E o inverno em Berlim…é glacial!

Fátima Lacerda

14 Janeiro 2017 | 18h51

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 Como se não bastasse o coração ardendo de saudades de Lisboa, de sua vida simples e descomplicada e um clima super ameno, nesses dias é preciso somar e, se for preciso, retirar do fundo do baú todo o amor por Berlim. Pela cidade que por sua natureza já é marrenta e que não faz questão de ser descoberta e que também não irá te persuadir para gostar dela. Berlim não faz as honras da casa como o Rio e como Lisboa. Ou você a ama, ou odeia. Não há meio termo. Nesses dias caracterizados pela de falta de claridade de dias curtos, noite intermináveis e muito, muito frio é preciso segurar muito a barra para não entrar em pé de guerra com a cidade ainda mais tendo chegado há poucos dias de Barcelona, onde ainda vislumbrei grupos jogando vólei na praia, pessoas passeando com cachorros e aonde ainda fiz passeio de bicicleta pela orla sob a temperatura de 14 graus, mas com o sol firme todo o tempo. Bernardo me manda mensagem falando que o tempo em Lisba “está maravilhoso”. O pessoal carioca e de Sampa reclama no Facebook que os mosquitos e pernilongos tomaram as casas e os apartamentos. A disputa de quem tem o utensílio mais potente para dizimar com os “invasores” é assunto que vai por todo um dia. Eu prefero trocar com o Bernardo de Lisboa e com Sami de Barcelona, respectivamente nos âmbitos de 14 e 16 graus com sol firme. 

Pedrestes X Ciclistas

No inverno em Berlim, os pedestres esculacham os ciclistas que persistem em usar as duas rodas nos tempos de frio, chuva e até quando são pegos de surpresa por uma tempestade de neve. Fazer o que? Deixar a bicicleta no meio do caminho? Nem pensar!

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Quando acontece como na quarta-feira (10) que uma tempestade de neve que pegou todo mundo de surpresa no início da tarde e fez Berlim parar e deixou o jardi frente ao prédio do Reichstag parecer um cemitério, eu estava de bicicleta na rua. Do trajeto para qual eu preciso de 20 minutos de bicicleta, precisei de 3 horas e meia de volta pra casa, fazendo um intervalo no Cafe Starbucks para ter certeza que o meu dedo do pé não estaria gangrenando. Andar de bicicleta em cima da neve é até praticável e possível quando ela está seca. Você segue nas trilhas já passadas pelos carros, mesmo com o perigo de escorregar. Porem, quando os flocos de neve começam a cair em diagonal, não há jaqueta potente que segure: Fica tudo molhado com flocos de gelo, o cachecol que de preto fica branco, as luvas e os flocos entram nas narinas, no espaço entre óculos e os olhos. Quando a coisa fica feia mesmo, e na quarta-feira foi assim, a escuridão na rua torna o trânsito, como um todo, perigosíssimo. Ninguém consegue enxergar ninguém.

Christiane, minha amiga mais chegada sofre com “o clima depressivo” que atualmente rege na capital. Quando eu enviei mensagem via Zap avisando estar enfrentando a maior tempestade de neve dos últimos dez anos, ela, natural berlinense, respondeu: “Quando eu olhei para fora da janela, achei que estava sonhando! Que coisa horrível!”. Esse reação desestrutura que só quem reclama é “quem não conhece” essa dura realidade climática.

Enquanto eu tentava voltar pra casa arrastando a Vilma Magrela, minha bicicleta, deparava com pais e mães empurrando carrinhos de trenó com filhos sentados neles. Crianças fazendo batalha de bolas de neve. Não “somente” que eu não suporto neve, mas metros de neve em Berlim é coisa do outro mundo. A cidade para! Berlim é terra plana. Geralmente, quando cai neve por aqui, ela dissolve coisa rápida, mas na quarta-feira, São Pedro tinha outros planos para a capital.

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Em Barcelona, onde eu dias atrás ainda passeava de bicicleta pela praia e pelo porto, duas rodas que aluguei na loja de um finlandês, Sami, o frio não era empecilho de curtir estar ao ar livre, algo que faz falta na Alemanha, país em que faz frio durante 7 meses seguidos.

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Sami, o finlandês que aluga bicicletas e super descolado, contou que encontrou sua felicidade na capital da Catalunha. “Eu tenho que voltar hoje pra Berlim, isso não é triste?” disse eu em tom de lamento ao entregar a chave da bicicleta que tinha o banco baixo demais para dar as largadas que tanto gosto. Sami, como finlandês, claro, entendeu. “É Fátima, eu sei como é” disse ele em tom solidário com a minha penúria.

Em tempos de escuridão os zumbi berlinenses aproveitam a chance para sair da toca e dificultar, ainda mais, o que já e difícil por natureza. Foi também na quarta-feira que eu, precisando de 3 horas e meia ate chegar em casa para um trajeto para o qual necessito de 20 minutos sobre duas rodas, que deparei com situação perigosa.

Sob a calçada, arrastava a Vilma como sobre uma robusta camada de gelo. Qualquer tombo pode significar a quebra de braço, perna, costela. Mesmo usando minhas botinas antiderrapantes, escorreguei numa poca d’água na agencia de correios onde tenho minha caixa postal, que cai com toda a forca de ombro em cima da calefação um pouco mais alta do que o rodapé. Resultado: A parte de traz do ombro ficou azul, para o choque da minha terapeuta chinesa, que só balbucia algumas palavras de alemão. Quando vislumbrou o ocorrido, repetia sucessivamente: “Alles blau, Alles blau!” (“Tudo roxo!, Tudo roxo!”, em tradução livre).

A estatística mostra que os hospitais ficam mais cheios na época do ano em que cai neve ou que o solo derrete a neve, mas fica como a camada de um freezer que acaba de ser ligado. Uma casca de banana não é nada, nadinha comparado a isso.

Quem odeia o mundo e aproveita isso para descontar em teimosos ciclistas, não hesita em dar um empurrãozinho para o ciclista pisando “em ovos”. Caso ela não tenha total concentração e equilíbrio e desviar, o tombo é certeiro. Eu passei no teste. Tudo bem que a vontade era descer da bicicleta e expor meu repúdio para algo tão sórdido, mas estava muito frio, o cesto da bicicleta cheio e depois de 3 horas de total concentração num trânsito insano, estava mentalmente esgotada. O trauma da quarta-feira foi tao barra pesada, que na quinta, quando sai da casa, tinha na rua um clima de Day After. Achei que fazia parte do restante dos sobreviventes da tempestade de neve que acometera a cidade no dia anterior. Para um percurso pertinho do meu bloco, deixei a bicicleta em casa, apesar da temperatura do ar estar menos agressiva do que a do dia anterior, mas a paúra do dia anterior ainda me acometida. Outro empecilho é ter que carregar o cadeado da bicicleta na bolsa e usar a chave alternativa. O cadeado, que tem duas chaves, uma oficial e uma reserva mantidas no chaveiro, vinha congelando e só abria com uma rajada de água fervendo. Para que ele não congele logo em seguida, é preciso separar as duas partes do cadeado que tem que ficar em lugar de temperatura amena e não podem se cruzar de jeito nenhum enquanto a bicicleta está em trânsito. Esquecer a luva pode ser fatal e estragar o dia, quando se constata isso ao abrir a bicicleta e a preguiça de subir 4 íngremes andares de escada para buscar o restante daquilo que o Christian chama de “Aparato de inverno”, vence.

Neste sábado (14), com um frio gélido, porém sem neve e só com eventuais flocos caindo do céu, andar de bicicleta (que continua não sendo possível todo o aparato de cachecol, luvas, boné) pareceu extremamente suave, em comparação com a porrada de quarta-feira (11). O frio é  criativo, que até o próprio gelo encontra formas inusitadas para nos mostrar em que penúria nos encontramos. A mais notória que já encontrei em Berlim, mais precisamente no jardim do meu prédio foi esta aqui:

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