Elton John em Berlim: brilhante na voz e nos teclados em noite inesquecível com direito a arco-íris

Elton John em Berlim: brilhante na voz e nos teclados em noite inesquecível com direito a arco-íris

Fátima Lacerda

08 Julho 2017 | 18h30

©DPA

Numa sexta-feira em que São Pedro, com inusitada teimosia, baixou temporal e chuva na capital e enquanto na cidade portuária de Hamburgo, norte do país, manifestantes e opositores da cúpula do G20 iam para o inferno #Welcometohell com uma intervenção brutal e provocação da polícia local e que, com certeza terá consequências nas bandas de lá. Antes deste texto ser publicado, chegou um comunicado do Palácio Presidencial, que Frank-Walter Steinmeier, presidente da República, irá visitar Hamburgo depois do cenário de Guerra Civil que se mostrou durante a cúpula do G20. Na noite de sexta-feira (07) era, inusitadamente, Berlim que se permitia a simplicidade de um prazer mundano. 

Elton John estava In Town com uma bagagem de uma carreira de quase 50 anos, um talento estrondoso e a trilha sonora de nossas vidas.

Arena Mercedes Benz

O galpão para megaeventos, seja qual o nome ele carregue (O2 ou Mercedes Benz) continua com a notória e ingrata fama de ser o lugar mais frio para shows ao vivo. Whitney Houston, Rod Stewart, Tina Turner, Pet Shop Boys, Depeche Mode Beyoncé, entre outros, já passaram por aqui. Alguns desses artistas conseguem desestruturar, quebrar o clima gelado do lugar e isso, independentemente, se lá fora é verão, inverno. Outros, infelizmente, não.

Durante toda a semana, S. Pedro decidiu jogar todos os baldes d’água em Berlim. Litros de chuva que precisam de 3 meses para completar o volume. Christian costuma brincar que “as nuvens passam por Berlim e vão direto para a Baixa Saxônia”. De fato, é raro chover em Berlim. Nessa semana, entretanto (em todas as mais diferentes formas), tudo foi diferente.

Suspense

No momento em que eu pegava a “Vilma”, minha bicicleta, no pátio do meu prédio, a chuva iniciava. Até quase a metade do caminho era só uma chuva fina, depois ela engrossou. Peguei um abrigo frente à uma papelaria que, por sorte, já havia fechado. Foi nesse momento que eu me lembrei de uma cena do filme documentário “Jogo de Cena” do saudoso Eduardo Coutinho. Lembrei daquela cena com a atriz Débora Almeida que interpreta a personagem Nilza moradora da Vila Moraes (SP) que conta que quando estava para sair para fazer a entrevista, chovia muito e ela começou a pedir a São Pedro. “Poxa Sao Pedro, eu queria ir bem pra filmagem, bem estravagante… Não é que ele mandou o sol pra mim?”, disse ela em tom de gratidão. 

Com fé eu vou …

Parada em frente à papelaria, eu olhava pra árvore, pro céu, e repetia o mesmo diálogo do filme com um acréscimo bem pessoal: “São Pedro, por favor quebra meu galho. Eu preciso ver o show do Elton John. Pela Creuzette. Pelo Paulinho. Memórias de família!”” e repetia compulsivamente “basta só uma trégua de 15 minutos que eu preciso pra chegar na Arena”, enquanto olhava pro asfalto super hiper ultra molhado e pro meu guarda-chuva miserável que travava no botão pra ficar aberto. Tinha optado por uma novíssima calça branca, linda, maravilhosa e o arrependimento pela escolha, costumava me torturar. Se é algo que você aprende na Alemanha, é o ritual de se arrepender e ficar p. da vida por algo que você não pode mudar. Felizmente, a minha raiz carioca é robusta e, também por ser filha da Creuzette, essa fase não dura muito. Eu começo logo a buscar a solução.

São Pedro!

O céu clareava e vinha uma esperança, enquanto o relógio mostrava 18:55. A assessora de imprensa avisara: “5 para as 7 inicia a

pré-banda”. Elton John é as 19:30 hs. A minha alma carioca pensava:”Com esse toró não é possível que eles mantenham a pontualidade religiosa. Não, não é possível” tentava me convencer enquanto olhava para o guarda-chuva, que aliás é novo, planejando neutralizá-lo

assim que o suspense hitchkoquiano acabasse. Em 13 anos, anualmente, no Festival de Jazz de Montreux, no país do chocolate, eu vi dinossauros menos e mais famosos, vi artistas entrarem em Montreux desconhecidos e saindo famosos no mundo musical.

A lista de momentos inesquecíveis é imensa, porém, Elton John eu nunca havia presenciado ao vivo. Se o fiz em Montreux, eu não me lembro. No Rio não foi. Em Berlim também não. Na realidade eu, ainda muito pirralha, ouvia o Elton John pelo meu irmão, pessoa-chave na formação do meu gosto musical e que me contava histórias dos shows que foi: do Jackson Five no Maracanazinho (sem ingresso para um show que estav lotado!!!), do Police, pouco antes desse ficar, mundialmente, famoso e do Elton John e seus óculos. “Eu presto atenção em tudo o que meu irmão ouve“, diria anos depois uma música da maravilhosa Adriana Calcanhoto.

Depois veio a Creuzette, também influenciada pelo Paulinho. Quando ela decidia cantar “Goodbye Yellow Brickroad” com um inglês absurdamente do Cais do Porto, eu morria, morria, morria de vergonha.

Enfim, o temporal tinha que parar. Eu tinha que prestar uma homenagem: “Pra Creuzette e por Paulinho, São Pedro! Eu preciso ir. Trégua de 15 minutos!”, enquanto no fundo da minha cabeça o cenário worst-case aparecia “não ver o Elton John”. Perder essa chance. Não. Não. Não!

15 minutos!

De fato, a chuva foi abrandando. Eu tinha somente 15 minutos para chegar na Arena. A tensao era tanta, que cheguei a me confundir no caminho que, em outras ocasiões, eu faco de olhos fechados.

Quando o arco-íris apareceu em toda a sua vibração e beleza eu sabia que tudo daria certo. Chuva torrencial em Berlim, arco-íris e Elton John. Tem tudo para ser memorável. E foi.

Quando cheguei na Arena, a pré-banda já tinha acabado. A cara do cantor eu nem vi. Enquanto nos corredores os alemães compravam, em massa, seu elixir para vier, como diz o Christian a “Vitamina B I E R” (Vitamina Cerveja) eu deixei a moca olhar dentro da minha bolsa e entrei com o cartão na mão. Vi que o piano já estava colocado, estrategicamente, no palco. Não passaram 5 minutos e as luzes se apagaram. 6 minutos de atraso. Com chuva ou sem chuva. Com temporal ou sem temporal.

Com uma túnica lilás e (como não poderia ser diferente) com um número inflacionário de paetês, uma camisa que era uma mistura entre pink e vermelho choque choque choque, óculos em formato de borboleta e também decorados com strass, aparece um homem de passos firmes, levanta os bracos e, sem delongas, senta no piano. “The Bitch is back” (1974) foi a primeira música do show que durou ao todo 2 horas e mostrou um setentão com uma disposição de quem faz “True Fitness” (sem enrolação) na academia. Melhor que isso. Que continua com sede e vontade de tocar. 

Voz de um trovão, matematicamente desvendando tons e melodias que foram testemunhas de momentos deliciosamente felizes como momentos de melancolia e até mesmo de telenovela mexicana.

Momento político contra o ódio

Antes da metade do show, ele cantou em homenagem às vítimas de atentados terroristas enquanto um slide era projetado no palco com as iniciais das cidades atingidas. “Nós estamos vivendo uma época terrível no mundo. Eu estou de são cheio de tanto ódio, mas me recuso a desistir em acreditar nas pessoas. Precisamos lutar. É a única esperança que temos”, disse em tom autêntico e de preocupação.

Elton John já dizimou qualquer ceticismo alemão sobre sua carreira, seu estrondoso talento, suas participações com artistas do alto escalão, sua amizade com Lady Diana e o título de Sir lhe concedido pela Rainha Elizabeth e sua amizade por George Michael, uma das vozes mais únicas do olimpo Pop e que se calou para sempre na rebarba de 2016, logo no dia de Natal.

Don’t let the sun go down on me“, já na parte final do show que iniciou com 6 minutos de atraso (19:36 Uhr) e que durou duas horas e em duas horas pode acontecer muita coisa. A dramaturgia do show, por exemplo, pode adquirir caráteres, senão diferentes, totalmente antagônicos.

Por partes

Quando Deus ou Adão criou os alemães, esqueceram acoplar a eles, um chocalho nas cadeiras.

O show, com a presença de 12.000 não queria esquentar de jeito nenhum. Até mesmo na primeiríssima fila, que custa um valor bem salgado ou nos lugares diretamente em frente ao palco, os alemães assistiam, comportadinhos o show. O único movimento era fazer fotos com o celular. Essa triste gravura se repetia no camarote dos patrocinadores, em suma, em toda a parte.

Como pode? Ali no palco está, no mais amplo sentido, um dinossauro num show absolutamente honesto na postura, brilhante e enérgico no desempenho, com um repertório de causar arrepio, momentos de êxtase musical e, apesar dos Evergreens, de surpresa: o arranjo instigando a pressa e a dramática urgência de “Philadelphia Freedom”, batidas fortes dos acordes em “Benny & the Jets” (1973) com Elton John se levantando do piano preto Yamaha e virando para a plateia depois de cravar no piano os acordes que são a espinha da música e pedir aplausos ou fazer referência pro público que, repetidas vezes, não entendia o jogo. Ouvir “Crocodile Rock” foi como voltar para as minhas raízes tijucanas nun túnel do tempo Blitz.

Em Montreux, quando o Mestre B.B.King, pela primeira vez na noite, colocava as duas mãos atrás do ouvido do tipo “agora chegou a hora de me saudar” e com o pretexto de “I can’t hear you!” o auditório Strawisnky se transformava num caldeirão de bruxas.

Nem mesmo a declaração pé no chão, simples e honesta de agradecimento “ao público de Berim e da Alemanha” e nem mesmo a frase: “Eu faço muitos discos, mas o que eu gosto mesmo é de tocar para as pessoas”, numa dialética miltoniana que “todo o artista tem que ir onde o povo está” fez o coração do público berlinense bater mais forte. Teve aplauso foi cordial. Nada mais.

Porém, na última música, o Bis “Candle in the Wind”, originalmente escrita para Marlyn Monroe e que depois da morte trágica da Princesa Diana se tornou “Rose of England” surgiram de todos os cantos isqueiros e luz de celular para curtir, cheio de melancolia e bastante Kitsch a música dedicada a Princesa dos Corações- Para executá-la ele mudou de óculos.

A elaboradíssima versão de “Rocket Man” inluindo uma introdução XXL, foi o melhor momento do show. I’m still standing” foi o momento de voar. Sair do chão. Transcender.

Muitos Vale a Pena Ver de Novo/Duas ausências

“Have Mercy on the Criminal”, “Burn Down the Mission”, as menos conhecidas, tiveram arranjos elaborados e, que delícia, ver Elton John se lixando para o caráter nada intimista da Arena. “Daniel”, “Your Song” também vieram. Com a voz e a interpretação inesquecíveis.

O que faltou foi “Goodbey Yellow Brick Road” e uma das minhas preferidas “Skyline Pigeon”. O que não fez nenhuma falta foi a ausência de “Nikita”. Uff.

Os longos solos de piano e a presença constante da guitarra elétrica mostram a disposição que Sir Elton John tem nos palcos. Melhor ainda é ele não ter recorrido à estonteantes cantoras de back-vocal como apelo visual. Slides bem previsíveis para acompanhar as músicas foram as ferramentas. De “resto” a garra de um sexteto esbanjando energia e com um guitarrista entrosado musicalmente, que “quebrou” os que achavam que Elton John priorizaria o repertório melancólico sublinhado pela inflacionária predominância do piano.

Em estado de eletricidade, ao mesmo tempo, indignada com a frieza e falta de cadência dos alemães, conversei com Regina (agora morando em Dubai) e com Humberto, meu amigo paulista que vive em Zurique.  Independente um do outro, os dois me disseram que assistiram Elton John em NY e que ele foi “sinistro”. Pois é. 

Logo depois de transferir os áudios gravados no show de Berlim para o computador, o primeiro passo foi colocar bem alto o vídeo de “Benny & the Jets” do show de 2013, em Big Apple, como complemento para aquilo que faltou em Berlim: comichão nas pernas e nas cadeiras.

Wonderful Crazy Night” é o título da turnê atual e o promotor local em Berlim é a Semmel Concerts.  Foi sim. Uma noite louca, cheia de suspense com momentos de alta dramaticidade até mesmo antes de chegar ao local do show.

Neste sábado (08) era para Elton John se apresentar na cidade portuária de Hamburgo, na “Arena Blaycard”. Devido à cúpula do G20, autoridades da cidade portuária negaram permissão de aterrissagem para o aviao do artista. O show foi cancelado e transferido para 05 de dezembro, quando Hamburgo estará hibernado em sua tradicional neblina para essa época do ano. A terceira cidade a fazer parte da turnê é Mannheim (sul do país) onde o show foi no último dia 05.

O dia do sábado (08), o exêntrico foi fazer compras no Bikini Haus, um Shopping com uma concepção diferenciada de prestação de serviços para o consumido com alto poder de compra. Chegando no Shopping numa limosine preta, Elton John foi comprar…adivinha o que? Óculos! Fã declarado da loja Mykita, fundada por 4 amigos berlinenses e marca famosa no mundo inteiro, Elton John foi conferir os novos modelos.  Levou 3: o modelo “Siru” pela bagatela de 465 euros, o modelo “MM Transfer” por 595 euros e o modelito “Cara” por 339 euros.  A próxima parada foi na loja da Gucci na Alameda Kurfürstendamm para depois voltar aos aposentos no prestigioso Hotel de Rome prédio de um tradicional banco e que já foi cenário para o file “Lola corre Lola”, no bairro de Mitte, centro de Berlim.