Eleições gerais na Alemanha: populismo, nacionalismo, falta de conteúdo e campanha eleitoral nas ruas

Eleições gerais na Alemanha: populismo, nacionalismo, falta de conteúdo e campanha eleitoral nas ruas

Fátima Lacerda

17 Setembro 2017 | 14h59

 ©DPA

Somente mais uma semana e os alemães estarão indo as urnas numa das eleições mais de maior suspense nos últimos anos. Não que se trate de uma virada politica. A maioria dos alemães vê a atual chanceler Angela Merkel como a mais adequada para “guiar o país em momento de crise mundial”. Os desafios do avançado estagio de globalização e mudanças vertiginosas nos deixando menos tempo para digerir do que antes da atual contemporaneidade. O resultado do Brexit e a eleição de um lunático para viver na Casa Branca nos próximos anos foram só uns dos desafios da contemporaneidade em dinâmica cada vez mais inssana. Assuntos como o terrorismo e a Politica de Imigração fazem partidos ganharem ou perder eleições na França, Polônia, na Hungria.

Concernente à Alemanha os principais itens da campanha eleitoral são a Politica de Imigração, o caroço de angu diplomático, o governo da Turquia que apelou aos turcos naturalizados alemães para não votarem nos partidos “inimigos do país” servindo, indiretamente de cabo eleitoral para o partido “Alternativa para a Alemanha”.

Roda dos Elefantes” de outrora

Épocas aquelas, em programas de TV com o nome “Roda de Elefantes” com os diretores dos principais partidos, tempo quando a rixa politica e a dicotomia programática entre a União Democrática Cristã (CDU, na sigla em alemão) e os social-democratas, SPD eram intransponíveis! Memoráveis eram são as brigas homéricas entre os ex-chanceleres Helmut Kohl e Willy Brandt em briga homérica (como os miúdos, avisa o titulo do video disponível no YT).

Hoje, Merkel e Schulz os cabeças dos dois partidos foram uma coligação no atual governo liderado por Merkel e o SPD como parceiro júnior.

Em recente em único ‘Duelo” na TV os dois candidatos mostravam harmonia que mais lembrava um “Dueto”. Elogios recíprocos, tom pasteurizado estipulado não pelos âncoras da TV, mas pelos respectivos conselheiros e coordenadores de campanha. A rixa no formato D. Trump e H. Clinton ou (nas eleições presidenciais na França) entre Le Pen e Macron não eram de se esperar. O eleitor alemão não suporta barraco e muito menos aprendeu a lidar com brigas homéricas. Na Alemanha, os conflitos são resolvidos de forma bem menos passional e temperamental do que nos países latinos. Mesmo assim: Existe algo de bem esquizofrênico no perfil do leitor alemão: enquanto uns reclamam do tom morno entre os candidatos e da “falta de suspense” e outros anunciam a “fase quente da campanha”, fase essa que nunca chega, outros pensam diferente. Essa fracao foi a que penalizou a então vigente coligação do governo entre a União (CDU & CSU da Baviera) e o Partido Liberal Democrata (FDP, na sigla) entre 2009 e 2013, um período marcado de perrengues entre a União e os (neo)liberais, que foram punidos sendo expulsos do parlamento por não ter alcançado o percentual mínimo de 5%. Esse mesmo partido liberal está prestas a voltar e compete com os Verdes e o partido racista, extremista e populista, AfD.

Peso político

Nenhum instituto de pesquisa de intenção de votos duvida mais de que o partido nacionalista (para dizer ao mínimo) estará representado no próximo período legislativo. Isso já é preocupante por si só, já que membros desse partido não tem vergonha em usar de chumbo grosso para chamar atenção e “colher” eleitores dos partidos estabelecidos. O êxodo é considerável e todos os partidos perderam eleitores para a AfD.

Entre “escorregadas políticas” e difamações históricas estão a negação do Holocausto, a declaração de que “ninguém quer ter Boateng como vizinho”. Jerôme Boateng, de raízes afrodescendentes por parte de pai, mãe alemã e nascido em Berlim é jogador na defesa do FC Bayern e da Seleção Alemã de Futebol. Um dos cabeças do partido AfD, Alexander Gauland, um velhinho com passado político bem sombrio, poucos dias antes do início da Euro Copa 2016 que Boateng “É um bom jogador, mas que ninguém” o quer ter como vizinho”. O Blog reportou na época.

A estratégica do chumbo grosso faz parte intrínseca da retórica dos populistas de direita em tempos do pós-globalizado. Depois de foi tudo pro ventilador, eles puxam o freio de mão, relativizam e disse que “não foi bem assim”, mas nesta altura do campeonato, a internet já se apoderou do tema.

Nas ruas de Berlim

As esquinas da capital exibem cartazes que pretendem ser sérios (mesmo que fiquem, cronicamente, devendo numa oferta de conteúdo) e os que fazem zoeira, associações, desestruturando uma dialética obsoleta. O lema mais famoso nos cartazes onde se vê Angela Merkel é a frase: Merkel e seu adversário no bairro de Prenzlauer Berg, bairro na parte leste da cidade.

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Alemanha, um país no qual se vive bem e com gosto”.

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Merkel e seu adversário Schulz na esquina mais movimentada no bairro de Prenzlauer Berg, parte leste da cidade.

Um reflexo da imensa rejeição de Merkel, especialmente na parte leste do país: “Merkel tem que sair”.

Cartaz recheado de sátira usando parte do sobrenome de Merkel com a palavra “merklig” (visivelmente ou a olhos vistos).

Quem mente para o povo e para si mesma todos os dias, envelhece visivelmente mais rápido“.

Partido esquerdista Die Linke se mostra fiel à sua incompetência no âmbito da Realpolitik em prol de absolutismo e teimosias ideológicas. O cartaz mostra o candidato com o martelo e exibe a frase: “Política externa antes que seja tarde demais”. Uma das plataformas e metas do partido é a saída da Alemanha da OTAN além da retirada de todos os soldados do exército que estão estacionados no estrangeiro além de ser inegociavelmente contra a qualquer influência da Alemanha em chamadas “Regiões de crise” política. 

 

A internet não perdoa. O candidato do partido CSU, da Baviera partido que compõe com o CDU de Merkel, a União, tem seu cartaz exposto logo acima de um cartaz sobre a sétima edição da “Feira de Jumentos” na cidade de Wolfegg, região da Baviera, sul do país. 

A chefe do partido AfD, populista, racista, nacionalista (por muitas vezes fora do âmbito constitucional) e polêmico, angariou um verdadeiro Shitstorm ao posar com seu filho recém-nascido (de ao todo 5) com a frase: “E qual é a sua razão para lutar pela Alemanha?“.

O cartaz de Petry, que foi desbancada na última convenção federal do partido na cidade de Colônia, mas continua na chefia só pro forma, não se fez de rogada na hora de expor um recém-nascido como também instigar paralelos à premissa dos nacional-socialistas de que mulheres alemães deveriam ter muitos filhos para garantir a continuidade da “raça limpa”.

Essa dialética expressa no cartaz é de um retrocesso de quase 100 anos, quando as mulheres eram instrumentalizadas como seres criados para parir por um motivo político abdicando do instrumento mais emancipatório feminista que é o controle do que acontece, quando e como com o próprio corpo. Essa também é uma estratégia usada pelos populistas: a forma clena e um conteúdo podre e sórdido e não menos perigoso. Um cartaz também da AfD compara o déspota norte-coreano com o objeto de ódio do partido, a União Europeia. Vale lembrar que o partido, entao bem mais moderado, iniciou sua tragetória como partido “Anti-Euro”. Desde que seu ex-chefe foi desbancado por Petry, e tomado pelo velhinho Gauland, o partido vem se radicalizando em velocidade Blitz.

Escárnio

“Coragem para a Alemanha”.

O que tem o menino gordo da Coreia em comum com a UE?”

“A percepção do que é democracia”.

Zoeira nas redes sociais

Um site na internet conglomerou todas as zoeiras da campanha eleitoral exibidas pelas ruas do país. Um dos mais hilários zoando o partido que se autoproclamou ser “Alternativa para a Alemanha”, mas que, de fato, mudará a constelacao partidária existente até agora, faz-se um trocadilho com o Slogan “Pegue seu país de volta“. Nesta frase está implícita a incitação do medo e da xenofobia de que através do 1 milhão de refugiados que entraram na Alemanha em 2015, os alemães estariam perdendo seu país, seus costumes, suas particularidades. Em suma: sua identidade.

A letra de “Land” (País) é trocada por “Pfand”, o que significa “garantia”, palavra muito usada no âmbito de retorno de garrafas de refrigerante, cerveja, água mineral, por vezes, a única fonte de renda dos sem-teto. A medida do retorno de engradados foi ideia dos Verdes, medida introduzida no período de coalizão com os social-democratas. Na frase de baixo, a letra B de “Beide” (ambos votos) foi alterada pela letra M “Meide” resultando ao invés de “Os dois votos para a AfD” na frase “Evite votos para a AfD“. Na Alemanha, os eleitores tem direito a dois votos. A complexa legislação eleitoral prescreve que o primeiro voto é para o candidato direto de cada zona eleitoral, o segundo voto é para o partido e sua respectiva lista de candidatos. O segundo voto irá influenciar diretamente no percentual de influência na respectiva bancada.

O partido (neo) liberal (FDP) tem como seu carro-chefe Christian Lindner, que mais parece um modelo para a nova coleção da C & A ou da H & M ou um model de agência para encontros secretos. Nas redes sociais, ninguém, além dos membros do partido, leva a sério a campanha eleitoral que, até agora, brilhou pela falta de conteúdo.

Não deixando barato, Jürgen Trittin, ex-Ministro do Meio Ambiente do partido Verde e que esteve na ativa entre 1998 e 2005 durante o governo Schröder, “adaptou” um cartaz do FDP. “Caminho livre para motoristas de Porsche. Na realidade, eu nunca quis outra coisa“.

A zoeira do ex-ministro simboliza de forma bem procedente a falta de conteúdo na campanha do partido que a imprensa especializada chama de  “partido que ressucitou”, referente à ausência do mesmo nos últimos 4 anos na bancada da Câmara Baixa do Parlamento, o Bundestag.

Quem se interessa por conteúdo, quando você é um cara sensacional?” zoa o cartaz que apareceu nas redes sociais.

A eleição do próximo dia 24.09. definirá o novo espectro político partidário. E não “só” isso. Muitos outros aspectos que serão delineados em artigos durante toda a próxima semana.

No dia da eleição, no próximo domingo (24), o Blog estará de plantão no Centro de Imprensa do Governo Alemão acompanhando o dia das eleições e, na sequência, seus desdobramentos.