Em Berlim: Elza Soares como você nunca viu

Fátima Lacerda

11 de novembro de 2016 | 20h37

 O HUXLEY”S localizado no centro de convulsividade urbana da Praça. Hermannplatz no bairro multiétnico de Neukölln não é exatamente o lugar para shows de âmbito intimista. A noite gélida do outono berlinense ratificaria ainda mais isso.

Um show é tão bom quanto a equipe que está no palco e atrás dele: a de produção, a equipe técnica. Nesses dois quesitos Elza está muito bem assistida. Equipe super simpática, entrosada, e com um intuito unânime de fazer o melhor show possível.

A simpatia de Netão, o Roadie Black-Power. A de Ana, encarregada do design de luz e que era só elogios para os pães alemães e para o Markthalle 9, um paraíso gastronômico da capital e Fernando Narciso, técnico de som. Fernando tem cravado em sua longa carreira o selo de qualidade. Ele, nada menos foi, provavelmente, o único que satisfez as necessidades técnicas do “mais volume”, do terrível Tim Maia. Suas histórias sobre os encontros com o síndico do Brasil complementaram, de maneira surpreendente e deliciosa as histórias de rolar de rir, delineadas por Nelson Motta na obra-prima “Vale tudo”.

Na produção de Elza tem Juliano, que não arreda o pé do lado de Elza. Também o casal Jorge Charmom e Mariana e, Pedro Loureiro, responsável pelo Marketing. Da última vez que Elza esteve em Berlim, em 2011, a coisa foi bem diferente. Os organizadores, ditos super-independentes eram visivelmente despreparados. Cenas constrangedoras entre o promotor e o ex-produtor de Elza, na época seu marido, podiam ser ouvidas para quem estava perto do camarim. O clima nos bastidores era pesado, tenso. Tensao era algo totalmente inexistente nesta passada de Elza por Berlim. O clima era de parceria, vontade de agregar, de competência e um imenso respeito pelo valor da artista e pela pessoa de Elza. Lindo de ver e fazer parte desses momentos de tanta alegra e vontade de fazer o melhor no realizar artistico. 

No final das entrevistas, declarei pra Elza a importância que ela tem e o exemplo de superação e gana de viver que ela representa para mulheres de todas as idades.

Kastrup: São Paulo- Dinamarca

“Ele é culpado de tudo”, revelou Elza ao apresentar a banda no final do show de duração de um pouco mais de uma hora e com 2 Bis, um planejado e o outro, espontâneo. Ela se refere a Guilherme Kastrup, descendente de dinamarqueses. É com a sua forma de tocar batera que estica um linha estilística, um barbante que vai da primeira à décima faixa do disco que trás booklet bilíngue dos textos das músicas.Arranjos supreendentes, passagens letárgicas e nada de batucada, como poderia-se esperar. Elza se despediu – temporariamente- do samba all round e foi excursar em outros estilos. A diversidade é uma constante na escolha dos tracks do disco e, consequentemente, na escolha das músicas do show.

Como no pedestal, pegando carona da simbologia da cadeira, Elza salta aos olhos do público mais do que qualquer outro dos músicos. Quem esperava batuque na cozinha, digo, na batera, se decepcionou. Parte do público que vai ao show com o anúncio “Brasil” e quer zoar e beber cerveja incomoda, mas não faz a parte do leão. Essas, “oferendas”, como dizia o Felix da novela do Maneco, aparecem sempre.. A maior parte do público estava feliz em ter a Diva frente aos olhos e ouvidos. “Quero ouvir gritos!”, dizia com tom de quem pode e sabe porque pode. Na hora da polêmica “Pra fuder”, a quinta faixa do disco, Elza não poupa nem na ênfase, nem na repetição do refrão. Bela, recata e do lar? Hahaha!

Violência contra mulheres

Tanto na entrevista para a Rádio Fritz e quanto para a TV regional de Berlim, RBB, fui eu a tradutora simulânea. Nelas, Elza delineou sobre a “motivação para fazer o disco”: “Para as mulheres vítimas de violência física“. A matéria na TV foi exibida ainda na noite do show, às 22:10 horário local no programa “RBB Aktuell” e fica disponível durante uma semana na mediateca da emissora RBB.

O 10º Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e divulgado em 03/11 e considerando o ano de 2015, afirma que ” em 2015 ocorreu um estupro a cada 11 minutos e 33 segundos no Brasil, o que significa 5 mulheres por hora.

É São Paulo que lidera a lista do maior número de casos no Brasil, com a queixa policial de 9.265 casos. Não precisa ter bola de cristal para saber que a estatística não oficial é, no mínimo, o dobro disso. E ela se deve à mulheres que temem em dar queixa ou por relações de extrema dependência do companheiro/marido seja ela do âmbito social, financeiro e emocional. Num pais onde mulheres são definidas e rotuladas com sobrenomes como “Popozuda”, apelidadas como também (auto) rotuladas como “Mulher pera”, “Mulher melancia” e a legitimação e “sucesso” acontece através de Selfies de “barriga zerada” porque é a barriga zerada é que gera cliques, gera legitimidade por estar En Vogue. Enquanto a Globeleza foi símbolo de sucesso e visibilidade e, só assim, legitimidade, meninas e jovens mulheres terão imensa dificuldade em destrançar alhos de bugalhos e a estatística continuará exibindo uma estarrecedora realizada na vida de tantas mulheres.

Maria da Vila Matilde

Quando anunciou “Matilde”, a oitava música do show e a terceira faixa do disco, o público se mostrava disperso: “Ouve agora aqui, mulherada. Presta atenção!”, disse ela com voz rígida.

O refrão da música, avisa: “Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim“, numa sonoridade de marchinha com rápidas pinceladas de guitarra elétrica e uma levada RAP & textot mais falado do que cantado e uma arredondada com Scat e com repetição de um mantra. Essa música também teve um Vale a Pena Ver de Novo,no Bis. além do clássico “Volta por cima”, num arranjo bem mais carregadao do que a gravação original e “Pressetimento”.

Berlim foi o início da turnê europeia que passa por Utrech, Londres, Porto, Aveiro, Lisboa.

As fotos do show foram cedidas com exclusividade para o Blog pela produção de Elza Soares.

O copyright é do fotógrafo Erick Amarante.

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