janelinha da tiara e vislumbrar o Skyline de NY.

No Farol, o primeiro lance de escada ainda tinha degraus mais largos no cumprimento, porém muito íngremes. O chão é cheio de “buracos”. Aqui o mandamento é só olhar pra cima!! Deixamos bolsas e casacos no térreo. Teimei em levar o tablete para documentar um sonho acalentado durante décadas. No último lance de escada, o que tem pra segurar é um corrimão mole, revestido por um tecido avermelhado e o degrau é mínimo! Antes do terceiro eu pensei em desistir. Minha voz interior mentalizava em formato da melhor disciplina prussiana: “Fátima, se você desistir agora você terá a vida inteira pra se arrepender”. Pronto. Respirei fundo e subi os degraus restantes. Os relatos de Ramos não conseguiram me manter parada num só lugar. Corria nas varandas e dei por mim que as falésias do lado direito me lembravam a costa da Escócia e o melhor de tudo. Sem chuva e com um sol já se pondo no horizonte. Ramon ainda nos encantou dizendo querer fazer uma simulação com o farol lá de cima, mas a energia já havia sido apagada.

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Pra baixo todo santo ajuda?

Pedi Ramos para levar meu Tablet com ele e me pus a descer, de costas, os 74 degraus de um lugares mais lindos que já visitei. Muito consciente de ter seu dever cumprido, Ramos nos levou até a porta, se despediu, agradeceu “o interesse” e se foi. E quem disse que eu queria sair dali da frente do portão?

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Fiz ainda mais fotos usando as brechas. O sol havia se posto e o frio aumentava muito. Enquanto meus queridos se dirigiam ao ponto de ônibus que nos levaria de volta a Cascais, a minha retina não conseguia sair daquele portão fechado e muito menos “largar” aquilo que acabara de ver.

Cabo da Roca foi um dos inúmeros encantos de uma país onde me senti em casa. O gesto na foto que exibe eu prestes a mergulhar a caminho do Brasil é mais do que um divertido ato simbólico. O estar em casa se mostrou no dia a dia: quando me emocionei, poucos metros antes de chegar à Praça Marques de Pombal, quando vislumbrei os cartazes na fachada do prédio da sede da Rede Globo, anunciando para o dia 02/01 o início de “Velho Chico”. Aquilo que geralmente é uma cartada marketeriana de produtos exportação, acabou se tornando uma linda homenagem ao Domingos Montagner.

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O chefe do bistrô da Av. Liberdade pertinho do Hotel “Village” que ao me ver na correria contra o relógio e só querendo comprar um rissole para a viagem, perguntou: “A menina já tomou o pequeno almoço?”, como se fosse um tio preocupado com o apertado roteiro de coisas a fazer da sobrinha. O funcionário do trem quando me informava que o trem em que estava era o que iria para Cascais ou na paixão do vendedor de discos de Vinil em sua estreita lojinha e que se desvendou um apaixonado pelos Rolling Stones e na empatia da dona da lojinha “Gemas moles” pertinho do Largo do Carmo e que não economizou tempo em explicar cada detalhe da loja, feita com tanto amor além de ums doces que são a entrada para paraíso e ao caráter solícito da equipe do Altis Belém, que realmente retornou a ligação para avisar que sim, havia vagado uma reserva e que poderíamos sim, provar o clima exclusivo e a gastronomia premiada do restaurante “Feitoria”.

Para rever conceitos. Se surpreender com o que foi esquecido. Recordar, viver falar a minha língua materna, ficar sem fôlego todas as manhas ao descer da ladeira do Baixa-Chiado para o Rossio ao vislumbrar o retrato natural que tem o Castelo de Sao Jorge como protagonista ou mesmo passar pela “Rua do Recolhimento”. Tudo isso e muito mais. Lisboa, Cascais, Cabo da Roca, o abismo da “Boca do Inferno”, o Museu Nacional de Azulejos, cultura essa intrinseca com a história do país que me parece instigamente desconhecida e familiar ao mesmo tempo.