Eleições na Alemanha: para Os Verdes saírem do ostracismo politico, só um pacto com o diabo

Fátima Lacerda

21 Setembro 2017 | 17h01

©DPA

O futuro é feito de coragem” (Zukunft wird aus Mut gemacht), avisa o poster da campanha do Partido Verde.

 

Doze anos sentado na bancada da oposição (2005-2017) é tempo demais para qualquer partido. Muito menos tempo do que isso, já pode causar crise de identidade e se a sociedade ainda precisa do mesmo.

A penúria do Partido Verde alemão vai muito mais do que um mínimo papel de coadjuvante no âmbito federal da politica alemã.

Por partes

Desde que Angela Merkel assumiu o poder e vem governando com a chamada “Grande Coalizão” entre a União (CDU & o “partido irmão” CSU da Baviera) os Verdes vem na paira do total ostracismo, da insignificância politica. Por um lado porque Merkel, tomou dos Verdes uma das suas principais pilastras: o Meio Ambiente. Isso ficou especialmente claro depois do desastre nuclear de Fukushima, no Japão em 2011. Vale lembrar que o Partido Verde alemão nasceu do movimento pacifista e de uma postura totalmente contra ao uso de Energia Atômica, numa época em que a Alemanha era, falando em âmbito social um país reacionário. Sob o prisma politico, a Guerra Fria juntada ao fomento das usinas de energia nuclear.

Desde Fukushima, o tema Meio Ambiente virou o que o jargão politico denomina de “Chefsache” (alçada da Chefe de Governo).

©DPA

Recursos Humanos precários

Além do crônico problema da falta de perfil, de temas carro-chefe, com a perda das eleições em 2005 o partido perdeu seus membros mais carismáticos. O ex-Ministro do Meio Ambiente, Joschka Fischer foi a sua maior perda. Hoje, Fischer e lobista para empresas de energia. A “segunda fila” foi “promovida . O que se tem, melhor, o que sobrou e Cem Özdemir, alemão de origem turca e a atuante na igreja protestante –luterana, Kathrin Göring-Eckhardt. Não “somente” o nome precisa de uma frase inteira para ser pronunciado. O discurso morno e em tom de lamento da Cândida dos Verdes da tempo de tricotar um pulôver. Os outros dois candidatos que concorreram para serem os “candidatos carro-chefe” do partido também não oferecem reais opções.

Cem Özdemir não deixa dúvidas em sua ambição de se tornar Ministro das Relações Exteriores. O Ostracismo dos Verdes juntado a maior influência dos chamados Realos dentro do partido, focando menos na ideologia e mais na tão famigerada Realpolitk (Pragmatismo político em tradução livre) e na solução dos perrengues que vão aparecendo. Não dá para não criar paralelo num approach corporativo, onde cada um sabe de suas tarefas para que a “maquinaria” continue a funcionar.

Os fins justificam os meios

A convicção e o tabu que era juntar na mesma frase o CDU, partido de centro de Merkel e o de esquerda dos Verdes com o argumento de “intransponíveis diferenças” e coisa do passado e, mesmo negando ao ser perguntado diretamente, Özdemir nega almejar um papel de “parceiro júnior” na possive, coalizão com a União. Porém todos sabem. Christian, há 15 anos atuante no parlamento regional assim como editor e fotografo do jornal do partido se diz “zangado com a sucursal federal” e explica:”

No programa do partido não se tematizou a pobreza na velhice e nem medidas como frear o aumento vertiginoso dos aluguéis de imóveis”. Em Berlim, o fenômeno da gentrificação avança de forma vertiginosadesestruturando células urbanas, obrigando moradores a deixarem seus apartamentos, bairros e também sua vizinhança. Os insatisfeitos com os partidos estabelecidos, mas que vem perdendo vertiginosamente sua origem em termos de temática, fundaram através de uma petição na plataforma change.org da qual se fundou o partido que promete “Outra forma de fazer política”. Seus principais temas são: Democracia, Justiça Social e Transparência, Diversidade, Sustentabilidade, Orientação no futuro e Cosmopolitanismo.

Os Dissidentes dos partidos estabelecidos fundaram novos, pequenos partidos com as mais diferentes propostas. O partido resultante da petição na Change.org e que contém muitos insatifestos com o Partido Verde, “Democracia em Movimento” é um dos muitos exemplos e uma constelação partidária assim como a forma de perceber políticia, em mutação, processo pelo qual atravessa a Alemanha.

Jamaica!

Poucos dias antes das eleições já iniciou a matemática dos percentuais, as diversas constelações de coalizão. Não há dúvidas. Seis Verdes quiserem, a todo o custo, fazer parte do governo, o caminho e a chamada “Coalizão Jamaica”. Porque Jamaica?

composta da União (CDU &CSU) da cor preta, os Verdes e o Partido dos Democratas Livres (FDP, na sigla). O amarelo dos Neoliberais completa a constelação do trio partidário. Porem, no preâmbulo das eleições em comícios, os chefes dos dois partidos não deixam de ratificar o existente antagonismo programático: em relação ao Meio Ambiente, os Liberais querem retroceder e neutralizar as medidas adotadas por governos interiores além de pregar a crença de “mais iniciativa privada e menos Estado”. Apesar de calorosas discussões, se o eleitor possibilitar, no âmbito matemático a ‘Coalizão Jamaica”, esses partidos que se juram antagônicos, decerto, encontraram um denominador comum, afinal, a ânsia de poder adicionada à perspectiva da saída do ostracismo de 12 anos por parte dos Verdes e a possibilidade de retornar a Câmara Baixa do Parlamento alemão, do qual foi varrido em 2013 por não ter alcançado a marca mínima exigida de 5% de votos, são motivos suficientes para um pacto com o diabo. E além disso: a democracia continua sendo um esforço constante, sim, uma tarefa de Hércules. O papel dos políticos é fazer do resultado matemático, uma constelação, na melhor da hipóteses, com uma maioria confortável no parlamento. O exemplo de similaridade se vê com o atual governo francês liderado por Emmanuel Macron, que obteve avassaladora vitória para seu partido, o “En Marche“. 

©DPA

O pior destino a ser seguido é o formato em que teve que governar o ex-presidente dos EUA, Barack Obama, em permanente combate com o congresso, esse liderado pelos republicanos. Exímia estrategísta como é, Merkel irá evitar qualquer tipo de risco, por exemplo, de uma maioria apertada para os próximos quatro anos de seu governo. Para que o atual quadro de intenção de votos com larga vantagem para Angela Merkel mude, os socialdemocratas precisam de um milagre para evitar “Jamaica” e dar seguimento à “Grande Coalizão” entre União e SPD. Mas como germânicos são demais céticos, sobra para os Verdes, somente o pacto com o diabo.

Links relacionados e Hashtags:

Twitter: #Hashtag (Eleições Federais 2017)

#BTW2017

#BTW17