Diretor da Berlinale tem contrato prolongado e permanece no cargo até 2019

Fátima Lacerda

02 de dezembro de 2014 | 18h53

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O plano anterior era manter Dieter Kosslick no cargo até 2013. Ratificando que a Alemanha é um país no qual se faz ontem, o que se poderia fazer hoje, o ex-Ministro da Cultura, Bernd Neumann, receoso por deixar a Berlinale “órfã”, mexeu os pauzinhos e sem aviso prévio, prolongou antecipadamente o contrato que terminaria em 2015.

O período de gestão de Neumann acabou. Sua sucessora é Monika Grütters a ministra da pasta que é a menina dos olhos do país e com um orçamento anual invejável ao mesmo tempo que coerente com a importância, especialmente de eventos com a visibilidade alcançada por Berlim.

Seguro morreu de velho

Movida pela paúra de ficar com a batata quente na mão em 2015 à procura de um sucessor para a personalidade que se tornou a marca Berlinale e “de quebra” goza da admiração e da simpatia de público, jornalistas e da maioria dos críticos de cinema, a ministra não perdeu tempo.

Assim como Neumann, a atual ministra “resolveu” a questão na encolha. Sem qualquer especulação ou burburinhos anteriores, foi anunciado na lata que o contrato de Dieter Kosslick foi prolongado até 2019. A justificativa, colocada numa nota de imprensa mínima, elogiava o potencial de “continuidade”.

Dieter – De mãos dadas com as estrelas

A longa trajetória de Kosslick como diretor de vários institutos de fomento para o cinema o deu a possibilidade de ser incentivador de muitos diretores no início de suas carreiras, e que hoje são consagrados, possibilita uma situação de amizade um clima que influencia positivamente o clima durante os 10 dias do festival.

A simpatia e o frequente quebrar do protocolo agrada as estrelas que vem do além-mar. Quando de passagem pela capital, George “Mr.Right”Clooney vai almoçar com Dieter. Em férias de verão, Kosslick se hospeda na casa de diretores e produtores franceses, seus amigos de longa data. Essa somatória em qualidades torna a procura do sucessor uma tarefa de Hércules e ninguém quer pagar pra ver.

O Helmut Kohl dos festivais

Helmut Kohl, apelidado como o “chanceler da unificação” governou a Alemanha por 16 anos até quando a esmagadora maioria dos alemães não podia vislumbrar nem mesmo a sua foto. Kohl é um exemplo especialmente dramático: perdeu a hora certa de sair do circo político e (mais importante que isso) de fazê-lo com dignidade. Ao invés disso, extrapolou a paciência dos alemães e foi varrido do poder em 1998.

O diretor da Berlinale é “sugerido” por um grêmio composto pela organização-teto a qual a Berlinale pertence, a Berliner Festspiele, mas claro que o ministro da pasta da cultura também tem direito de sugerir um candidato que acaba sendo sugerido por todos em amplo consenso.

Em 2017 Dieter Kosslick estará no cargo o mesmo tempo que Helmut Kohl foi chanceler. Até 2019 serão 18 anos. O festival toma cada vez dimensões maiores e, de fato, já decolou de solos berlinenses.

Berlinale viajante

A plataforma “Berlinale Talents”, que conecta e alinhava a geração dos cineastas de amanhã, por exemplo, já aconteceu no festival de Sarajevo e também em Tóquio. O Co-Production Market, que une produtores e roteiristas/diretores para a realização de projetos binacionais, também já foi pro mundo. De fato, a Berlinale se tornou um mega evento multinacional. Até ai, tudo certo.

O outro lado da moeda é que pelo andar da carruagem até agora, a permanência de Kosslick implica também a permanência do time de curadores e membros de cargos de confiança, que também ficam até 2019. Ai que mora o perigo. A mostra paralela mais importante do festival, a Panorama, precisa urgentemente de uma renovacao de pessoal, incluindo Wieland Speck, que, continuou e de conteúdo à ideia do publicitário e cineasta gay, Manfred von Salzgeber em transformar o cinema com temática gay, lésbica e transgênera presença certa nos festivais. Mais do que isso. Instigar cineastas a realizarem filmes com essa temática. Speck está no cargo desde 1992. Depois de 22 anos, a renovação é inevitável para uma nova perspectiva, para um novo olhar mesmo que sendo para o mesmo tema.

Dieter Kosslick não tem mais grande influência no perfil dos filmes, incumbência essa das comissões selecionadoras. A única flutuação, em formato de promoção, acontece em âmbito interno. Ao invés de uma saída digna e preparada do “Queridao da Berlinale”,optou-se pelo caminho de que time que está ganhando, não se troca. A Berlinale perdeu a chance de uma renovação antes que o time ganhando fique desgastado e vá se arrastando na reta final da trajetória que leva, ao todo, 5 anos.

A próxima Berlinale acontece entre 5- 15 de Fevereiro.

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