Ed Motta em turnê pela Alemanha: ambiguidades, o passado, o presente e a impossibilidade de rótulos

Ed Motta em turnê pela Alemanha: ambiguidades, o passado, o presente e a impossibilidade de rótulos

Fátima Lacerda

20 de novembro de 2018 | 20h50

O tijucano mais polêmico do Brasil é um rotineiro em excursões pela Alemanha. Volta e meia, o Facebook anuncia “um evento de Ed Motta na sua área”. Esse ano, o sobrinho do Síndico do Brasil marcou presença duas vezes na capital alemã. A primeira em abril, num dos mais badalados clubes da noite berlinense, o Gretchen, que não tem nenhuma associação com a dona da voz de Conga, La Conga.

O Gretchen, onde também já se apresentaram Criolo e EMICIDA, é um lugar frio para a música de Ed Motta, mas funciona bem para Rap e HIP HOP, para o show com a estilística que alinhava a formação escolhida por Motta, não funciona.

Desta vez o show do tijucano foi no clube Quasimodo, que outrora era tido como o palco de maior prestígio para músicos de primeira linha de todos os estilos, com especial foco temático no Jazz.

Milton Nascimento, Marisa Monte e Danilo Caymmi, Jacques Morelembaum estão entre as listas dos artistas brasucas em Berlim. O Quasimodo, na esquina da esquecida parte ocidental ainda é um palco igualmente para elitistas do jazz como para apaixonados pela boa música, mas O Point, para estar e ser visto, o Quasimodo já deixou de ser há muito tempo, já depois da Berlim unificada e com o renascer do bairro Mitte, o centro da cidade velha no lado do leste.

Ed Motta tem seu público garantido na Alemanha. Mesmo porque, só a formação de músicos essencialmente europeia e de estilística vasta ele tem um francês no baixo, um baterista de Amsterdã, o guitarrista de Helsinque e nos teclados e encarregado da direção musical, um berlinense. Isso por si só já garante um público diversificado. O número de brasileiros no show não chegava a uma dúzia. Um pessoal animado e simpático de Ribeirão Preto chegou ali, quase por acaso e mal podia se conter de tal felicidade de autoria do acaso.

A cena berlinense que está em peso em outros shows de músicos da terrinha não aparece no show de Ed Motta desde a polêmica em volta de pedidos da música “Manuel” e sobre as declarações que ocuparam a imprensa durante semanas.

O show de aproximadamente uma hora e meia em Berlim tinha um público atento, que foi ali para ver Ed Motta e não exatamente porque consta na lista de Mailings do clube e não por ser aficionado em expressões culturais do Brasil. Sua incontestável virtuosidade e uma banda afinadíssima que toca “somente” há cinco anos junta são pilares que garantem do sucesso na Alemanha, sucesso este que levou a gravação de “Criterion of the Senses” pelo selo germânico MustHave/Membran.

Além de marcar presença em Berlim, o quinteto foi para a cidade de Kassel, a mesma onde acontece, de cinco em cinco anos a Mostra de Arte Contemporânea, Documenta. A turnê que iniciou 18.10 na Basiléia,no país do chocolate, passou por Estolcolmo e Malmö, terminou em 18.11. em Dislaken e teve paradas em  Hamburgo, Stuttgart, Dresden, Freiburg, Wisbaden, Bremen, entre outras cidades.

Em Paris, Ed Motta além de se apresentar no New Morning, um clube super hip, ele tirou uma onda de DJ com amigos músicos.

Fazendo jus à sua fama de Workoholic, Ed Motta já mal de volta ao Rio e já cumpre a agenda do próximo fim de semana um programa bem diferente da turnê de um mês pela Europa: O Baile do Flash Back no Teatro Opinião em Porto Alegre é no sábado (24). Domingo o show é no SESC Quitandinha em Petrópolis, RJ, onde à tarde haverá uma palestra sobre o Jazz.

Influência midiática

Em algumas de suas intervenções ao anunciar uma música, Motta fez a menção obrigatória às influências que as séries de TV tiveram em sua vida e em sua percepção musical. “Casal 20” e a versão alemã de “Star Trek” com o nome impronunciável de “Raumpatrouille Orion“. Quando ele pronunciou “Orion” o regozijo em forma de identificação, foi grande. Eu não sei quantas vezes eu fiquei uma fera com o Christian por ele querer assistir essa série de uma gente sisuda e filmado em preto e branco nas tardes de sábado, mas que até hoje goza de um status Cult entre os aficionados.

Irrotulável

Ed Motta é um dos poucos artistas brasileiros que não se pode colocar num rótulo e isso o deixa muito à vontade frente aos alemães, que, pelo que parece, vão ao show totalmente abertos às aventuras musicais, sem necessariamente ter algo fixo em mente e muito menos com a referência de que se trata do sobrinho do Pai do Soul Brasileiro.

Uma porção de ingenuidade quando menciona as séries de TV como se estivesse revelando algo muito pessoal de sua biografia e com a coerente fisionomia sisuda, as ironias sobre o Showbizz americano e seus instrumentos marqueteiros arredonda o Portfólio, que pode instigar, irritar e surpreender. De tudo isso um pouco.

A música que eu vou cantar agora foi a que me deu o meu apartamento”, disse ele se referindo ao sucesso estrondoso de “Colombina”,. Quebrando todo o protocolo e a divisão elitista entre público e artista que rege em alguns clubes de Jazz, Ed Motta desceu do palco e, enquanto cantava tirava Selfie com o público, abracava, beijava e recebia elogios e declarações de ternura, que ele sempre respondia com a expressão em inglês, “Much Love Man”.

O aviso repetido durante alguns momentos do show, que no final ele iria “autografar o novo CD” gerou risos na plateia. Também o nome do novo disco, gravado em setembro último foi uma das mais frequentes tiradas de Motta: “Vocês querem saber o nome do meu novo disco?”, perguntava ele no meio do show em momentos alternantes. Depois da resposta afirmativa ele pronunciava longamente o nome e, visivelmente, se deliciava com isso.

No final do show e entre dar autógrafos aos discos comprados no cantinho do Marketing e dar as coordenadas para o seu assistente, Ed Motta falou exclusivo com o Blog: 

FL: Você é um virtuoso, você faz uma música de elegância ímpar. O fato de que o número de brasileiros em seu show em Berlim foi mínimo, te deixa triste?

EM: Eu espero que, cada vez mais, os brasileiros possam vir. Eu faco música pro mundo e fico feliz quando os brasileiros veem.

Durante o show você mencionou que se sente muito à vontade na Alemanha por que as pessoas não tem a expectativa em relação a você. Eu tinha a imprensao que você tinha vindo de uma turnê super vitoriosa por capitais brasileiras assim como no bairro da Tijuca (Clube Municipal) e de Madureira (Viaduto Negrão de Lima). Você ainda não se reconciliou com o público brasileiro?

Ainda hoje eu falei isso. Eu espero que eu consiga lançar esse disco no Brasil em breve, mas infelizmente nenhum selo se interessou, mas eu comento isso porque aqui (Alemanha) eu tenho a oportunidade de falar sobre o que eu estou fazendo hoje, mas o Brasil é a minha responsabilidade, é meu compromisso como artista, como cidadão no planeta. Não é nem onde eu me sinto nada. É onde eu tenho responsabilidade de vida. Eu viajo pra cá (Europa) quatro, cinco vezes ao ano, mas o Brasil é minha vida, minha casa. É minha responsabilidade como artista fazer as coisas que eu faço no Brasil. Eu não estou podendo fazer esse reportório que eu fiz hoje, um pouco mais complexo e tal, mas não que o Brasil não esteja preparado para isso. Eu faço isso no Rio e em São Paulo, mas não no país inteiro. O sonho, o desejo e a vontade é fazer esse trabalho no país inteiro.

Eu acompanho você pelo Facebook e me deu vontade de ser um mosquitinho naquele Baile do Flashback do Viaduto Negrão de Lima em Madureira. Esses locais de show, em sua diversidade, não eram para ser ter um fator reconciliador?

O que ocorreu na época foi uma polêmica boba de minha parte e uma amplificação genérica da imprensa, mas em relação ao público, as pessoas sempre estiveram receptivas à minha arte. Eu sempre estive muito grato em mostrar meu trabalho para pessoas de diferentes classes sociais e condições. Pra mim é um presente. O Brasil é onde eu aprendi tudo, bicho?! Onde eu aprendi cinema.

De mais a mais, você é tijucano, né?

Claro que sou!

Ambiguidade berlinense

O fim da noite no Quasimodo foi coerente com a mentalidade burocrática que alguns donos de estabelecimentos de música e gastronomia, o que também ratifica o fato de que, mesmo sendo uma metrópole, Berlim continua com sua mentalidade de vilarejo e de cidade pequena. Enquanto Ed Motta conversava com músicos que iam cumprimentá-los, e tomava seu vinho francês de agricultura biológica para curtir o resto da noite vitoriosa, a gerente do Quasimodo veio com a cara mais lavada se fazendo de sentida por ter que “fechar o estabelecimento”. Chegou na roda, deu mais dez minutos para o grupo sair. Poucas horas antes, ela havia subido no palco para apresentar Ed Motta um “Super Star” no Brasil, o que não é verdade e ainda pedindo ao público para “recebê-lo com de forma acalorada”, como se fosse necessário instruir o público de como receber o artista. Aqui também faltou a percepção mais concreta de adjetivos.

Roberto Carlos é um Super Star, Daniela Mercury, a Veveta também.  E esse atributo é o que preocupa o Ed Motta na escala abaixo do zero.

A gerente do clube não entendeu que Super Star é intrinsecamente ligado à popularidade do artista. O que ela tentou fazer no início, para dar um Up para o próprio estabelecimento, ela quebrou no final da noite com total incapacidade de ser uma soberana no quesito anfitriã, inteligência emocional e um pouquinho de conhecimento da mentalidade brasileira teria sido para ela, de grande valia, mesmo porque, decerto que Ed Motta não será o último brasileiro a pisar no palco do famoso clube.

Twitter: FatimaRioBerlin

Instagram: rioberlin2018

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