Documentação que exibe réplica do Bunker de Hitler divide opiniões

Fátima Lacerda

28 Outubro 2016 | 19h07

 bunker6_TobiasSchwarz_AFP2©Tobias Schwarz/AFP 

Enno Lenze não tem cara de bons amigos, não “somente” numa quinta-feira (27) de sombrio outono berlinense.

Há poucos meses, quando a imprensa radicada em Berlim foi convidada para a coletiva de lançamento do livro “Hitler, o itinerário” (Hitler, Das Itinerar) publicado pela Editora Berlinstory Verlag, Lenze, com sua voz de timbre metálico, apresentava Harald Sandner, autor dos 4 livros que, meticulosamente, descrevem a cronologia e rotina de viagens e de lugares de estada do ditador entre 1889 e 1945 com, ao todo, 2211 fotos, o céu berlinense mandava chuva.

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Na manhã de sexta-feira (27) o outubro já mostrava a cara do sombrio e gelado novembro e mandava chuva fina.

Para entrar num Bunker a vários metros abaixo da terra, entretanto, é difícil de toda a forma. A sensação de sufocamento não é aliviada nem mesmo pelo cenário corriqueiro de uma mesa contendo garrafas de água mineral e sanduíches disponíveis para os convidados da mídia. São aproximadamente 100 pessoas juntas numa só sala, aguardando o início da introdução a ser dada por Lenze. Quem é chegado à pânico ou não, é arrebatado por uma sensação de pânico iminente quando se percebe entre as paredes empoeiradas, escuridão e a frieza desse lugar.

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A introdução sobre a estreia da Documentação teve efeito magnético sobre a imprensa do mundo todo com aproximadamente cinegrafistas e engenheiros de áudio. O Los Angeles Times, o Telegraph de Amsterdam, a emissora estatal polonesa TVP Info, jornais suecos, noruegueses, búlgaros, espanhóis, além das agências de notícias como a AFP.

Logo depois da introdução foi a vez de Wieland Giebel em guiar a imprensa com slides da Berlim em escombros, dos ataques aéreos. No mais tardar nessa hora, me acomete uma ânsia quase incontrolável de sair dali ao mesmo tempo que associações blitz do inferno que aquele lugar foi.

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Dois Bunkers – Origens e histórias  

O Bunker onde Hitler passou suas últimas horas e que foi, magistralmente, delineado e colocado em cena no filme de Oliver Hirschbiegel “Os últimos dias de Hitler” fica ao lado do Memorial do Holocausto para Judeus da Europa. Para evitar peregrinação de neonazistas até o local, a prefeitura de Berlim decidiu somente pelo aviso através de uma placa com a planilha do Bunker . Ao redor, um estacionamento nada espetacular de prédios cinzas, que na época da Alemanha Oriental eram moradia privilegiada dos funcionários do Politburo, fiéis e devotos até os dentes ao regime comunista.

O Bunker de 5 andares e para o qual a descida de escadas lembra muito a decida da escada para visitar as Catacumbas de Paris, foi construído em 1942 para, comportar 3.500 pessoas.

Entre os slides apresentados por Giebel, responsável pela concepção e pela curadoria da documentação, o visitante é confrontado com o fato de que, no final da guerra, não somente os comprovadamente arianos em posse de carteirinhas, mas também outros berlinenses procuravam proteção no lugar ao lado da, na época, maior estação ferroviária da Europa: a estação Anhalter Bahnhof. “Que passasse da hora marcada para entrar, ficava do lado de fora”, declara Giebel.

Na fase final da II Guerra eram 12.000 pessoas dentro do Bunker. Gindel declara que com o comprometimento da infraestrutura, não havia abastecimento de água, nem luz e com o fogo resultante dos bombardeios, o ar do Bunker era sugado pela fumaça. “Muitas pessoas encontraram proteção dos bombardeios, mas acabaram morrendo sufocadas”., explicou.

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No compartimento onde foi feita a apresentação de Slides na paredes, malas antigas relembravam o destino das pessoas que ali chegavam.

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Imaginar 3.500 ou 12.000 é naquele lugar é de uma consternação angustiante. Muito menos todas elas, ao mesmo tempo, procurando a saída, logo depois que foi avisado que os túnel os dos metros seriam implodidos.

WIN_20161027_121801Sala de reunião/Bunker

Visita guiada

Depois de, aproximadamente, 30 minutos no Bunker, os jornalistas foram guiados por Lenze, em tom de professor de escola que não está de brincadeira a documentação que é complementária à exposição temporária que há no Bunker que fica a 1 quilômetro do Bunker, onde o ditador passou suas últimas horas, onde ele depois de tomar veneno e dar um tiro no lado direito da testa assim com ter exigido a promessa do soldado para queimasse seu corpo. O maior temor de Hitler era ter sua cabeça exposta na Praça vermelha como triunfo dos russos pela tomada de Berlim, simbolizada com o fincar da bandeira russa no teto do prédio do Reichstag, o parlamento alemão.

WIN_20161027_120835©BerlinStory Verlag/Winston Churchill em visita Blitz ao Bunker de Hitler

“Winston Churchill adentrou o Bunker, mas não chegou a descer as escadas, ao mesmo tempo que, estrategicamente se deixou fotografar quando se virou para a saída onde se econtravam os fotógrafos”, esclarece Lenze que em entrevista ao jornalista do Los Angeles Times, declara: “Na semana que vem eu vou tirar minhas férias anuais no Norte do Iraque e estarei ajudando refugiados”. Essa declaração só é entendível num contexto do discurso de Lenze durante todo o tempo da imprensa no Bunker.

WIN_20161027_120854©BerlinStory Verlag/Local onde foram queimados os corpos de Hitler e Eva Braun

O ruivo que, não fosse seu alemão perfeito e o jeito autoritário, ele poderia passar por um irlandês. Lenze também não deixa barato quando conta histórias de suas visitas guiadas e das perguntas tolas daqueles que ele faz questão de ratificar serem alemães. “Quando adolescentes ou adultos chegam e falam: os estrangeiros são criminosos e tomam as nossas vagas no mercado de trabalho eu digo: Hitler entrou na Alemanha ilegal,ente e ainda foi preso (se referindo ao Golpe de Munique em 1923 no qual Hitler queria tomar o poder do governo bávaro), Hitler: o ilegal e criminoso“, disse ele em voz cheia de sarcasmo executando o contra-ataque.

Justificativa

“Por que nós decidimos fazer essa réplica?” joga Lenze ele mesmo a pergunta no ar. “Quando planejamos a documentação, refletimos sobre a melhor forma de como fazer. Atravé de uma “aproximação sensorial, você consegue chegar melhor nas pessoas do que através de um blá blá em alguma sala escura”, diz ele com a inconfundível rigidez e amargura na voz.

Números

A composição conta com o talento e experiência de Monika Bauert, arquiteta de cenários, entre outros para mais de 60 filmes alemães incluindo o cenário de “Os últimos dias de Hitler”.

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A concretização demorou por um simples motivo: o dinheiro ainda não havia chegado“, revela Enno Lenze num tom de voz recheado de tanta firmeza que faz difícil acreditar que em algum momento, o dinheiro tenha realmente faltado, que tenha sido um impecílio ou que o projeto tenha estado ameaçado.

Chuva de críticas

Em artigo “Fazer réplica do Bunker de Hitler é de mal gosto” veiculado no jornal Die Welt da poderosa editora Axel Springer, o autor critica severamente o feito do centro Berlin Story como também não poupa no sarcasmo:

Que pena que esse espetáculo não pode mais ser realizado na locação original, mas o berlinense é criativo, mesmo porque quem é que sair perdendo para Paris e Londres no âmbito do “nazismo gótico” só porque, há décadas, uns caras sem espírito esportivo, botaram abaixo a superfície que ficava abaixo da chancelaria do Reich”, escreve o autor do artigo. Sobre o paradoxo que do retrato do Rei Frederico Guillherme II, que reinou na Prússia entre 1740 e 1786 na parede da sala de trabalho de Hitler, o autor do Die Welt não mencionou.

O tabloide Bild também não gostou da ideia, mas isso não surpreende. Essa editora, tem um passado sombrio e conivente com as repressões durante o movimento estudantil na Alemanha assim como se mostrou reacionária em diversas fases da história do país. Que o conglomerado Axel Springer não gosta de ver o dedo na ferida, isso carta marcada. Todos sabem. O jornal berlinense Tagesspiegel, o mais lido da cidade, viu positivamente a empreitada do BerlinStory.

Uma reflexão de Lenze se mostrou especialmente feliz quando, em entrevista, declarou: “A Alemanha vai muito bem no digerir e trabalhar da sua história. Inúmeros centros de documentação, sobre a Alemanha Oriental, a polícia secreta, a STASI, o Muro de Berlim, porém até agora, passava-se ao largo quando se trata de Hitler“, disse ele deixando claro estar querendo preencher uma niche.

Não há nada de “Gótica nazista” no Bunker, seja ao longo da exposição permanente ou na documentação do “Bunker de Hitler“. Em tempos que a direita reacionária, fascista e populista na Europa como na Polônia, na Hungria, na Dinamarca, na Slovênia e na também na Turquia juntando ao imenso número de jovens que se deixam radicalizar pela ideologia do bárbaro Estado Islâmico, um Bunker, sendo réplica ou não, acompanhado de uma documentação historicamente meticulosa e sem “buracos”´não é somente louvável, mas absolutamente necessária . O autor do artigo no Die Welt tem razão quando declara que “os berlinenses são criativos”. Nisso ele tem razão, mas só nisso. O percentual de escapolitiza da editora é estarrecedor ,para dizer ao mínimo.

O dupla moral da editora Axel Springer é da dar inveja. A réplica da sala de trabalho de Hitler exposta no Museu de Ceras, nunca mereceu uma linha de crítica da imprensa amarela da Springer, mas se um cara invocado, de voz nada suava, mas com ideias de esclarecimento compra um Bunker por um milhão de euros, sem nenhum centavo vindo do Senado de Berlim como cidade-estado e muito menos de âmbito federal, isso é uma atitude louvável e que merece apoio, reconhecimento e divulgação.

Links relacionados:

Berlinstory.de/dokumentation-fuehrerbunker

Ingressos: 12, Euros