Snowden em entrevista exclusiva na TV alemã

Fátima Lacerda

27 de janeiro de 2014 | 19h53

edward-snowden-ardinterview-300x168.jpg Copyright: ARD

A noite de domingo na Alemanha tem sempre o mesmo ritual: As 20:15 horas, os episódios cult da série de crimes, Tatort. Depois, programa de auditório de cunho político. Esse domingo, 26/01, teve um suspense de extra-classe. O programa do âncora Günther Jauch exibiu trechos da entrevista exclusiva „realizada de forma conspirativa em algum hotel de luxo em moscou…“ pelo jornalista Hubert Seipel. 4,75 Milhões assistiram ao debate alternado com trechos da primeira entrevista na TV desde o início do exílio em Moscou. A versão completa, exibida bem no finalzinho da noite de domingo, teve 2 milhões de espectadores.

Ao longo da entrevista, viu-se um Snowden simpático, solícito e absolutamente concentrado no detalhe das Informações concedidas, nem parece que se trata de um homem de 30 anos que está com a corda no pescoço ou com a vida por um fio. Endeusado por alguns como herói do nosso tempo e condenado por outros e pelo diretor do jornal conservador, Bild am Sonntag, que acusa Snowden de ser responsável pelo estremecimento das relações transatlânticas entre os governos de Berlim e Washington.

No domingo à noite, pela audiência e pela reação do público no auditório do programa de Günther Jauch, pode-se constatar que a sistemática espionagem do celular da chanceler Angela Merkel ainda é uma ferida aberta. Mais que isso. Os alemães, que tem a privacidade como algo sagrado, ainda estão traumatizados com as declarações de que todos os 80 milhões de habitantes do país foram espionados. Quanto mais tempo passa, maior se torna a simpatia do alemães pela idéia de conceder asilo político Snowden ou pelo menos, tê-lo depondo frente à uma comissão parlamentar de inquérito a ser formada pelo parlamento alemão, o Bundestag.

No final do programa de domingo à noite, o âncora perguntou aos convidados, onde imaginam Snowden em 10 anos:

John Kornblume, ex-embaixador americano em Berlim entre 1997 e 2001, disse: „Nos EUA, depois de ter cumprido uma pena curta, decorrente de negociações com o governo“. Marina Weißband, ex-carro-chefe do partido Pirata, o vê em 10 anos vivendo livremente na Alemanha, que segundo ela, deve conceder Snowden asilo político. O Jornalista Seipel, arriscou: „Em Moscou… ele vai acabar se adaptando…“.

Veja no resumo, as principais declarações da entrevista exclusiva exibida na rede aberta ARD:

Snowden: Em um portal na internet chamado Buzzfeed, funcionários do alto escalão do governo americano, declararam querer me matar, me envenenar no supermercado e assitir eu agonizar debaixo do chuveiro…Repito: São membros do alto escalão do governo, mas mesmo assim eu tenho o sono tranquilo.

Qual foi o ponto crucial, em que você decidiu botar a boca no trombone?

Snowden: Foi quando eu vi o coordenador do serviço secreto, James Clapper, mentir frente ao Congresso. Não existe salvação para um serviço secreto que acha que pode mentir perante à opinião pública e ao Estado, o mesmo que regula as suas atividades. Quando eu vi isso, eu sabia que não poderia mais voltar.

Sobre a atividade de espionagem econômia dos americanos?

Snowden: Não há dúvida que os EUA praticam espionagem econômica. Se os EUA descobrirem que há informações na Siemens, que são de interesse econômico e não político e nem mesmo ameaçam a segurança nacional, eles irão correr atrás dessas informações e irão obtê-las.

Não é factível que Merkel seja o único rosto conhecido pelos agentes da NSA e por isso tenha sido a única política espionada na Alemanha ?

Snowden: Eu não acredito, que uma agência que quer saber tudo sobre os planos e empreendimentos do governo alemão tem somente a chanceler Merkel em foco, mas igualmente seus assessores diretos, ministros e até mesmo membros de governos locais.

A idéia de que empresas alemães e o governo alemão passarem ao largo pelos potentes servidores da NSA, é factível ?

Snowden: A NSA pode fisgar de qualquer lugar do mundo qualquer tipo de comunicação que ocorre via internet. No seu notebook, celular a NSA pode controlar todas as sua atividades e te seguir pelo mundo todo. Muito melhor do que esconder todas as informações num jardim rodeado de cercas quando cada um tenta transferir dados de lá pra cá, é salvar os dados em âmbito internacional.

Críticas dos EUA, de Snowden ser um espião da Rússia:

Snowden: Eu trabalhei sozinho, não precisei da ajuda de ninguém além de não ter conexão ou pacto com qualquer governo que seja. Não sou espião para a Rússia, China ou qualquer outro país.

Sugestão do Presidente Obama, de Snowden se entregar à justiça americana:

Snowden:O que o Presidente não menciona, é que no meu caso se trata de um crime onde não há interrogatório na justiça. A lei de espionagem vigente é proveniente do ano de 1918 e não se encaixa para o meu caso. É simbólico, que o Presidente diz que devo me entregar à justiça, quando ele sabe muito bem que seria uma processo de fachada.

Possibilidade de volta aos EUA?

Snowden: Eu não recebi nenhum telefonema da Casa Branca e também não fico sentado ao lado do telefone esperando….Entretanto, seria positivo um contato da parte deles para resolvermos esse caso da melhor maneira para todos.

Veja aqui a entrevista na íntegra em inglês:

http://www.ndr.de/ratgeber/netzwelt/snowden271.html

 

 

 

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